Crônica de Brasília XLV

Tomei um banho demorado, respeitando cada momento do ritual e a água caindo, milagroso bálsamo, acalmou-me corpo e alma. O barulho da água, a textura da água, seu poder de cura, penso e agradeço a Deus pelo vigor, pela beleza da natureza no planeta terra, por sua irmandade com a tessitura humana.
Nós, tal qual a terra, somos quase totalmente água e a matéria ocupa apenas 30% de nossa estrutura, o resto é liquidez, é éter, é urdidura. A água em nós e nela, na terra, é existência e cura. Sem água, a gente morre, penso e dou um mergulho nos pensamentos.
Às vezes, eles viajam “por mares nunca dantes navegados”, profano o texto épico de Luís de Camões. Os Lusíadas é uma ode ao povo português só comparável ao que fez Homero ao povo grego com suas Ilíada e Odisséia, divago. A grandeza da literatura é essa, matar a nossa sede de entender a alma humana. O bem e o mal debatendo-se, revelando-se aos nossos olhos em sua luta eterna e inglória.
Quando enfim alguém consegue traduzir em texto essa aventura, o milagre acontece e o encanto se refaz. E é quando o homem se vê enfim filho de Deus e dá um salto rumo à eternidade. Os grandes livros da humanidade causam esse impacto e mudam o rumo da história. E os visionários são esses homens por trás das obras.
Em Brasília, no curso de Letras da UnB, nós estudamos alguns desses livros visionários, penso e vem-me à memória Grande Sertão Veredas, do brasileiro Guimarães Rosa. O livro traduziu para o mundo a alma dos sertões das Minas Gerais e a saga de sua gente com toda sua carga de dor e de grandeza.
Vidas Secas, de Graciliano Ramos, também fala dessa saga sertaneja, só que do ponto de vista do nordestino. Fabiano, o soldado amarelo, a cachorra Baleia são personagens inesquecíveis dessa tragédia brasileira. Em pleno século XX, assistimos a nossos irmãos dos sertões nordestinos sucumbirem à fome e à sede, abandonados à própria sorte. “O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão” diz a frase profética do líder espiritual Antonio Conselheiro, fundador do reino de Canudos nos sertões da Bahia, trazido à luz por Euclides da Cunha em Os Sertões, obra fundamental de nossa sociologia, ao lado de Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, e de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda.
O Romance da Pedra do Reino, do paraibano Ariano Suassuna, é outra grande obra nacional a traduzir a saga sociológica e existencial do povo sertanejo. Um romance selvagem, tragicômico, avassalador, ainda incompreendido nas academias brasileiras. No curso de Letras da UnB, estudamos as peças maravilhosas de Ariano, como o Auto da  Compadecida, obra prima do teatro brasileiro, mas nada se falou de seu grandioso romance.
Nesse país continental, confesso que nunca ouvira falar de uma literatura goiana, até me mudar para Brasília e entrar na UnB. Foi quando tive a sorte de conhecer escritores da estirpe do contista Bernardo Elis e da poetisa e doceira Cora Coralina. Cora escreveu secretamente, à beira do fogão, em pedacinhos de papel que mantinha escondidos até quase completar 80 anos. Foi somente quando enviuvou que pode voltar à Cidade de Goiás, a primeira capital do estado goiano e lá pode finalmente cumprir o seu destino.
Tive a felicidade de visitar sua casa em Goiás Velho – como carinhosamente chamamos a Cidade de Goiás – e pude beber na fonte a beleza de sua poesia e a alquimia de seus doces. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver lerá.

