Crônicas de Brasília II

Existe uma diferença de velocidade entre as gerações, penso, ao ouvir a voz da locutora da Brasília Super Rádio FM. É um tom lento, pausado, uma escala abaixo, considerado propício, eu imagino, ao seu público alvo. As músicas são clássicas ou orquestradas, de antes do jazz que praticamente inexiste em sua programação. A emissora envelheceu tal qual nossos pais, avalio com um travo amargo na boca.
A Capital do país hoje é uma senhora, como eu que há trinta anos divido com ela essa luz, essa amplidão de espaços. Gosto do seu céu tão próximo, dos seus eixos largos. Gosto das árvores que ali cresceram, a florir o ano inteiro, uma após outra, como um calendário planejado. O poeta Nicolas Behr faz um passeio pelo Eixão, uma espécie de caminhada botânico-turística para contar a história dessas árvores do Cerrado.
Na UnB, a gente gostava de cruzar os eixos semi-desertos da cidade, subindo da L2 à W3, vagabundeando. No caminho, na 403 Norte, tinha o Cafofo, um boteco de um músico chamado Éder, à época parceiro do pianista Rênio Quintas. Ali, a galera da Faculdade costumava tocar violão e cantar, até a madrugada. No Sábado, era dia de Beirute, na 109 Sul, frequentado por dez entre dez estudantes e artistas da cidade, e no domingo à tarde, havia o Concerto Cabeças, na 311 Sul, onde pude assistir a todas as tribos, de Renato Russo ao Udi-Grudi, uma espécie de happening improvisado, onde rolava de tudo, da música à poesia e ao circo, formando o fantástico mundo da juventude de Brasília dos anos 80. Um mundo de arte e diversidade encantando meu coração solitário.
E no centro disso tudo, guiando meu passo imaturo, uma universidade: a UnB – na qual permaneci por sete longos anos. Para encerrar minha carreira de estudante, precisei interromper o curso de Jornalismo no último semestre e sair do país. Morei em Londres de julho de 85 a fevereiro de 86, depois voltei, conclui o curso, peguei meu diploma e o juntei ao outro – de Licenciatura em Letras, que concluíra dois anos antes. Chorei por dentro, em meu último dia de aula. Sabia estar fechando um ciclo e que a partir dali, a vida tomaria um novo rumo em direção à idade adulta. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.

* Eixão - O Eixo Rodoviário de Brasília, mais conhecido pela alcunha informal de Eixão, é junto com o Eixo Monumental uma das duas linhas que se entrecruzam dando a forma básica ao Plano Piloto de Brasília. Enquanto o Eixo Monumental é uma via bastante reta em torno da qual se distribuem órgãos governamentais e culturais, o Eixo Rodoviário tem forma de arco e tem em seu perímetro quadras residenciais da Asa Norte e da Asa Sul.

* Concerto Cabeças – No final dos anos 70, o Concerto Cabeças acontecia nos gramados da Comercial da 311 Sul, como primeira reação de cidadania cultural em Brasília. “Jovens tomaram a cidade sem medo dos vigias e soltaram o verbo na luz deste céu imenso. Era ato cívico ocupar o verde das quadras e mostrar que o brasiliense vivia em cidade planejada, mas não estava programado no laboratório”, como descrito em reportagem do DFTV.

* Udi Grudi – O Circo Teatro Udi Grudi foi fundado em Brasília em 1982. É um dos mais antigos grupos de circo teatro contemporâneo do Brasil. O grupo norteia seu trabalho pela investigação e criação de espetáculos originais. Ao longo dos anos, o grupo tem desenvolvido uma linguagem própria baseada no clown, no teatro experimental e na música.

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