Crônica de Brasília XIX

De repente, quando a gente pensa ser dono do destino, contemplando a vida a se desenrolar, vem uma ventania e desmancha o quebra-cabeça, mistura-lhe as peças. E o jeito, então, é recomeçar. Foi assim com meu primeiro amor. Quando partiu, abriu-se um descompasso tão grande em meu peito, que precisei de todo o ar da natureza para fazê-lo reencontrar o ritmo. E foi então que aprendi a contemplar.
Foi assim também, quando deixei o verde mar do Cabo Branco e me mudei para o Planalto, a mais de 1.000 km de qualquer litoral. Eu morava tão perto do mar, em João Pessoa, que, em Brasília, precisei usar um ventilador no quarto para substituir o rumor constante de suas ondas. A 302 Norte, minha primeira moradia, era também uma das primeiras quadras de Brasília e por isso viver ali era viver no centro nervoso da urbe em formação, com tudo a seu alcance. Ali ficava o Bar Chorão, reduto do Pacotão, o irreverente bloco de carnaval fundado por jornalistas, cujo presidente, Charles Preto, como já contei em outra crônica, de fato, nunca existiu.
Da 302 para a 408 Norte e dali para a UnB, a gente fazia a pé, ou de carona. O ponto de carona da minha quadra era a banca de revistas do espanhol, um senhor calvo e grisalho, culto, simpaticão, apaixonado por livros. Ele me parecia um velho integrante do Partido Anarquista, e os diálogos que trocávamos, especialmente sobre literatura, prometiam, mas como eu era muito jovem e tinha muita pressa, não aprofundei muito o papo com o espanhol. Uma pena. Para mim, é claro.
O percurso da UnB à 302 Norte era recheado de bares freqüentados por dez entre dez estudantes, a começar pelo Cafofo, do Zé Éder, na 408; subindo pela 405, onde ficavam os famosos “cus sujos”, no jargão jornalístico, passando pelo Ki-Salgados, na 102 - uma quadra só de militares, se bem me lembro, mas que tinha uns bares de porões onde rolava solto violão e MPB; e acabando no Chorão, na nossa quadra, uma extensão de nosso apartamento, por assim dizer.
Mas o grande barato mesmo de Brasília, na década de 80, eram as festas. Famosas pelo ecletismo, com as portas abertas para a garotada da UnB – ou seja, nós – que pulávamos de festa em festa, nas sextas e sábado, em busca do melhor cenário, da melhor conversa e, principalmente, do melhor som para dançar, penso e subverto o ditado: “Quem dança, seus males espanta”.
Quem nessa cidade não foi, naquela época, às festas na casa do jornalista e poeta, Ariosto Teixeira, e do engenheiro e ambientalista, Bismarque Villa Real? Eles moravam numa espécie de república chique, uma casa no Lago Norte, freqüentada pelo mundo da arte e da Academia. Boa música, bom papo e muita birita barata. Cerveja, vinho e, é claro, vodka – a bebida mais cultuada de nossa geração. A bebida russa tinha um charme especial, pois existia toda uma mística em torno da fechada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Havia ainda a chamada Cortina de Ferro, formada pela Rússia e várias outras repúblicas, de um lado, e os Estados Unidos da América, de outro. Entre as duas potências, a Guerra Fria resistia aos ventos das mudanças que, no entanto, já apontavam na distância.
Mas no Brasil dos anos 80, o clima era outro. Após quase 20 anos de Ditadura, o país vivia a abertura política, promovida pelos generais sob o slogan “abertura lenta, gradual e irrestrita”. E o Brasil tinha pressa e a gente também, pressa de viver a delícia da liberdade de ir e vir e de dizer o que pensa. A gente sabia do que se passara, embora não tivéssemos sofrido na pele a face cruel do autoritarismo. Mas nossos tios, professores, e até alguns de nossos irmãos tinham, e a gente conhecia as histórias.
E foi assim que assisti, nas décadas de 80 e 90, ao vento da história, de repente, virar a página e mudar os passos e os rumos do país. E foi assim que assisti ao povo, por muitas vezes, levar um baque, consertar o corpo e reerguer-se. A gente sente a mesma sensação de dor da perda do amor, ou do mar verde, penso, só que essa dor é coletiva. Foi isso o que senti, quando assisti, in loco, na Esplanada dos Ministérios, à multidão chorar à passagem do cortejo fúnebre do presidente Tancredo Neves, morto antes de tomar posse. Alguns de nós, jovens jornalistas, choramos junto com o povo, enquanto fazíamos a cobertura dos acontecimentos.
Por minha mente passam cenas da derrota de Lula para Fernando Collor, depois de o operário-presidente ter feito a mais bela campanha, amparada pelo mais belo jingle da história política desse país. “Lulalá, brilha uma estrela, Lulalá……”, quem de nós, daquela geração, não sabe cantarolar essa melodia? Depois, exatamente 21 meses depois, os caras-pintadas foram às ruas pedir o impeachment do Presidente Collor. São os ventos do destino, penso, repentinamente mudam a direção e viram o mundo de cabeça para baixo.
E era essa liberdade de ser, de estar no mundo, de se expressar, que buscávamos nos cinemas, nos bares, nos teatros e nas festas naquela década. Um dia, em uma dessas festas na casa do Bismarque e do Ariosto, que só vim a conhecer pessoalmente muitos anos depois, nosso amigo e jornalista Jorge Abreu desapareceu misteriosamente no meio da festa. Esperamos, esperamos e nada. O som foi baixando, as pessoas foram indo embora, e nada de Jorge.
Começamos então uma busca cuidadosa por todos os lugares da casa, pelos jardins, pelos salões, pelos quartos, por todos os compartimentos. O dia já amanhecia, quando Jorge finalmente foi descoberto dormindo, placidamente, dentro do guarda-roupa. Um dia, esse mesmo jornalista resolveu se mudar para a Amazônia em busca do sonho do bom selvagem. Mas isto já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.

Comentarios Recentes

2 Responses to “Crônica de Brasília XIX”

  1. Ariosto Teixeira Says:

    Minha amiga,
    Agora sinto que as nossas festas entraram na históra da cidade. Quando reencontro amigos que não vejo há muito tempo, eles perguntam antes de qualquer coisa pelas festas. “Quando será a próxima?” O passado só se repete na memória, que é capaz de nos levar a viajar pelo tempo. AS vozes, os sons, a beleza e o perfume que nos cercaram ainda estão lá e aqui conosco. As tuas crônicas tocam pontos com o poder de nos transportar, ou de transportar o que fomos, instantaneamente, aqui e agora, a nos deixar com a certeza de ainda sermos os mesmos, apesar de tudo.
    Obrigado
    Ariosto

  2. apoena pereira Says:

    nessa epoca em bsb descobri o q era solidao

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