7 fevereiro , 2010 | Autora Amneres | Nenhum Comentario »

Crônica de Brasília XLIV

A dieta dos índios ianomâmis, na fronteira do estado de Roraima com a Venezuela, inclui formigas, gafanhotos e piolhos, penso cá comigo, estarrecida com esse último ingrediente, considerado asqueroso – essa é a palavra – por nossa cultura branca ocidental. Confesso ter duvidado da veracidade da notícia, embora ela me tenha sido relatada pela própria fonte, como diz o jargão jornalístico, pois foi o fotógrafo Tadeu Lubambo em pessoa quem me relatou o fato, por ele vivenciado há quase trinta anos, quando trabalhava na extinta Revista Manchete, do Grupo Bloch.
O império de comunicação de Adolpho Bloch, especialmente nas décadas de 50 e 60, foi quase tão poderoso quanto o foram os Diários Associados, de Assis Chateaubriand, entre os anos 20 e 50, e as Organizações Globo, de Roberto Marinho, a partir da década de 70. Nem mesmo a Internet conseguiu desbancar o poder da televisão e o fato é que ainda hoje os Marinhos - cujo patriarca, Roberto, morreu em 2003 - seguem ditando as cartas e os rumos da opinião do brasileiro das classes pobre e média desse país continental.
O Grupo Bloch começou a ser erguido pelo imigrante russo Adolpho Bloch em 1952 e já em 1957, a Revista Manchete vendia 120 mil exemplares, consolidando-se como o carro-chefe da empresa. Grande amigo do presidente Juscelino Kubistchek, Adolpho Bloch participou ativamente do processo de construção da nova Capital e durante toda a década de 60, a Manchete destacou-se em coberturas dos principais acontecimentos políticos de Brasília. No golpe militar de 1964, por exemplo, a revista foi a única a publicar a foto de João Goulart deixando o Rio e partindo para o exílio no Uruguai.
No início da década de 80, na UnB. o chamado quarto poder era dissecado em suas entranhas e já saíamos das cadeiras da universidade conscientes de que nós – os jornalistas – tínhamos a missão quase impossível de resistir à ditadura da chamada linha editorial, imposta pelos empresários de comunicação. E ao mesmo tempo, sabíamos de antemão ser aquela uma luta inglória.
“Água mole em pedra dura tanto bate até que fura” diz a sabedoria popular. E nela nos apoiávamos para fazer a resistência ideológica e escrever nas entrelinhas das reportagens o que não nos seria permitido dizer em alto e bom som, sob pena de perdermos o emprego e a batalha pela sobrevivência. Exatamente por isso, o índice de alcoolismo e desilusão ainda hoje é assustadoramente alto entre os jornalistas de meia idade. E os que não abandonam definitivamente a profissão, praticam alguma atividade paralela que lhes preencha a alma.
Deve ser por isso que há tanto jornalistas escritores, entre os quais me incluo, escrevo à mão, sentada à varanda da casa de praia no Cumbuco, no Ceará, onde aproveito a luz do crepúsculo das últimas horas de 2009 e espero o novo ano chegar com o peito cheio de esperança. Ao oeste, bem às minhas costas, o astro-rei se despede por entre os telhados das casas coloniais e reflete seus raios amarelos nas palmas dos coqueiros. À frente, assisto ao quebrar das mansas ondas do mar e vejo a lua quase cheia clarear, à medida que o sol se põe e a noite expande suas sombras.
Na noite de 31 de dezembro de 2009 para 1º de janeiro de 2010, assistiremos à lua cheia no céu dos trópicos e, sob as benções do Pai Eterno e da Virgem Maria, brindaremos à fé e ao amor, e agradeceremos pela beleza da vida até aqui vivida, escrevo. E então me volta à memória a história contada por Tadeu Lubambo. Em 1982, o lendário fotógrafo da Revista Manchete ofereceu ao mundo uma histórica reportagem fotográfica sobre o modo de viver de uma tribo amazônica da grande Nação Ianomâmi que, até então, nunca havia tido contato com o homem branco.
O fotógrafo viveu em comunidade junto à tribo por longos meses, deixado ali por sua própria conta e risco por um avião contratado pela revista, com a promessa de ser resgatado – vivo ou morto – nove meses depois, exatamente o tempo de uma gestação. Tadeu contou que a dieta e o modo de viver dos índios mudaram sua vida para sempre. Saiu da tribo com sessenta quilos a menos e uma percepção intuitiva absolutamente desenvolvida que nunca mais o abandonou. Hoje, o fotógrafo dos ianomâmis vive seus dias na Praia da Pipa, no Rio Grande do Norte, onde tem um restaurante tanto exótico quanto encantador: o Camamo.
Diria que o velho repórter fotográfico se transformou numa espécie de pajé da culinária com uma alquimia toda própria que mistura cheiros, luzes e sabores. Tadeu Lubambo não serve pratos, antes serve poções onde se misturam sabores como o da carne de jacaré e doces aromas como os da canela e da goiaba, numa ambientação à luz de velas e uma decoração que mescla culturas tão diversas quanto as indígena, asiática e mexicana. A reportagem fotográfica de Tadeu Lubambo sobre a tribo recém descoberta ganhou o mundo, na década de 80, e acabou por atrair para ali uma leva de curiosos, pesquisadores e garimpeiros. O resultado, segundo me contou com profundo pesar, foi a contaminação, por doenças levadas pelo homem branco, e o extermínio de toda a tribo. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver lerá.

