Crônicas de Brasília XXVIII
“A compreensão do amor em sua plenitude só me chegou agora, por isso, a sensação que tenho é de que vou morrer”. Essa foi, sem dúvida, a declaração de amor mais chocante e bela que tive a graça de ouvir, penso, ao me lembrar do impacto que a frase causou ao meu coração. A gente sonha tanto com a felicidade e quando ela chega, paradoxalmente, a gente entra em pânico, como se não a merecesse, escrevo, enquanto espero minha filha, à porta do cursinho preparatório para o vestibular.
Aos 18 anos, Isadora prepara-se para a grande aventura da universidade, um mundo novo que também vivenciei, há trinta anos, quando cheguei a Brasília e a UnB. A comunidade de Brasília, pela própria característica de a cidade ser Distrito Federal, é diferente, formada por gente dos mais diversos estados e regiões. E na UnB, essa diversidade de vivências e de idéias se refletia na própria aprendizagem, na forma como se processava o conhecimento.
Nessa idade, a gente sonha mudar o mundo. Aliás, é exatamente nessa idade e no ambiente da universidade que surgem as idéias que alimentam as artes e as ciências e empurram o homem ao futuro. Eu gostava das novas idéias, das vanguardas, da efervescência das artes contemporâneas, mas confesso que mantinha os pés fincados no passado, nos grandes clássicos da literatura universal, para não perder o bonde da história e achar ser novo o que de há muito já havia sido escrito.
E no departamento de Letras da UnB, a gente vivia essa dicotomia dentro da sala de aula. Do poeta parnasiano Cassiano Nunes à vanguardista Aglaeda Facó Ventura, especialista em Grande Sertão – Veredas (a obra-prima de Guimarães Rosa), os professores de literatura dividiam-se entre a paixão pelos clássicos e o culto ao novo. E nós, ávidos de conhecimento e de diversão, transitávamos entre as duas correntes com a desenvoltura própria da idade.
Foi nessa época que, por uma sorte do destino, conheci o escritor e ex-professor da UnB, Oswaldino Marques, à época com quase 70 anos, com quem desenvolvi uma inusitada amizade. Poeta, tradutor e ensaísta, Oswaldino tornou-se um fraterno amigo, com quem dividi horas de puro deleite, em nossos encontros esporádicos, geralmente às tardes, no Conjunto Nacional. Foi uma espécie de milagre eu ter virado como que uma pupila do velho escritor que, com disciplina e paciência de santo, lia os originais de meus ingênuos escritos, fazia anotações e dava-me sábios conselhos, ampliando-me a visão da poesia e o leque de leituras.
Foi por causa dele que passei a ler os poetas franceses, especialmente Charles Baudelaire, por quem fiquei literalmente encantada. As Flores do Mal virou um livro de cabeceira, à época, e definiu o rumo que eu seguiria como escritora dali para frente. Oswaldino Marques foi um anjo, um espírito iluminado que, por dois anos, guiou-me os passos rumo ao universo mágico da poesia. Ele era uma espécie de ermitão em plena urbe. Vivia enclausurado em sua casa, em Taguatinga, de uma simplicidade monástica, abarrotada de livros e de manuscritos.
A pressa típica da juventude afastou-me do velho ermitão, mas a doçura, a paciência, a delicadeza com que lia meus inéditos, apontava falhas, sugeria correções, sempre me encorajando a seguir em frente, ficaram para sempre guardadas em meu coração. Só vinte e tantos anos depois, encontrei em Brasília outro grande escritor, outro mestre da poesia, que me ensinou talvez a maior lição que uma candidata a poeta como eu poderia aprender: o desafio de escrever diariamente.
Foi por causa dele, do brilhante poeta Fernando Mendes Vianna, com quem tive o privilégio de conviver em seus dois últimos anos de vida, que enfrentei a árdua, mas imprescindível tarefa de escrever, por 180 dias ininterruptos, um diário de poesia na internet, agora prestes a ser publicado em papel. Foi uma viagem tão profunda que, ao seu final, mudou radicalmente os rumos de minha existência. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.
* Oswaldino Ribeiro Marques (17 de outubro de 1916, São Luís do Maranhão, Maranhão—13 de maio de 2003, Brasília), foi um poeta, ensaísta e tradutor brasileiro. Em sua terra natal, escreveu seu primeiro artigo para a imprensa e fundou o Cenáculo Graça Aranha, onde eram discutidas as idéias modernistas. Em 1936, mudou-se para o Distrito Federal. Um dos fundadores da UNE, trabalhou como bibliotecário e tradutor, tendo sido um dos responsáveis pela divulgação da poesia moderna estadunidense no Brasil. Em 1965, mudou-se para Brasília onde assumiu a cátedra de Teoria da Literatura na Universidade de Brasília (UnB). Todavia, com o agravamento da ditadura militar no Brasil, pediu demissão do cargo. Durante um período de cinco anos, chegou a dar aulas em Madson, Wisconsin, EUA. Reintegrado à UnB em 1991 pelo reitor Cristovam Buarque, Marques viveu os últimos anos praticamente isolado em sua casa em Brasília, onde dedicava seus dias à leitura e à audição de discos de música clássica. (Wikipédia – internet)












outubro 11th, 2009 at 20:15
lindíssima e delicada cronica. Tb conheci o mestre Oswaldino e convive com ele. Uma luz na sua vida
bjs e nos vemos
Turiba