Crônicas de Brasília XVI

A poucos meses do cinquentenário de Brasília e passados 30 anos de minha aventura no Centro-Oeste, posso dizer que a vida conduz o destino como sopra o vento. De repente, ela muda de rota, segue uma vertente nova, faz uma curva e toma um rumo totalmente inesperado. Talvez seja esse o encanto da política, penso, ao lembrar do brilho nos olhos de meu amigo Rodrigo Rollemberg, que no domingo passado antecipou-se à cidade e completou cinquenta anos, comemorando a data em grande estilo. A banda Adora-Roda ditou o ritmo da festa, com um samba de raiz da melhor qualidade, mas seu ponto alto foi quando o músico Paulo Djorge e o poeta Luís Turiba apresentaram o samba-enredo composto para disputar a vaga no carnaval da escola de samba Beija Flor de Nilópolis. Em fevereiro de 2010, a Beija Flor sai na avenida com um enredo em homenagem aos 50 anos da fundação de Brasília.
Por ser Distrito Federal e capital do Brasil, a política ferve nos eixos e retas dessa cidade, pelas asas e no centro do avião, no Plano Piloto, onde estão abrigados os Três Poderes da República, penso. Aqui, assisti da visita do Papa João Paulo II ao cortejo fúnebre do presidente eleito Tancredo Neves, morto poucos dias antes da posse. Do impeachment de Fernando Collor, o primeiro presidente eleito por via direta, após a Ditadura, e ironicamente deposto 21 meses depois, à festa apoteótica da posse de Lula, o primeiro presidente operário do Brasil.
Impeachment é um dos instrumentos novos introduzidos na Constituição de 1988; assim como as medidas provisórias, que vieram para substituir a figura autoritária do decreto-lei e, paradoxalmente, vêm provocando a paralisia do Legislativo Federal. Assistir in loco a uma Assembléia Nacional Constituinte é um privilégio para poucos, e tive a sorte de ter esse privilégio. Naquela ocasião, pela primeira vez, desde que eu aqui chegara, os amplos espaços que formam a Praça dos Três Poderes foram, de fato, ocupados pelo povo. Os representantes da chamada sociedade organizada compareceram em massa ao Congresso Nacional para pressionar deputados e senadores a ampliarem seus direitos. “A Praça dos Três Poderes é do Povo”, diria eu, hoje, parafraseando Caetano Veloso, aos críticos da mudança da Capital, que atribuíam a Brasília a culpa pelo distanciamento entre o centro do Poder e a população.
Se pensarmos bem, aliás, a posição central de Brasília, em relação ao resto do país, facilita o diálogo com as quatro regiões: Norte, Sul, Sudeste e Nordeste. Quanto ao Centro-Oeste, se olharmos o que era essa região há 50 anos e no que ela se transformou, veremos o quanto a mudança da capital significou para seu desenvolvimento. Pena que esse festejado desenvolvimento tenha custado, até agora, a destruição de cerca de 39% do Bioma Cerrado, um dos centros nevrálgicos de equilíbrio de nosso ecossistema. Meu amigo Joe Valle, fundador da Malunga, a mais bem sucedida fazenda de orgânicos de Brasília, sonha com a redenção do Cerrado, através do cultivo de alimentos orgânicos.
Quando a gente visita a Fazenda Malunga, Joe Valle é o guia visionário dessa nova agricultura, cuja base fundamental é a produção de alimentos saudáveis, com respeito ao meio ambiente e justiça social. “…aparecerá aqui a grande civilização, a terra prometida, onde jorrará leite e mel. Será uma riqueza inconcebível”, volta-me à memória o sonho profético de Dom Bosco, em 1883, do qual nasceria Brasília, séculos depois. Será a agroecologia capaz de reescrever a história e reverter os trágicos prognósticos a que está condenado nosso planeta? Caberá a Brasília ser a precursora desse novo eldorado? Pergunto-me, entre cética e esperançosa. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.

* O Bioma Cerrado localiza-se principalmente no Planalto Central do Brasil. Ocupa 24% do território nacional, pouco mais de dois milhões de quilômetros quadrados. Segundo estudos atuais, restam 61,2% desse total, em áreas distribuidas no Planalto Central e no Nordeste. É a segunda maior formação vegetal brasileira depois da Amazônia, e a savana tropical mais rica do mundo em biodiversidade. Além disso, o Bioma Cerrado é favorecido pela presença de diferentes paisagens e de três das maiores bacias hidrogáficas da América do Sul. Concentra nada menos que um terço da biodiversidade nacional e 5% da flora e da fauna mundiais.

* Em 1883, seis anos antes da proclamação da República e da nossa primeira Constituição, o vidente italiano Giovanni Bosco consignou nos seus diários pessoais que viu nascer uma nova civilização espiritual, que abrangeria toda a América do Sul. Localizou o berço dessa civilização inédita entre os paralelos 15 e 20, no planalto ocidental situado entre os grandes rios Amazonas, São Francisco e Rio da Prata. A primeira Constituição da República do Brasil, promulgada em 1889, decretou que a futura capital federal do País seria transferida para o Planalto Ocidental, no Estado de Goiás, que corresponde à zona visualizada por Dom Bosco, situada entre os três grandes rios por ele mencionados. Em comemoração a essa visão de Dom Bosco, foi construída uma ermida em forma de pirâmide, com a estátua do vidente, à beira do lago Paranoá. Em 1956, o Presidente Juscelino Kubitschek lançou o marco inicial de Brasília, inaugurada em 1960. Numa das paredes do Palácio da Alvorada, acham-se em alto relevo as palavras do fundador de Brasília, que têm notável afinidade com a visão de Dom Bosco.

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2 Responses to “Crônicas de Brasília XVI”

  1. Manoel Sparagmós Rodrigues Says:

    Na ponta do dedo, essa crônica. Parabéns, Amneres.
    bj,

    Manoel.

  2. How I Lost 30 Pounds in 30 Days Without Diet Says:

    Thanks for posting about this, I would love to read more about this topic.

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