Crônicas de Brasília XIII

Coloquei o céu de Brasília dentro da sala, expresso numa luminária, um abajour da fotógrafa Graça Seligman, no qual a cúpula é uma foto do céu, visto do ângulo de um arco no Museu da República. Olho a imagem e vem-me à memória cenas do filme O Céu que nos Protege, de Bernardo Bertolucci, no deserto do Sahara. Em pleno deserto, em meio à aridez absoluta, uma cúpula de esperança e luz nos abençoa e ampara.
Foi disso que gostei, desde o primeiro instante em que pisei o solo dessa cidade, penso. E a fotografia de Graça Seligman capta exatamente essa luz. São ângulos de arcos e colunas e palácios por onde se vê sempre um pedaço do céu do Planalto. Em Brasília, o céu é palco de todas as artes. Dos azulejos de Athos Bulcão aos jardins suspensos de Burle Marx; das colunas de Niemeyer à rósea vermelhidão do sol se pondo na tarde, escrevo e volta-me à memória as tardes de sol no Clube do Congresso, nos Anos 80.
É tão forte a lembrança que quase posso sentir de novo na pele a água fria e doce do Lago Paranoá espelhando em suas águas o espetáculo do sol se pondo no oeste. O Clube do Congresso fica na ponta da Península Norte e o Lago Paranoá faz uma curva em suas margens, bem na divisa do Clube com o Parque das Gaivotas. No princípio de 80, a turma da Asa Norte baixava toda no Clube, no fim-de-semana e fazia a festa. Sol, churrasco e violão; era lá nossa praia particular e ao pôr do sol, cantávamos MPB até anoitecer. Argemiro Neto e Verônica Carriço faziam parte dessa galera, e nos brindavam com canções que fizeram história, como a versão de “Negro Gato”, lindamente interpetrada pela voz singularíssima de Verônica. Não foram poucas as vezes em que varamos a madrugada na casa de Raymundo Diniz, amigo e vizinho, que adorava música, especialmente violão e generosamente abria as portas de seu apartamento para a galera da superquadra e da UnB, especialmente dos cursos de Comunicação e de Direito, onde quase todos nós estudávamos. Depois, Verônica e Jimmi montaram a banda Mata Hari, por volta de 1988, e fizeram carreira nos palcos da cidade, como no Bom Demais e no Gate’s Pub.
O violão foi meu parceiro inseparável nos primeiros anos de Brasília. Trouxe o hábito – ou melhor a paixão – de cantar da beira-mar da Praia do Cabo Branco, em João Pessoa. Tocava um violão sofrível, mas os amigos gostavam de minha voz e cantar em casa dos amigos e pelos bares da cidade passou a ser meu programa predileto. A glória para mim era cantar nos porões do Ki-Salgados, boteco na 102 Norte, onde o gerente impreterivelmente liberava o couvert de todos os que estivessem em minha mesa, desde que eu subisse ao palco para cantar.
“Quem canta, seus males espanta”, diz a sabedoria popular e eu segui à risca essa máxima. O auge de minha “carreira” de cantora foi um show do qual participei na Sala Funarte, um dos principais palcos de MPB da cidade, à época. A banda era formada pelo pianista Rênio Quintas, por Zé Éder – o lendário dono do bar Cafofo, reduto dos estudantes da UnB – e pelo poeta Vicente Sá. Lembro-me de que cantei uma música solo, como convidada especial da banda, além de participar de alguns duetos. Foi um momento mágico que guardo eternamente na memória. Além de cantar, outra paixão movia-me os passos naquela década e desde então serve-me de esteio e guia: a poesia. Mas isso já é história para uma outra crônica. Quem viver, lerá.

* MATA HARI  (O Olho da Madrugada) – lançada em 1988, é uma banda de rock de Brasília que mistura funk, rock e outros gêneros em suas composições. Formada pelo guitarrista e compositor, Jimi Figueiredo, pela vocalista Verônica Carriço, por Nelson Neto (baixo) e pelo baterista Nelsinho Guimarães, a banda estreou em julho de 1988, durante o concerto O Último Suspiro, na Universidade de Brasília (UNB). Em dezembro de 1989, lançou sua primeira fita demo, intitulada A última Sessão. Discografia: A Última Sessão (Demo – 1989), Olho da Madrugada (Demo, 1992) e Mata Hari (CD – 1997), além de participações em diversas coletâneas.

Comentarios Recentes

8 Responses to “Crônicas de Brasília XIII”

  1. Ana Maria Lopes Says:

    Querida,
    Quando se pensa que você já havia se desnudado, eis que aparece uma nova faceta, um novo véu. Cantora? Agora, quem a lê vai querer ouvi-la. Linda sua crônica. Abreijos, Ana Maria

  2. Jimi Says:

    Tempos incríveis!
    Havia uma afinação muito grande entre o Direito e a Comunicação
    na UnB ( e agregados)- quem diria… Músicos, poetas e festas louquíssimas.
    Raimundinho, Bill, Rodrigo Fonseca, Felipe, Luciano, Lala Santana,
    Katinha, Laplace, Aurelio, Ulisses Machado. E isto é só a ponta do iceberg!!!!

  3. Manoel Sparagmós Rodrigues Says:

    lembrei desse filme esses dias, não sei a troco de quê. Me lembro, sim, do meu mau-humor: pensei que esqueceram de avisar o ceú dessa função ou que ele fosse incompetente para tal.

    qto ao show: hic Rhodus, hic canta!

    já estou no gargarejo.

    bj,

    manoel.

  4. Ariosto Teixeira Says:

    Bons tempos, apesar de tudo.
    Faltava lembrar da Graça e sua arte fotográfica na fixação da história da cidade.
    Bela crônica, como sempre.
    bjs
    Ariosto

  5. Amneres Says:

    Raymundo Diniz escreveu:

    Que legal ouvir falar daqueles tempos nas palavras da poetisa, que sempre cantou muito e com bela voz. Não era à toa que éramos dispensados dos couvers. A poetiza sempre foi artista em todos os sentidos. Parabéns amiga.
    Raymundo

  6. Beatriz Ramos Says:

    Parabéns, Amneres,

    Pela crônica sensível e corajosa, que mostra Brasília mostrando você. Vou passar por aqui sempre, belo trabalho.

    Beijos,

    Beatriz

  7. Liana Says:

    Bom dia, gostaria de enviar material de Reynaldo Jardim para fazer parte do seu blog.
    Ele esta lançando uma antologia de todo o seu trabalho. o Sangradas Escrituras é um livro de mais de 1500 paginas, dividido em dois volumes. E será lançado pela “Geração Editorial”.
    Entre em contato comigo pelo email liana.f@hotmail.com para maiores informações.

    Obrigada,

    LianaF

  8. Amneres Says:

    Manoel, diz, no imperdível blog sparagmós:

    Asas do desejo

    para a poeta amneres

    A janela e o céu, o sol, as nuvens,
    o mar, de uma paisagem bidimensional.
    (Dizei uma palavra e serei salvo).
    Invocados – o céu, o sol, as nuvens, o mar –,
    cada um assumiu um plano na nova profundidade.
    Eu mesmo me desloquei.
    O quadro tornou-se palco.
    O enredo, voz.
    E eu estava pronto para não ver,
    o que quer que fosse, nunca mais.

    Escrito por Manoel Rodrigues às 07h05
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