Crônica de Brasília XXIV
Olhei o relógio: 9.9.09, grafado assim mesmo, era o número que mostrava a tela digital do celular. É uma data cabalística; o nove é o número da espiritualidade, penso. Acabo de assistir a um vídeo no youtube onde uma multidão colorida canta Hey Jude, um dos hinos dos Beatles, em plena Trafalgar Square, em Londres. Faz um lindo dia de sol, coisa rara na capital inglesa. Naquela mesma Praça, há exatos 24 anos, passei ali o reveillon, ao lado de alguns amigos, no meio da rua, onde uma multidão como essa, oriunda de várias partes do mundo, celebrava a vida e a chegada de um novo ano.
De julho a novembro de 1985, vivi freneticamente o verão e o outono na metrópole britânica. Em novembro, fiz um mochilão com duas amigas brasileiras, por 15 cidades da Europa e quando voltei, já era dezembro e a cidade estava linda, coberta de neve e cheia de luzes de natal. Foram sete meses em que vivi em estado de permanente festa, inebriada pelos encantos do velho mundo.
Londres era uma mistura estranha de tradição e ousadia e, de alguma forma, esse contraste me agradava. De um lado, o culto à Família Real, com suas roupas extravagantes, seus maneirismos afetados, como que saídos de uma época passada da história; de outro, os punks, com seus cabelos multicoloridos e suas roupas de taxas prateadas, impreterivelmente pretas, como que saídos de um outro planeta, de um futuro igualmente anacrônico. De alguma forma, a Família Real britânica e os punks se pareciam; de alguma forma, estabelecia-se uma convivência harmônica entre os dois extremos, e no meio deles, the ordinary people, com suas vestes sóbrias, suas peles alvas, sua fleuma, seu ar contido.
O maior exemplo que tive para compreender esse jeito britânico de ser foi Ron, o filho quarentão de Mr. Alexander - o senhorio – que nos alugava o flat onde morávamos. Passamos – eu e Silvia Helena, uma amiga de infância – cinco meses como inquilinas no casario antigo de M.r Alexander. Era um sobrado tipicamente inglês, com cinco andares: o térreo, três andares encima e um embaixo, onde ficava o apartamento de Ron, cuja companhia constante era uma linda cadela da raça pastor alemão. No térreo e no primeiro andar, ficava o amplo apartamento de nosso anfitrião, o típico gentleman inglês, aos 80 anos, casado com uma escocesa simpática que adorava contar piadas, rir alto e beber whiskey. No 3º andar, ficávamos nós em um apartamento, e duas francesas, no apartamento vizinho; e no 2º andar, moravam dois meninos americanos.
Por várias vezes, fomos convidadas – eu e Silvia Helena – a tomar o chá das cinco, comer biscoitinhos e degustar whiskey – escocês, é claro - com a mulher de nosso anfitrião. Ele nos adorava, o velho Mr. Alexander. Era como se visse em nós sua própria mulher, aos vinte e poucos anos. Hoje o entendo tão bem, penso. Pois bem, foi preciso a gente se mudar, eu voltar para Brasília e Silvia seguir viagem para a Espanha – o que aconteceu em fevereiro de 1986 – para que Ron acordasse. Poucos dias depois, soube que viajara às pressas para a Espanha, munido de um buquê de rosas vermelhas, para declarar seu amor por Silvia – minha amiga de infância - que voltou a Londres, pouco tempo depois, para se casar com o tímido inglês.
Até hoje, eles moram em Londres e seu único filho, Joshua, tem atualmente uns vinte anos, penso, com os olhos nostálgicos voltados para a tela do youtube, onde milhares de pessoas, das mais diferentes nações e culturas, cantam em uníssono o hino pop dos Beatles, os ingleses que encantaram o mundo, por várias gerações, e ainda hoje são capazes de reunir multidões para cantarem suas canções e culturarem seu mito. De repente, no meio do povo, em plena Trafalgar Square, reconheço o rosto iluminado de meu primeiro amor, trinta anos depois de tê-lo perdido. “Era um garoto que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones”, vem-me à memória a melodia de uma velha canção da adolescência. Quando me mudei para Brasília, em 1979, vivi pela primeira vez a dor de perder um grande amor e, ao mesmo tempo, a delícia de começar uma nova vida no coração do Planalto Central. Mas isto já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.












setembro 14th, 2009 at 22:40
Querida,
Li quase de um fôlego só as suas crônicas. Só lamento lhe informar que você não está escrevendo crônicas. Você está tecendo uma grande colcha onde cada retalho é uma vida. Você está colcheando! E essa sua trama de fios de memória está enredando seus leitores - a mim, sempre. É bonito vê-la tecer, cerzir, arrematar e bordar seus textos. Já antevejo um lindo livro bordado em lembranças. Brasília, em ponto cruz ( os eixos que a formam) por suas mãos, é puro encanto! Abreijos, Ana Maria