Crônicas de Brasília IX

Gosto desse tempo frio e seco, com sol forte e noites transparentes. Há dias em que não se vê uma nuvem e a cúpula azul do Planalto Central parece tão próxima que a gente quase entra dentro do céu. “Céu de Brasília, traço do arquiteto, gosto tanto dela assim”, cantarolo os versos de Linha do Equador,  canção de Djavan em homenagem à cidade.
Houve um tempo em que Brasília era uma pequena ilha de civilização em meio à vastidão do Cerrado, onde mais cedo ou mais tarde todos se cruzavam. Pelo menos era essa a sensação que a gente tinha, no comecinho da década de 80. Iam-se formando várias turmas e depois a gente percebia que, de muitas formas, elas se cruzavam.
Na UnB (Universidade de Brasília), eu transitava entre os cursos de Letras e Comunicação e flertava com a Arquitetura e o Direito, cursos com os quais mantínhamos contato constante. Fizemos algumas festas memoráveis em parceria – a Arquitetura e a Comunicação –, na sala que servia de sede ao DCE. Para quem não se lembra, DCE significa Diretório Nacional dos Estudantes, estrutura da UNE (União Nacional dos Estudantes) dentro das universidades, que para nós tinha toda uma mística. Fora a UNE, a partir de seus DCEs e CAs (Centros acadêmicos de cada curso), que mobilizara os estudantes, nos Anos 60 e 70, na luta contra a Ditadura. E a gente respeitava essa história, embora a maioria de nós já tivéssemos com ela um certo distanciamento.
Em nossos anos de universidade, uma década depois, a situação era outra. Os militares começavam o processo para bater em retirada e entregar o poder a um civil, como de fato o fizeram em 1985. Não sem antes frustarem a juventude de minha geração que, pela primeira vez, após anos de silêncio, saíra às ruas na campanha pelas eleições diretas para presidente da República. Mas a Emenda Dante de Oliveira (proposta de emenda constitucional apresentada pelo deputado Dante de Oliveira, em 1984, estabelecendo eleições diretas para presidente da República) foi derrotada no Congresso, e nos levou às lágrimas.
Com um travo amargo na boca, nossa geração ainda assistiria, naquele ano, à eleição indireta de Tancredo Neves pelo Congresso e a sua morte trágica, antes de assumir o cargo. Na passagem do cortejo fúnebre pela Esplanada dos Ministérios, a multidão chorava copiosamente, silenciosamente, inconsolável numa cena que espero jamais voltar a ver na política brasileira. Somente cinco anos depois, em 1989, o país pode eleger o seu primeiro presidente pela via direta, 25 anos depois do Golpe Militar de 1964. Na disputa, enfrentaram-se Fernando Collor de Melo e Luiz Inácio Lula da Silva, o metalúrgico que levantou as massas e encantou nossa geração.
O comício de Lula na Esplanada, em frente aos gramados do Congresso, com a multidão cantando “Lula lá, brilha uma estrela/ Lula lá, cresce a esperança…” foi um dos momentos mais bonitos que presenciei em nossa cena política. É tão forte a lembrança daquele momento que quase sinto de novo a mesma emoção, escrevo. Lembro-me de que eu e Marco Antonio, jovens repórteres, subimos ao palanque com nosso filho de um ano no colo, de blusa vermelha, em homenagem ao candidato operário que reacendera em nós o sonho, a utopia de um novo país, mais justo e solidário. Lembro-me de que, como num passe de mágica, meu filho saiu dos braços do pai e de mãos em mãos chegou ao colo de Lula, em frente a uma multidão poucas vezes vistas na história de Brasília.
Isso foi há vinte anos, penso, ao rever a foto daquele momento mágico. Sim, porque um de nossos amigos fotógrafos, que estavam no palanque cobrindo o comício para os seus jornais, fotografou a cena e nos deu as fotos e os negativos de presente (isso foi antes da máquina digital). De lá para cá, muita água já rolou na cena política brasileira, mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.

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One Response to “Crônicas de Brasília IX”

  1. Marba Furtado Says:

    Amiga, quanta história para contar. Eu, que vivo esta cidade há tanto tempo quanto vc (cheguei aqui em 1975) sei dessas emoções momentâneas que por muitos de nós ficaram registradas de alguma forma (poesia, foto, desenho, música, protesto), e continuam sendo registradas como por essas crônicas-poemas-diárias.
    Parabéns mais uma vez pelo trabalho.

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