31 janeiro , 2010 | Autora Amneres | Nenhum Comentario »

Crônica de Brasília XLIII

Há uma crônica de amor inacabada e retomá-la é o sonho de todo cantor, vem-me o verso ao pensamento como uma fluida memória, uma canção universal comum a todos os membros do que seria uma eterna academia de poetas.
A poesia é uma canção universal e executar com perfeição sua sinfonia é o sonho de todo poeta. Fernando Mendes Vianna – que tive a graça de encontrar já quase no fim de sua passagem pela terra – tinha essa aura. Suas antenas estavam sintonizadas à fala íntima desse coro de anjos da poesia que a repassa aos seus seguidores pelas vozes dos elementos e pelo ato de amor entre as criaturas.

E é ao amor, a sua força curativa, que quero, hoje, às vésperas do cinqüentenário de Brasília, render uma homenagem a todos os poetas que cantaram e cantam o amor, do alto dos mais de mil metros desse Planalto Central do Brasil.

No rádio, Elis Regina canta a música “Aos Nossos Filhos”, de Ivan Lins, numa versão de tirar o fôlego. Lá fora, ladra o cão bebê que brinca solto no jardim e o sol da manhã faz brilhar o verde das plantas e nossos olhos ante a visão de tanta beleza.

Bendito seja Deus que nos criou e a natureza, escrevo, enquanto assisto às pequenas nuvens dançarem no vasto azul do céu sobre mim. Os pássaros cantam, dão vôos rasantes sobre minha cabeça, daqui de onde os ouço e vejo recostada à rede de dormir.

De repente, vem-me à mente o novo livro do poeta Reynaldo Jardim: Sangradas Escrituras. O livro foi lançado no Bar Brahma, na Comercial da 201 Sul. Com suas impressionantes mil e duzentas páginas, a antologia reúne poemas inéditos e antigos da vasta obra desse artista múltiplo, que também fez história no jornalismo brasileiro.

Reynaldo Jardim foi o criador, nos anos 50, do suplemento dominical do Jornal do Brasil, Caderno de Domingo, e do Caderno B. O SDJB tornou-se o mais importante suplemento literário de poesia concreta do Brasil. Outra façanha impressionante de Reynaldo foi ter mantido uma coluna diária de poesia por dois anos - de 2004 a 2006 - no Caderno B daquele jornal.

No dia do lançamento de Sangradas Escrituras, encontrei também o poeta Wilson Pereira, autor da premiada antologia Pedra de Minas, que reúne poemas de vários de seus livros. Mineiro de nascimento, Pereira chegou a Brasília nos anos 70 e há poucos meses, comemorou seus 60 anos com um recital no Feitiço Mineiro, do qual tive a honra de participar.

