Crônicas de Brasília XII
O vento está gelado, com o sol encoberto por nuvens esparsas. É a lua cheia, penso. Ela puxa nuvens, marés e filhos. Foi durante um eclipse lunar, em 1991, que Isadora veio ao mundo, uma ou duas semanas antes do previsto. Era julho e fazia um frio seco, como esse de agora. E já se vão quase 18 anos, desde então.
Entre 1979, quando cheguei aqui, e 1991, quando nasceu minha filha, muita coisa aconteceu. Brasília pulou de uma cidade em construção para uma metrópole super-povoada e com uma população itinerante que mais do que duplica, durante a semana, formada por políticos, empresários, e pela população do entorno que aqui vêem durante a semana para trabalhar.
Um dia desses, em sarau na casa de Cristina Roberto, conversávamos sobre a década de 80 e tentávamos explicar ao carnavalesco Alexandre Louzada, da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, como se formara a verdadeira alma de Brasília, construída pelas mãos dos candangos, pioneiros, intelectuais, artistas e visionários que aqui vieram em busca de um sonho.
O projeto original da cidade - onde morariam na mesma super-quadra o ministro e o porteiro, que compartilhariam a padaria, o clube e a educação de seus filhos na escola do bairro - era a realização do sonho socialista. E nesse projeto embarcaram alguns dos mais promissores artistas e pensadores das gerações de 50 e 60 do Brasil.
A Universidade de Brasília (UnB) era o centro nevrálgico dessa utopia e tudo então parecia possível. Até que o imponderável aconteceu: a renúncia inexplicável de Jânio Quadros; a ascensão ao cargo do vice, João Goulart, e o recrudescimento da luta ideológica que culminou com o Golpe Militar de 1964. Em 1968, a Ditadura endureceu ainda mais o seu aparelho repressivo, baixando o AI-5 (ato institucional que proibia manifestações de natureza política e vetava o “habeas corpus” para crimes contra a segurança nacional). No mesmo ano, em Brasília, a UnB era violentamente invadida e suas principais lideranças de esquerda, quase mil pessoas, entre estudantes e professores, expulsas da universidade.
A infância de nossa geração cresceu nesse ambiente, silenciosa e desiludida. Estávamos entrando na UnB, quando veio a abertura política e trouxe de volta ao país e às universidades os anistiados. Foi aí que a esperança renasceu e a juventude de Brasília “desbundou geral”, penso, lembrando-me de uma gíria muito utilizada à época.
Foi naquela década, que Cristina Roberto - a mesma do sarau a que me referi - abriu as portas do Bom Demais, o bar mais descolado da cidade, por onde passaram muitos dos atuais artistas de importância da música popular brasileira, à época em início de carreira, alguns dos quais tive o privilégio de assistir in loco. O Bom Demais abrigava e lançava os novos talentos e projetou o rock e o pop de Brasília para todo o país.
Exatamente como nesse sarau, pensei, enquanto assistia a uma sucessão de artistas se revezarem no palco em que se transformara a sala da casa de Cristina Roberto. De repente, em meio ao desfile de veteranos talentos tão caros à Brasília quanto os poetas Nicolas Behr e Luís Turiba e os músicos Renato Matos e Eduardo Rangel, surgiu um garoto, tocando um violão fantástico e com uma ginga toda própria e especial.
Depois, descobri que o músico se chama Ismael e que já tocara ali em outra ocasião, não fazia muito tempo. Que bom que os palcos do Bom Demais – materializados na própria casa de Cristina Roberto – continuam com o dom especialíssimo de revelar novos talentos. Deve ser a alma generosa e a mente aberta de nossa anfitriã, escrevo.
Só espero que o espírito do carnavalesco da Beija-Flor – assim como, em 1989, aconteceu com Joãozinho Trinta, quando levantou a Marquês de Sapucaí com a genial Ala dos Mendigos – também seja tocado pelo encanto que moveu os passos dos que aqui vieram construir uma utopia. Em fevereiro, a Beija-Flor sai na avenida com o enredo comemorativo dos 50 anos da fundação de Brasília. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.
* Bar e Restaurante Bom Demais – entre 1984 e 1990, funcionou na 706 Norte, e foi um dos mais importantes redutos culturais de Brasília, na década de 80. De propriedade da empresária e poeta Cristina Roberto, lançou nacionalmente grandes nomes da MPB de Brasília e de outras cidades do país, entre eles, Renato Matos, Raimundos, Adriano Faquini, Suzana Mares, Zélia Duncan, Cássia Eller, Oficina Blues e Rubi.
* AI-5 - Os Atos Institucionais foram decretos emitidos durante os anos após o Golpe militar de 1964 no Brasil. Serviram como mecanismos de legitimação e legalização dos atos de exceção do Governo Militar. De 1964 a 1969, foram decretados 17 atos institucionais. O AI-5 representou um significativo endurecimento da Ditadura e incluía a proibição de manifestações de natureza política, além de vetar o habeas corpus para crimes contra a segurança nacional. Entrou em vigor em 13 de dezembro de 1968.
* Beija-Flor de Nilópolis - atual campeã do carnaval carioca, é a escola de samba que mais conquistou títulos nesta década, na Avenida Marquês de Sapucaí: 2003, 2004, 2005, 2007 e 2008. Nascida em 1948, na cidade de Nilópolis, a Beija-Flor conquistou seu primeiro campeonato em 1976, com o carnavalesco Joãozinho Trinta, que passou 17 anos com a escola. Em 1989, apresentou um de seus desfiles mais ousados, com o samba Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia, que trazia uma ala de mendigos e uma imagem do Cristo Redentor, coberta por solicitação da Igreja. Em 2010, a Beija-Flor apresenta o enredo Brilhante ao Sol do Novo Mundo, Brasília, do Sonho à Realidade, a Capital da Esperança, em homenagem ao cinqüentenário da capital do Brasil.












junho 22nd, 2009 at 14:15
Brasília, cidade do interior.
Não vi nada disso, Amneres. Como sempre, como dizia Clarice, nessa época eu cosia para dentro (e continuo assim). Aos doze anos, qdo. meu pai anunciou q. nos mudaríamos para cá, eu já sabia: ia se aprofundar a minha introspecção.
Amo muito tudo isso de q. vc fala e q. é bom demais.
Mas Brasília foi desde o começo uma ilha chamada Manoel.
E, gozado, nunca fui tão comunicante.
valeu.
bj,
manoel.
junho 26th, 2009 at 13:47
Hey, have you seen this news article?
New details about Michael Jackson’s Death Emerge
I was wondering if you were going to blog about this…
agosto 10th, 2009 at 20:22
Vivi muito…um pouco disso!!!….ihihihihi…te adoro.
Beijo,
Beto