Crônica de Brasília XLV
Tomei um banho demorado, respeitando cada momento do ritual e a água caindo, milagroso bálsamo, acalmou-me corpo e alma. O barulho da água, a textura da água, seu poder de cura, penso e agradeço a Deus pelo vigor, pela beleza da natureza no planeta terra, por sua irmandade com a tessitura humana.
Nós, tal qual a terra, somos quase totalmente água e a matéria ocupa apenas 30% de nossa estrutura, o resto é liquidez, é éter, é urdidura. A água em nós e nela, na terra, é existência e cura. Sem água, a gente morre, penso e dou um mergulho nos pensamentos.
Às vezes, eles viajam “por mares nunca dantes navegados”, profano o texto épico de Luís de Camões. Os Lusíadas é uma ode ao povo português só comparável ao que fez Homero ao povo grego com suas Ilíada e Odisséia, divago. A grandeza da literatura é essa, matar a nossa sede de entender a alma humana. O bem e o mal debatendo-se, revelando-se aos nossos olhos em sua luta eterna e inglória.
Quando enfim alguém consegue traduzir em texto essa aventura, o milagre acontece e o encanto se refaz. E é quando o homem se vê enfim filho de Deus e dá um salto rumo à eternidade. Os grandes livros da humanidade causam esse impacto e mudam o rumo da história. E os visionários são esses homens por trás das obras.
Em Brasília, no curso de Letras da UnB, nós estudamos alguns desses livros visionários, penso e vem-me à memória Grande Sertão Veredas, do brasileiro Guimarães Rosa. O livro traduziu para o mundo a alma dos sertões das Minas Gerais e a saga de sua gente com toda sua carga de dor e de grandeza.
Vidas Secas, de Graciliano Ramos, também fala dessa saga sertaneja, só que do ponto de vista do nordestino. Fabiano, o soldado amarelo, a cachorra Baleia são personagens inesquecíveis dessa tragédia brasileira. Em pleno século XX, assistimos a nossos irmãos dos sertões nordestinos sucumbirem à fome e à sede, abandonados à própria sorte. “O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão” diz a frase profética do líder espiritual Antonio Conselheiro, fundador do reino de Canudos nos sertões da Bahia, trazido à luz por Euclides da Cunha em Os Sertões, obra fundamental de nossa sociologia, ao lado de Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, e de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda.
O Romance da Pedra do Reino, do paraibano Ariano Suassuna, é outra grande obra nacional a traduzir a saga sociológica e existencial do povo sertanejo. Um romance selvagem, tragicômico, avassalador, ainda incompreendido nas academias brasileiras. No curso de Letras da UnB, estudamos as peças maravilhosas de Ariano, como o Auto da Compadecida, obra prima do teatro brasileiro, mas nada se falou de seu grandioso romance.
Nesse país continental, confesso que nunca ouvira falar de uma literatura goiana, até me mudar para Brasília e entrar na UnB. Foi quando tive a sorte de conhecer escritores da estirpe do contista Bernardo Elis e da poetisa e doceira Cora Coralina. Cora escreveu secretamente, à beira do fogão, em pedacinhos de papel que mantinha escondidos até quase completar 80 anos. Foi somente quando enviuvou que pode voltar à Cidade de Goiás, a primeira capital do estado goiano e lá pode finalmente cumprir o seu destino.
Tive a felicidade de visitar sua casa em Goiás Velho – como carinhosamente chamamos a Cidade de Goiás – e pude beber na fonte a beleza de sua poesia e a alquimia de seus doces. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver lerá.