Aliás, tanto o Feitiço Mineiro quanto o Bar Brahma são de Jorge Ferreira, outro mineiro chegado a Brasília nos anos 80, que tem mais quatro casas noturnas na cidade e vem fazendo a história de Brasília no ramo dos bares e da gastronomia. Seu maior feito, com certeza, é o Feitiço Mineiro que, há 20 anos, abre suas portas para a boa música brasileira, do samba ao chorinho, do rock ao jazz e ao baião. Em 2009, o Feitiço Mineiro comemorou seus vinte anos de existência com uma agenda de shows que reuniu importantes nomes da música, especialmente mineira, carioca e brasiliense. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.

 

24 janeiro , 2010 | Autora Amneres | Nenhum Comentario »

Crônica de Brasília XLII

Foi durante uma entrevista de Clarice Lispector à TV Cultura, em 1977, que outra vez a vi: a alma humana desnuda, exposta num caderno secreto. Quem faz um diário o faz por querer ser ouvido, penso. É esse o segredo – essa voz interior gritando: por favor, alguém me ouça – que guardam todos os diários escritos no mundo. Se eu pudesse escolher uma profissão seria essa: escafandrista de diários secretos, só para mergulhar no universo dessas vozes internas, e aproximar-me da alma de cada um desses autores.
Pois bem, achei o diário há poucos dias, quando fui ao Centro Cultural Banco do Brasil visitar exposição em memória da escritora. Ele estava esquecido no sofá em que me sentei para assistir à entrevista de Clarice, doze anos depois de sua morte. Procurei o dono dos escritos por todas as salas da exposição. Não resisti e demorei-me mais numa sala em que abri várias gavetas dentro das quais vi fotos, troca de cartas e matérias de jornais retratando a autora ucraniano-carioca.
Depois, continuei a busca e finalmente voltei à sala de vídeo, mas não havia ninguém. Sentei-me no sofá na penumbra e utilizando as luzes da projeção das imagens de Clarice, abri a primeira página do diário com o peito trêmulo de emoção. E é tomada pelo deslumbramento e pela emoção que vos canto nessas páginas o que li naquele caderno anônimo.
Se eu conseguir traduzir-vos um singelo retrato do que ali estava exposto, terei cumprido a missão que tomei para mim de repassar ao próximo, de convosco repartir a benção de, mais uma vez, ter descoberto esse tesouro: a alma humana à imagem e semelhança de Deus, na plenitude de sua grandeza e solidão. Ditas essas palavras, eis o que vi escrito no diário:

“Espero por meu amor, aquele a quem direi tudo, as palavras mais belas, os pensamentos mais puros. Aquele a quem mostrarei o abismo interior de onde subo à superfície em busca de ar, antes de novamente mergulhar no profundíssimo escuro.

Dei para chorar, várias vezes ao dia, de uns tempos para cá. Isso aconteceu depois que aprendi a amar. Somente a língua dos anjos e o amor são capazes de desanuviar-me a alma. Ouço-a agora – a língua dos anjos – nos cantos dos pássaros, sentada ao banco de uma praça, em pleno Planalto Central.

Ao meu redor, árvores, largas calçadas de cimento e lascas de madeira rústica. A minha frente, vê-se um vasto gramado onde se plantaram lúdicas esculturas. São casulos, segundo diz a placa. Ao longe, veem-se os arcos da Ponte JK e veem-se pássaros e um avião e outro avião seguindo o rumo do aeroporto, sobre ás águas plácidas do Paranoá.

Um beija-flor completa a cópula das flores brancas sobre minha cabeça. E as maritacas verdes anunciam o fim da tarde e antecipam em bando as sombras lúgubres da noite próxima.  As luzes dos postes se acendem e os arcos da ponte resplandecem refletindo a luz elétrica, enquanto o poente escurece, cobrindo lentamente a cor crepuscular.

