Crônicas de Brasília X

O pássaro é tão manso na casa de Alayde que a gente chega bem perto, para melhor observá-lo, e ele não voa. É uma casa harmônica, penso, ao ver minha grande amiga no jardim. Molhar as plantas é sua diversão predileta, observo e a cena me faz lembrar de mamãe, há alguns anos, aguando as dezenas de jarros e plantas nativas que cultiva em sua casa, à beira-mar do Cabo Branco. É o barulho da água distraindo a alma, escrevo.
Gosto do som da água, especialmente se ela forma uma cachoeira no meio do Cerrado, ou se quebra na praia, no verde azul do mar infindo. “O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”, profetizava Antônio Conselheiro, o líder de Canudos, em 1893, no sertão baiano. Quando cheguei a Brasília, em 1979, pensei, de fato, estar repetindo a história dos nossos antepassados. Isso aqui é o sertão e o cerrado é irmão da caatinga. A diferença é estar fincado no Planalto Central, onde o mar é nosso céu, cuja proximidade nos remete à mesma amplidão.
Os palácios do arquiteto Oscar Niemeyer, especialmente os da Esplanada dos Ministérios, parecem ainda hoje surgidos do futuro, como um portal no tempo sonhado desde sempre pelo homem, muito antes de Einstein ter desenvolvido a teoria da relatividade e a noção do espaço-tempo curvo. Lembro-me de uma história sobre um desses portais, contada por John Howard, em casa de Alayde, numa das tantas festas em que fomos em sua casa. O tal portal teria sido construído pelo bruxo britânico Alex Crowley, conhecido pelo tarô que leva seu nome e pela criação da doutrina de Thelema.
Johnny encontrou a tal caixa em 1970, em uma fazenda do antigo bruxo, em Glastonbury, na Inglaterra. A sede da fazenda tinha mais de 40 quartos, ele conta, lembrando que foi parar ali, junto com dezenas de outros jovens vindos do mundo inteiro, para colher laranjas e preparar o primeiro Festival de Rock de Glastonbury, em 1970. Até hoje, o festival acontece, mas naquele tempo, havia o movimento hippie, que rompeu com todos os padrões e limites de sua época e literalmente virou o mundo de cabeça para baixo. Johnny conta que a preparação do festival acontecia paralelamente à colheita das laranjas e durou cerca de oito meses – de janeiro a setembro, quando de fato o show aconteceu.
Era a típica vida em comunidade, refundada pelos hippies, lembra Johnny, com seu olho de cineasta, descrevendo os fatos como quem narra um filme: “Ao chegarmos à sede da fazenda, eu e um amigo, deparamo-nos com uma imensa porta que dava para um corredor onde um garoto folheava um antigo livro, com páginas gigantescas e a cada página virada, o pó dos anos guardados desgrudava-se de suas folhas, formando uma nuvem de poeira”. O livro, segundo lhe contara o garoto, havia sido escrito de próprio punho por Alex Crowley. Foi o garoto também quem lhes falou sobre a enorme caixa de madeira em um canto da sala, ao final do corredor. O objeto teria sido construído pelo bruxo e por seus seguidores, no princípio do século XX, e era uma espécie de máquina do tempo, capaz de teletransportar para outros mundos aquele que ali entrasse. Johnny, é claro, quis experimentar, entrou logo na caixa, cuja única abertura era um pedaço de vidro colado à porta, e viveu uma experiência única. Ele diz que, na verdade, tratava-se não de uma máquina de teletransporte, mas de uma “caixa de ressonância ambiental” – como nomeou o objeto – que lhe fez viajar no tempo através dos sons vindos dos lugares mais longínquos.
Johnny relata que, à época morava em Londres, mas viveu em comunidade naquela fazenda por vários meses, entre a colheita de frutas e a preparação para o festival. “Colhíamos frutas nus, em pleno inverno. Quem bancava tudo era o dono do lugar, Michael Eavis, uma espécie de lord inglês que herdara de seu pai a fazenda. Era ele quem bancava a hospedagem e a comida, em troca do trabalho na colheita e na preparação do festival.
“Em agosto, finalmente, a festa aconteceu e meu amigo Gilberto Gil, com quem havia morado, por uns tempos, em Londres, dela participou junto com Caetano Veloso e várias bandas de rock da Inglaterra e dos mais diversos países”, conta Johnny e fico imaginando a ousadia e a coragem daquela geração de jovens que lia Nietzsche, Marx e Marcuse, e se inspirava em Henry Miller e em Carlos Castañeda, para experimentar novos caminhos em direção a um novo mundo que dissesse não a tudo que representasse o mundo autoritário e desigual, erguido no pós-guerra.
Creio que a geração de Johnny, nos Anos 60, “que amava os Beatles e os Rolling stones”, assim como a juventude dos Anos 20, de Picasso, Sartre e do Modernismo, 40 anos antes, ousou enfrentar o status quo e revolucionou o pensamento e os costumes. Se o movimento for cíclico, a nova rebelião da juventude deve acontecer na próxima década, que começa em 2010, 40 anos depois. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá. 

