Crônicas de Brasília XI
Só se descobre o amor, vendo-o, penso, ao me lembrar do impacto, na primeira vez em que os olhos olham dentro dos olhos do outro. É como um choque elétrico, um transe hipnótico; a reação química é imediata, o pulso acelera, a face avermelha, o coração sai pela boca. É como um relâmpago acendendo o mundo, escrevo.
A janela do amor são os olhos, mas é quem está por trás deles que o reconhece; é nossa alma quem reconhece a outra, o corpo apenas reage às mensagens por ela enviadas pelas ondas do cérebro. Há um filme onde os mais famosos físicos da atualidade falam sobre isso, digo, sobre o que está por trás dos olhos. Quem Somos Nós é o nome do documentário que em mim causou um deslumbramento definitivo.
Não sei por que, volta a minha memória um filme alemão que assisti na Cultura Inglesa, numa das inúmeras vezes em que frequentei o cineclube organizado por José Damata, na década de 80, em Brasília. A sétima arte marcou definitivamente as gerações nascidas no século XX, penso. Dos nossos avós aos nossos filhos, todos foram seduzidos pela magia das imagens, desde o cinema mudo – com o gênio de Charles Chaplin – até a inimaginável sofisticação e desenvolvimento tecnológico dessa que se transformou na maior indústria de entretenimento do mundo. Hoje, o cinema vai do luxo ao lixo, mas na Cinemateca de Damata, só entrava em cartaz o luxo, pelo menos é o que eu pensava, quando frequentava as salas do cineclube e fazia as cadeiras de Cinema do Curso de Comunicação, na UnB.
Dois professores me marcaram especialmente: meu conterrâneo, o paraibano Vladimir Carvalho, e o cineasta-diplomata João Lanari, ambos diretores e cinéfilos apaixonados. Vladimir Carvalho, autor de clássicos como O País de São Saruê, O Evangelho Segundo Teotônio e Conterrâneos Velhos de Guerra, mestre do documentário e do cinema novo, ainda hoje vive e engrandece Brasília, cidade que adotou desde 1969, quando passou a dar aula de cinema na UnB e onde fundou em 1994, a Fundação Cinememória, com o objetivo de preservar a memória audio-visual de Brasília e promover a sua divulgação.
De João Lanari, autor do filme Mínima Cidade (1984), não tive mais notícias. Sei que trabalhou como conselheiro na representação brasileira da Unesco, onde publicou o livro Proteção do Patrimônio na UNESCO: ações e significados para o Brasil, e que tem atuação marcante nas posições defendidas pelo Brasil junto à OMC (Organização Mundial do Comércio), em questões relacionadas ao audiovisual. Na UnB, sua alma dividida entre a paixão pelo cinema e a carreira diplomática encantou meu coração.
Quanto ao baiano José Damata, que na década de 80 transformou o auditório da Cultura Inglesa em ponto de referência para os amantes do cinema, fundou vários outros cineclubes e realizou um antigo sonho, o de levar sua Cinemateca à população da periferia de Brasília. Os projetos Cine a Céu Aberto e Cinema Voador levaram milhares de pessoas às ruas e praças das cidades-satélites do DF, muitas das quais nunca tinham assistido a um filme.
A esses três personagens da cidade e ao seu amor incondicional pela sétima arte, devo minha iniciação no fabuloso mundo do cinema. E antes que eu me esqueça, o filme alemão a que me referi chama-se Asas do Desejo, do cineasta Wim Wenders, uma metáfora sobre a condição humana, ambientada na Berlim do pós-guerra, antes da derrubada do muro. Foi depois de assistir ao filme que passei a acreditar em anjos. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.












junho 15th, 2009 at 7:32
Cara Ameneres:
parabéns pelo blog. Vc é uma pessoa que veste, come e bebe a poesia. Você é como Garciliano Ramos que diz que as coisas tem que serem bem feitas como fazem as lavadeiras de sua Alagoas. Sinto saudades da amiga. Por onde andas? Estou de volta ao Jornal da Câmara. Só faço entrevistas especiais.
Um grande abraço do amigo,
Pieri
junho 15th, 2009 at 12:55
fui ali, na Cultura, que conheci Hanna Schigula, eu e ela wie eins.
bj,
manoel.
junho 15th, 2009 at 12:56
foi, entschuldigung.
junho 20th, 2009 at 22:07
Querida,
Quanta fertilidade e quantas lembranças! Lê-la é reviver. E revigorante! Abreijos, Ana Maria
setembro 3rd, 2009 at 14:07
Olá! Cheguei até o seu belo blog procurando pelo José Damata do Cinema Voador. Temos que entrevistá-lo para um livro sobre os 50 anos de Brasília, mas não conseguimos nenhum contato. Se você tiver ou conhecer alguém, poderia me repassar? Agradeceria bastante.