Crônica de Brasília XX

Motivo é um livro ou um poema de Cecília Meireles, pergunto-me, dentro de um táxi no Eixão Norte, a caminho do Aeroporto. Eu canto, porque o instante existe e a minha vida está completa, não sou alegre nem sou triste, sou poeta - vem-me à lembrança o trecho da música do cearense Raimundo Fagner, sobre um poema especialmente belo da poetisa mineira.
Acabo de passar pela Ponte do Bragueto e o Lago Norte brilha, embriagado pela luz do seco sol de julho. A seca de Brasília, ou melhor, o outono-inverno, de março a julho, é um espetáculo à parte no Centro Oeste. Tudo arde e fulge sob um céu de um azul esplêndido. E tanto mais a seca avança, mais as flores luzem e o mundo é um festival de cores e esperança. A pele risca, o lábio racha, o corpo e o solo ressecam sob nossos pés. E ao mesmo tempo, a beleza do Cerrado resplandece, e ao mesmo tempo, o amor renasce exuberante em nosso coração.
Foi na década de 80, recém chegada à cidade, que aconteceu minha iniciação em direção à alma profunda do Cerrado. O grande barato da estação seca era ir às cachoeiras nos arredores de Brasília e nas cidades de Goiás Velho e Pirinópolis, no estado de Goiás. E foi então que se desnudou aos meus olhos litorâneos todo o esplendor do reino das águas doces. E foi entre esse reino encantado das trilhas e cachoeiras e o ambiente lúdico da Universidade de Brasília que vivi intensamente meus primeiros anos na cidade.
Lembro-me especialmente de uma viagem que fizemos a Goiás Velho, a primeira capital de Goiás, terra da poeta e doceira Cora Coralina. Foi a primeira vez que vi culinária e poesia em tão perfeita harmonia, exaltando a vida: corpo, mente e espírito em comunhão, penso, trinta anos depois, ao empreender nova viagem em busca dessa iguaria, digo, dessa trilogia. Naquela década, exatamente no ano de 1983, nós, da Comunicação Social da UnB, que fazíamos a cadeira de Fotografia com a professora Luiza Venturelli, fomos a Goiás Velho realizar ali um ensaio fotográfico – uma espécie de aula-laboratório, na prática, na rua, no momento mesmo em que a vida acontecia.
Chegamos à cidade em plena Semana Santa e ficamos hospedados em seu principal hotel, edificado ao pé de um deslumbrante monte verde. A Cidade de Goiás Velho foi fundada ainda durante as capitanias hereditárias, no período colonial. Nascida como Arraial de Sant’Anna, em 1726, tornou-se Vila Boa de Goyaz em 1736 e posteriormente capital do Estado de Goiás. Durante o Ciclo do Ouro, foi uma das mais prósperas cidades do Brasil colonial.
Naquela semana santa de abril de 1983, instigados pelo talento e pela paixão pela arte fotográfica da professora Luiza Venturelli, lançamos nosso olhar de fotógrafos iniciantes para um espetáculo que ficou gravado para sempre em minha memória – a procissão das tochas, que se estendia por toda a cidade e em seus montes, nos arredores, formando uma fila interminável de fiéis com suas tochas de fogo, iluminando a noite do sertão. Ao assistir àquele espetáculo de tanta beleza, ouvindo os cantos tristíssimos das carpideiras pranteando a morte de Cristo crucificado, meu coração sangrou e chorei copiosamente, misturada à multidão.
O resto da viagem foi uma festa de poesia e cores e sabores – da visita à casa de Cora Coralina, onde culinária e poesia se misturavam num aroma mágico, à parada obrigatória no único bar aberto à noite, onde comi pela primeira vez o empadão goiano, uma iguaria da culinária regional. Da tarde em que fotografamos a luz, os ângulos, as fachadas das velhas casas coloniais, aos momentos de deleite na área verde ao redor do hotel, onde nos reuníamos para tocar violão, cantar e namorar, tudo era motivo de se comemorar a vida, que nos brindava com a febre própria da juventude.
Alguns de nós levamos os namorados e o passeio, é claro, ficou ainda mais interessante, penso, ao me lembrar de Cláudio Sant’Anna e Argemiro Neto, que eram do curso de Direito da UnB, mas se agregaram amorosamente à excursão. Minha amiga e comadre Kátia Turra era a mais talentosa e aplicada aluna de Luiza venturelli. Suas fotos tinham alma e por isso coube a elas um destaque especial na exposição que fizemos depois, no hall de entrada da Biblioteca da UnB, como resultado de nosso trabalho de campo.
Como não era permitido fazer coquetel para a vernissage dentro da Biblioteca, nós – reconhecidamente festeiros inveterados – decidimos manter a exposição no hall de entrada da Biblioteca, mas expandi-la para o lado de fora, onde, aí sim, servimos um coquetel a base de frutas e, é claro, vodca. Foi um sucesso e a festa rolou até tarde, embalada pela vodca e pela beleza dos jardins externos projetados por Burle Marx.
O paisagista veio para Brasília, ainda na década de 60, com JK e, ao lado de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, ajudou a transformar em realidade a ousadia de se construir, no meio do nada, na vastidão inabitada do Planalto Central, a nova Capital, que redimiria do isolamento o interior do Brasil. Mas isto já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.

*…Ali, onde habitava a nação Goiá, Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, fundaria, em 1726 , o Arraial de Sant’Anna. Uma década depois, em 1736 , o local seria elevado à condição de vila administrativa, com o nome de Vila Boa de Goyaz (ortografia arcaica). Nesta época, ainda pertencia à Capitania de São Paulo. Em 1748, foi criada a Capitania de Goiás e, com o primeiro governador, dom Marcos de Noronha, o Conde dos Arcos, instalou-se um “Estado mínimo” e, logo, a vila transforma-se em capital da comarca. Com o esgotamento do ouro, em fins do século XVIII, Vila Boa teve sua população reduzida e precisou reorientar suas atividades econômicas para a agropecuária…”. (cidadedegoiasvelho.com)

Comentarios Recentes

One Response to “Crônica de Brasília XX”

  1. Jimi Says:

    Foi uma viagem muito louca…
    Nunca mais voltei lá, talvez por querer
    guardá-la assim na minha cabeça
    beijão

Deixe uma resposta