Archive for dezembro, 2008

XLIV

Pensar
 
            Relaxo os ombros, estico o pescoço, investigo a alma em busca do motivo. A dor se cura com quê, se ela é obscura, se o laudo é impreciso?
            Será o tempo cobrando seu pedágio, esse mal nevrálgico? Conserto a postura do corpo do abismo. Doem-me os ombros, a nuca arde, em fogo. Será [...]

quarta-feira, dezembro 31st, 2008

XLIII

 
Flor do Mel
 
De binóculo e caneta, bem aos pés da serra seca, vendo as flores na manhã a reluzir, paro o percurso e suspiro. Abaixo, no Riacho Frio, a água escorre fresca esculpindo a pedra, e o musgo esverdeia a rocha e o vento sopra e tudo pulsa a fluir.
Maria Bonita relincha e me [...]

terça-feira, dezembro 30th, 2008

XLII

 
Teu coração tem catedrais imensas,
Poeta Augusto; o meu, tem sacadas
Por onde os olhos ermos voam em busca
Da luz que emana da manhã dourada.

E há tanto sol e flores encarnadas,
E um vento são a dispersar a angústia,
Por que quebrar os sonhos, Zaratustra
Do engenho, e então ficar sem nada?

Se tinhas templos, crenças e em cantatas
Gravava em ti [...]

segunda-feira, dezembro 29th, 2008

XLI

Exéquias
            (Em memória de Andrelino)

Tarde de sol, triste arabesco. Quando morrer, verei ainda a luz e seus afrescos? Abro a gaveta da memória, apanho o bloco de papel em branco. Na capa, restos de um verso: “antes que o vento mude, antes que o poema cale, antes…”.
De novo, a morte, penso. Toco-a, solene. De [...]

domingo, dezembro 28th, 2008

XL

A Deusa, três rios e Paulo Coelho
 
            “Na margem do rio Piedra, eu sentei e chorei”. Acordei. Lembrei da frase ouvida no sonho. Repeti-a para mim mesma. Eram três rios, eu estava lá para um ritual, um tipo de batismo. Havia muita gente, as águas eram revoltas e tentávamos equilibrar o corpo, para não sermos [...]

sábado, dezembro 27th, 2008

XXXIX

 
Ave
 
            Réstia de sol resvala na ponta do telhado, acaricia o peito morno, iluminado, astro-rei abraçado ao ócio da manhã de enfado.
             - Você sabe que eu te amo, não sabe?
             - Ainda? 
             - Sempre. Sempre.
             - Que bom. Eu também te amo. Sempre.
            Diziam, um ao outro, a luz do sol e o céu, e [...]

sexta-feira, dezembro 26th, 2008

XXXVIII

Prece
 
            Não julgueis e não serás julgado. Vem-me de súbito a sentença bíblica, como uma faca que se aloja ao peito e fica.
            Calai, ó Pai, a fala imperfeita, para que não peque mais. Varrei as teias do pensamento, e suas tramas e veneno desfazei e derramai.
            Soprai da alma as sombras e [...]

quinta-feira, dezembro 25th, 2008

XXXVII

 
Romance
 
Quisera o amor durasse para sempre
e a vida fosse um estado permanente
de se encantar. Quisera amar
impreterivelmente, manifestar
 
O amor, e tão somente cantá-lo,
do nascer ao sol se pôr. E quando
enfim a noite anunciasse o rito
de passagem, tão contente iria eu
 
De exaltar o amor, que cantaria
a morte por transpor o corpo
transitório e, [...]

quarta-feira, dezembro 24th, 2008