Então vejo-o surgir - o meu amor - por entre as árvores e agradeço a Deus que o criou para encantar-me e merecer-lhe seja o meu milagre, enquanto vida houver, enquanto eu for…”

De repente, assusto-me com o barulho de passos chegando à sala de vídeo. Instintivamente, fecho a caderno e o coloco no sofá ao meu lado, na mesma posição em que o achara. De olhos vidrados no vídeo, com o coração aos saltos, ouço os passos apressados aproximarem-se e mãos trêmulas agarrarem, arrebatarem o precioso manuscrito.
Passado o susto, viro-me para ver quem é o autor, mas só lhe vejo o vulto misturar-se a outros vultos, na penumbra da sala de imagens. Brasília é uma cidade mágica, penso, ou será a vida em seu cotidiano milagre? De repente, no meio da tarde, numa sala aonde um DVD projeta os olhos tristes de Clarice, e repete incansavelmente a sua rara imagem, acontece o inaudito. E a gente bebe dessa fonte de onde jorra a vida, de onde brota a arte.
Foi essa luz que captei nas folhas do diário: a alma humana solitária embevecida pelo amor. E tudo em mim enfim se iluminou, pois que o amor é bom e solidário, e hoje eu vivo de compartilhá-lo convosco e tanto mais o tenho tido, mais dividi-lo quero, enquanto eu for. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver lerá.

17 janeiro , 2010 | Autora Amneres | Nenhum Comentario »

Crônica de Brasília XLI

Saí do show de Célia Porto, na Livraria Fnac, no Parkshopping, com um nó na garganta, uma sensação de angústia, uma vontade de chorar, chorar, chorar. E ao mesmo tempo, me arrebatava uma esperança louca e a fé no amor, com seu poder de varrer o mal e transformar a vida. Foi o lançamento de Célia Porto canta Renato Russo, uma reedição do histórico CD gravado pela cantora brasiliense em 1996, acompanhado de perto pelo próprio Renato.

Renato Russo foi, sem dúvida, o cantor mais emblemático de nossa geração. Ele parecia retratar exatamente o que sentíamos, nós os filhos de Brasília que formávamos a juventude dos anos 80. Éramos um misto de deslumbramento, rebeldia, desilusão e inconseqüência, “éramos os filhos da revolução, geração coca-cola”.

Confesso que fiquei emocionada com a versão de Célia para músicas como Tempo Perdido, Há Tempos, Perfeição, Pais e Filhos. Em Monte Castelo, a cantora é especialmente feliz ao interpretar o hino de amor à vida, de esperança e de fé deixado pelo ídolo do rock, ao unir numa canção inspirada o texto bíblico Coríntios 13 ao soneto de Luís de Camões.

Não foi por acaso que Renato Russo morreu aos 47 anos, vítima de AIDS, o mal do século passado que matou grandes artistas de nossa geração, assim como acontecera no século XIX com a tuberculose, que vitimou centenas de autores românticos. Os artistas são as antenas da raça, disse o poeta Erza Pound em seu ABC da Literatura. Para o bem e para o mal, penso comigo, ao ouvir outra vez, em casa, as 14 músicas gravadas por Célia Porto e sua banda. Os arranjos e a regência são do maestro Rênio Quintas.

As letras de Renato Russo falam de solidão, da angústia existencial, da dor humana, da sede, da fome, do abandono, da deserção. Mas também falam de amor, de fé e de esperança. Hoje, 13 anos após sua morte, Renato ganha cada vez mais adeptos entre as novas gerações. Meus filhos Marquinho e Isadora que eram crianças quando o cantor morreu, simplesmente adoram o músico e, como eles, todos os de sua geração que têm hoje entre 16 e 23 anos.

É que infelizmente o mundo não mudou. Pelo contrário, aumentou no homem a sensação de proximidade do fim dos tempos, como previu São João, apóstolo de Jesus Cristo, no Apocalipse. E as letras do líder da banda Legião Urbana são mais atuais do que nunca. É só acompanhar os noticiários do mundo. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.

