XI
(Não existe fórmula, não há verbo mágico, poção de história, invenção, memória. É só seguir o rastro do que te escapa. Ricto de dor guardada no armário, trancada a chave no cofre profano de tua alma…)
Por que não és feliz eternamente? Por que o que tens não é suficiente? Por que o que és não basta? Porque queres muito e mais e sempre, ó alma torpe e solitária? Ainda estás sem par, ainda és tu, só, pó, na vastidão da manhã que paira.
Do fundo do poço, uma antiga voz te invade e apavora: ninguém estará contigo em tua última hora. Máscara de horror, carne temporária, logo teu corpo voltará ao pó. E então serás tu, nua e só, alma incorpórea e unitária.
Terás seguido em direção ao sol ou as trevas que te guardam os medos terão enfim vencido? Retornarás ao limbo? Enfrentarás de novo escuridão e dor? Ou subirás as cordilheiras do amor e colherás grandeza e sacrifício?
Teu fado é chegar às terras altas do excelso, ó ave de fé precária. Tens asas para voar e quantas vezes desceres ao precipício, tantas vezes o sopro da esperança te animará. E poderás alçar-te ao paraíso.
Pois que és divino, pássaro de ar. Das cinzas de teu ventre tu nascerás de novo, ó luz, ó fogo. E o corpo peregrino, cumprido o seu destino, enfim sossegará.