* Aleister Crowley, nascido Edward Alexander Crowley (Warwickshire, Reino Unido, 12 de outubro de 1875 – Hastings, Reino Unido, 1 de dezembro de 1947), foi um polêmico ocultista britânico, conhecido por suas posturas controversas, pelo tarô que leva seu nome e pela criação da doutrina de Thelema.

* Thelema se refere à doutrina ou filosofia religiosa difundida por Aleister Crowley a partir de 1904 nos moldes propostos pelo Liber AL vel Legis. De acordo com a filosofia thelêmica, o ser humano está afastado de sua condição divina não pela encarnação, mas pela inconsciência desta natureza. Essa falta de consciência seria mantida por fatores como o conceito de pecado, o egocentrismo e a entrega à vontade alheia ou aos vícios - que no conceito thelêmico referem-se a qualquer atitude que controle a vontade ao invés de ser controlada por ela. Assim, caberia ao ser humano buscar uma profunda autoconsciência, chegando assim ao conhecimento do que foi chamado de Verdadeira Vontade (Thelema, do grego vontade), o objetivo primal da encarnação de um espírito individual.

* Glastonbury Festival of Contemporary Performing Arts, também conhecido como Festival de Glastonbury é o maior festival de música a céu aberto do mundo. Conhecido principalmente por suas apresentações musicais, também possui atrações de dança, humor, teatro, circo, cabaré e outras formas de arte. Criado por Michael Eavis, o Festival de Glastonbury foi influenciado pela cultura hippie e especialmente pelo Festival da ilha de Wight. Eavis declarou que decidiu organizar o primeiro festival, chamado então de Pilton Festival, após assistir a uma apresentação a céu-aberto do Led Zeppelin em 1970.

Comentarios Recentes

7 Responses to “Crônicas de Brasília X”

  1. graça seligman Says:

    Queridissima, amei a sua crônica sobre o nosso Johnny. Você me fez rir neste início de semana e também…. viajar pelos tempos vividos!
    super beijo com amor e carinho
    Graça

  2. Manoel Sparagmós Rodrigues Says:

    bingo!!! e aguente quem puder…

    bj,

    manoel.

  3. Ana Maria Lopes Says:

    Querida amiga,
    Seu jeito de contar histórias é tão gostoso como seus versos. Esse contar os fatos e as observações que você faz sobre Brasília é um registro histórico fantástico. A memória da cidade é isso, seus causos e sua gente vistos com esse olhar amoroso. Parabéns! Abreijos, Ana maria

  4. alayde Says:

    Saiba que ler vc é como tomar o melhor dos vinhos!!!!!

  5. Mostra decoração Says:

    Mostra decoração…

    muito bem elaborado seu comentário, parabéns…

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