 

10 janeiro , 2010 | Autora Amneres | 1 Comment »

Crônica de Brasília XL

Quando cheguei a casa aquela noite, ouvi o som de um piano. Apurei o ouvido e reconheci: era a Ave Maria, de Franz Shubert, um hino dos anjos, captados pelas antenas do artista em homenagem à Virgem. A música clássica e o piano formam um par perfeito, penso enternecida pela imagem de meu filho, Marquinho, ao piano, tocando de memória, lindamente. É o sopro de seu pai, o sopro de Minas Gerais, quase um país onde a música clássica inda transita no cotidiano.

Em Minas, ir ao conservatório de música é como freqüentar a academia ou a aula de inglês: quase todo mundo faz. Em Minas, quase todo mundo toca e canta, e com certeza todo mundo ama a música, do clássico ao jazz e ao Clube da Esquina. “Oh Minas Gerais/Quem te conhece não esquece jamais/Oh Minas Gerais”, cantarolo o refrão do hino mineiro, recostada ao sofá do quarto. Preparo-me para dormir, depois de uma noite e tanto.

Fui ao Centro Cultural Banco do Brasil para a abertura de uma exposição sobre Clarice Lispector. A escritora carioca nasceu, em verdade, na Ucrânia, mas aos dois anos de idade, mudou-se para o Rio de Janeiro. Sorte nossa que pudemos ter o privilégio de lê-la em português. Os romances Água Viva, A Paixão segundo GH e A Hora da Estrela são obras primas da literatura universal.

Lembro-me de ter ficado impressionada com a tristeza da escritora nas imagens projetadas na parede, com trechos de uma entrevista dada à TV Cultura, em 1977. No vídeo, ela conta que, aos treze anos, ficou tão impressionada com a leitura de O Lobo da Estepe, de Herman Hesse, que começou a escrever um conto que não terminava nunca, uma história sem fim. Já foi dito que a literatura é mesmo uma história infinita, penso, ao lembrar-me do que ouvi da escritora cearense Ana Miranda.

Durante o lançamento de seu novo romance Yuxin, Ana Miranda referiu-se a essa história sem fim. “A literatura é como uma corrida em que os escritores, ao longo do tempo, passam o bastão uns aos outros, para contar essa história eterna”, afirmou a escritora. Ela contou que suas histórias são sopradas, muitas vezes, pelos espíritos desses escritores e personagens da história universal, como o poeta Gregório de Matos e o Padre Vieira. Ambos são personagens de seu romance de estréia: Boca do Inferno.

Vou voltar à exposição e abrir todas as gavetas de Clarice, prometo para mim mesma, lembrando-me do impacto que tive ao ver, pela primeira vez, a exposição em seu formato completo, no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Lá eram centenas de gavetas donde se achavam relíquias de escritos e correspondências da escritora existencialista. Aliás, o Museu da Língua Portuguesa é uma obra de arte viva, em eterna construção. Viajar por suas imagens e vozes de grandes personagens da história nacional e navegar pela origem das palavras através das dezenas de terminais de computadores fez-me pensar no mito da Torre de Babel, quando segundo a Bíblia Sagrada, as línguas se misturaram.

O português é assim, essa colcha de retalhos formada por verbetes de raízes tão diversas quanto o grego e o latim, os dialetos da África, as línguas indígenas, e até as línguas saxônicas e germânicas e até vestígios de idiomas árabes e asiáticos. “A língua é minha pátria/Mas eu não tenho pátria, eu tenho mátria e quero frátria”, ressoam em minha mente os belíssimos versos da canção Língua, de Caetano Veloso. E eu assino embaixo. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.

*O Estado de Minas Gerais não possui um hino oficial. A música “Oh! Minas Gerais”, versão de “Viene Sul Mare” é vista, por muitos, como tal, ainda que nunca tenha sido oficializada pelo governo. A música é originária da valsa italiana “Viene Sul Mare”, com letra adaptada por José Duduca de Moraes.

