Crônicas de Brasília XVIII

Sento no quarto como meus avós sentaram na cadeira de balanço, a descansar as pernas e contemplar o tempo. Olho meu corpo imperfeito e agradeço a Deus por tê-lo assim, saudável e inteiro, marcado pelo milagre dos filhos – duas cesarianas – e pela idade que amolece a carne e embranquece os pelos.
E, no entanto, ainda sou eu, a mesma menina apaixonada que desembarcou na Capital da República, num longínquo fevereiro. A Asa Norte foi meu primeiro abrigo e ainda hoje temos – eu e o bairro – toda intimidade. Ali vivi a fabulosa década de 80, nessa cidade sonhada por Dom Bosco e ousada por JK, Lúcio Costa e Niemeyer.
Brasília tem essa mística. Nascida da lenda de um eldorado onde jorraria leite e mel, ela envolve seus imigrantes numa teia de mistério que senti na alma, no coração, na pele. Desde que aqui cheguei, alguma coisa me prende e me impede de partir e o fato é que, um a um, assisti à família voltar ao lugar de origem e minha alma condoída despediu-se do que até então fora seu lar, esteio e terra firme.
Na UnB e na Asa Norte, a vida pulsava. Havia o Chorão, o bar sede do Pacotão, o único bloco carnavalesco de sucesso da cidade. Sem patrocínio, eclético e profundamente crítico, o Pacotão foi talvez o único movimento real de protesto de minha geração contra tudo o que presenciávamos na Capital do Brasil. O fim nostálgico da Ditadura, no medíocre e temerário Governo do General Figueiredo; a derrota da emenda das Diretas-Já no Congresso; a eleição e morte de Tancredo Neves e a ascensão de José Sarney à Presidência; o desastre dos planos cruzados I e II e, ao final, os sonhos renovados pela Assembléia Nacional Constituinte.
Quem viveu a Constituinte em sua plenitude, como nós, jovens jornalistas, que cobríamos o Congresso, não esquece a emoção de ouvir Ulysses Guimarães – seu presidente – dizer – do alto de seus mais de setenta anos – incansavelmente a frase: “Vamos votar, vamos votar”. Lembro-me de um episódio, em setembro de 87, em que o líder indígena Ailton Krenak, exigiu do Plenário a inclusão na nova Carta da emenda popular sobre os direitos dos índios. Durante toda a sua fala, perante um Plenário absolutamente lotado, não se ouviu uma voz, um ruído, pois o que dizia aquele brasileiro - com a cara pintada para a guerra – calou fundo no coração de todos os que assistiram ao protesto.
Aliás, o Capítulo dos Direitos Sociais trouxe a Brasília gente de todos os recantos do país, coisa que até então a gente nunca tinha visto. Os gramados da Esplanada viraram, muitas vezes, verdadeiros acampamentos ocupados por representantes de nações indígenas, trabalhadores rurais, estudantes, operários e toda sorte de grupo social que se organizava para garantir uma fatia de direito na Carta Magna. O resultado foi um texto mundialmente respeitado pelos extraordinários avanços na proteção aos direitos do cidadão. A criação do Sistema Único de Saúde e a inclusão da saúde como dever do Estado e direito de todos são exemplos dessas conquistas.
Hoje, vinte anos depois, a gente percebe que garantir direitos na Lei é uma coisa, torná-los uma realidade é outra. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.

* Sonho de Dom Bosco – Reza a lenda que em 30 de agosto de 1883, Dom Bosco – santo italiano, nascido em 1815 e fundador da Ordem dos Salesianos – teve um de seus famosos sonhos a que se atribui a localização exata de Brasília. Em um dos trechos do sonho, diz o santo: “Entre os paralelos de 15º e 20º havia uma depressão bastante larga e comprida, partindo de um ponto onde se formava um lago. Então, repetidamente, uma voz assim falou -…quando vierem escavar as minas ocultas, no meio destas montanhas, surgirá aqui a terra prometida, vertendo leite e mel. Será uma riqueza inconcebível…”

* JK (Juscelino Kubitschek) – Candidato à Presidência pela coligação PSD-PTB, em seu primeiro comício, em Goiás, afirmou que construiria a nova capital. Com o slogan de “50 anos de progresso em 5 anos de governo”, a modernização do país era o eixo do discurso do candidato e a nova capital passou a simbolizar a própria modernidade. Depois de eleito, JK assinou a Mensagem de Anápolis, lançando as bases para a criação da Novacap (Companhia de Urbanização da Nova Capital) que iniciou os trabalhos a três de novembro de 1956, seguindo o projeto dos arquitetos Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. A inauguração, em 21 de abril de 1960, realizou-se com grande festa e coberta por jornalistas de todo o mundo.

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