 

3 janeiro , 2010 | Autora Amneres | Nenhum Comentario »

Crônica de Brasília XXXIX

Só Hércules para conseguir abrir essa garrafa, penso comigo e seguro a gargalhada, enquanto faço força para abrir o frasco de água mineral recém comprado. Quanto exagero, digo para mim mesma, sentada à mesa da padaria perto de casa. Espero o sol baixar para seguir a caminhada. Em Brasília, já passa das dezessete horas no horário de verão. O tempo é um misto de chuva e sol, típico de dezembro, o último mês do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2009.

Há exatos 30 anos, pisei pela primeira vez o solo árido do Planalto Central. Isso aconteceu ainda ontem, repito o jargão dos antigos, e agora, eu e Brasília entramos definitivamente na meia idade. Cinquentenárias como árvores frondosas, penso, olhando os sete ipês enfileirados na paisagem em frente a mim. O sol se esconde nas nuvens refrescando o tempo abafado. Levanto-me e sigo em direção à calçada do outro lado do asfalto. Os pássaros cantam nos jardins e a vida encanta no sopro do vento envergando as hastes dos bambus mais altos, no doce murmúrio dos capins

Caminhar no Lago Norte em direção ao Clube do Congresso é um percurso que gosto de repetir. Na medida em que se avança em direção ao Parque das Garças, diminuem os roncos dos carros e aumentam as vozes das maritacas e dos bem-te-vis. As mangueiras do canteiro central cresceram junto com meus filhos. São árvores jovens, de no máximo 20 anos. Quando, há 18 anos, mudei-me para a Península, elas nem faziam sombras, divago.

Naquela época, o Lago Norte era um bairro meio deserto, afastado da cidade. E como não havia outro lazer, nossa diversão predileta eram as festas e os inúmeros churrascos. Foi numa dessas festas, em casa de minha amiga Evelin Penna que presenciei uma das cenas mais esdrúxulas de minha vida. Foi no começo da década de 90. A festa era performática, bem ao gosto da época. Havia malabaristas, engolidores de fogo, cantores de ópera e outros personagens misturados a atores, jornalistas, escritores, e a todos nós, amigos de fé e autodenominados livres pensadores, vivendo a utopia de uma cidade em construção.

A festa era um verdadeiro happenning, a cara de Brasília e da querida Evelin. Pois bem, foi numa dessas perfomances, ansiosamente aguardadas especialmente pelas mulheres, que aconteceu a desdita. Sentamo-nos espalhadas nas almofadas e tapetes persas da belíssima sala da casa, toda construída com materiais de demolição, para assistir – ao vivo e a cores – à apresentação de um ator, em um nu frontal, conforme se espalhara a boca pequena durante a festa.

De repente, apagou-se a luz e fez-se silêncio, ia começar o espetáculo. Foi quando um foco de luz azul iluminou o palco encoberto pela névoa que aconteceu o inesperado: o jovem ator, com o corpo todo pintado e nu como veio ao mundo, surgiu no palco, rente à parede, com o pelo todo arrepiado e tiritando de frio. Era julho em Brasília e a noite especialmente gelada daquele dia fatídico encolheu a carne e o sexo frontal do ator performático. Não deu outra: a gargalhada foi geral, cruel, incontrolável.

Confesso que também me ri, mas ao mesmo tempo compadeci-me ante a escultura viva daquele estranho David. Conta a lenda que o escultor renascentista italiano Michelangelo, ao terminar seu David, todo lapidado em um bloco único de mármore de carrara, extasiado diante da própria criação, teria dito: Porque não falas? Tive a felicidade de vê-lo exposto na Galeria dell’Accademia, em Florença e quase repeti o gesto do artista, tamanha a perfeição da gigantesca escultura de mais de cinco metros de altura. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.

27 dezembro , 2009 | Autora Amneres | Nenhum Comentario »

Crônica de Brasília XXXVIII

A capa do livro de espanhol sobre o qual escrevo tem o desenho de uma torre que parece a Torre de Babel. “Só que aqui todos se entendem”, deve ser essa a mensagem que se tentou passar nesse estranho marketing. E arriscado, penso, pois tenta negar um mito e, no entanto, estou certa de que dez entre dez pessoas que olharem a imagem vão pensar em Babel e no castigo de Deus aos homens, pelo ato de tentarem construir uma ponte de pedra em direção ao céu. E foi então que aconteceu a separação das línguas.

A Torre de Babel é uma obra inacabada, vem-me a imagem ao pensamento. E até hoje a obsessão do homem é tentar ser Deus. É só a gente pensar no atual estágio das pesquisas genéticas, apontando para a possibilidade da clonagem humana. O próximo passo é assustadoramente real: quem será o primeiro de nós a realizar a experiência de clonar a vida humana?

Quem nascer dali trará a alma eterna dentro de si? Fazer um nosso igual nos livrará da morte ou, ao contrário, duplicará nossos medos? Entrego-me ao sombrio pensamento, quando, de repente, meus olhos avistam a silhueta da Catedral de Brasília, semi-encoberta por um plástico branco a esconder-lhe a beleza. Não raro, a igreja passa por reformas desse tipo, mas agora ela se prepara para a festa dos 50 anos da cidade. Uma senhora, como eu, distraio o pensamento imaginando que uma multidão virá comemorar o cinqüentenário bem aqui, em plena Esplanada dos Ministérios.

É incrível a largura da Esplanada. Por maior que seja a concentração de pessoas, há sempre espaço livre para se caminhar. Olho os gramados imensos em direção ao Congresso Nacional e pela memória passam imagens do Badernaço, do cortejo fúnebre de Tancredo Neves, do comício das Diretas Já, da posse de Lula em sua primeira eleição. Caminhar em meio às gentes nos gramados da Esplanada dos Ministérios é uma experiência incrível. Por mais gente que tenha, a sensação é sempre de eternidade, de imensidão. E se a gente se deita no gramado e olha para cima, então, é uma viagem. O peito se enche de esperança diante da proximidade do céu do Planalto Central.

“Deste planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”, ecoam em meus ouvidos a frase mítica do presidente Juscelino Kubitschek, ao pisar, pela primeira vez, em dois de outubro de 1956, o solo do Planalto Central, exatamente no lugar onde Brasília seria edificada.

A saga dos candangos que aqui vieram edificar o Eldorado já começa a ser cantada pelos seus artistas e poetas. O poeta Fernando Mendes Vianna nos deixou um poema magistral sobre essa história, publicado na antologia Marinheiro do Tempo. O cineasta Vladimir Carvalho também nos fala dos candangos operários que se sacrificaram e até perderam a vida na duríssima tarefa de erguer, em um tempo insano, os palácios e monumentos que se tornaram símbolos da capital administrativa do Brasil, desde 21 de abril de 1960. O filme de Vladimir que documenta essa saga, antes que eu me esqueça se chama “Velhos Companheiros de Guerra”.

Meu contemporâneo Renato Russo cantou como ninguém a juventude de Brasília que veio para cá ou aqui nasceu naquela primeira década, e viveu a adolescência nos anos 70 e 80. Letras suas como Faroeste Caboclo, Tempo Perdido, Pais e Filhos e Eduardo e Mônica retratam com profundidade a alma dessa geração que cresceu com Brasília, com toda a carga de angústia, descoberta e aventura características de uma sociedade em formação.

Hoje, aos 50 anos, a cidade caminha a passos largos para os três milhões de habitantes e já apresenta todos os gravíssimos problemas de uma metrópole urbana. No entanto, se a gente olhar bem nos olhos dos que aqui vivem desde os primórdios da cidade, e também dos que aqui nasceram – os brasilenses ou candangos, como gostam de se autodenominar, tomando emprestado o apelido dado aos operários construtores -, veremos que a maioria ainda conserva na alma o sonho do eldorado e nos olhos o sopro da esperança. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.

20 dezembro , 2009 | Autora Amneres | Nenhum Comentario »