Crônica de Brasília XXXI
Neguinha foi nossa mãe preta, penso, ao acordar, subitamente, com seu rosto amoroso em minha memória. Seu nome era Maria, em homenagem a Virgem Maria, e não poderia deixar de ser, tamanha sua bondade e misericórdia. Maria Auxiliadora de Araújo era negra como Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, cuja imagem peregrina foi encontrada no fundo do mar, em 1717, por pescadores do litoral de Santos, que receberam a graça de assistir, mais uma vez, ao milagre da multiplicação dos peixes. Nossa Senhora, rogai por nós que recorremos a vós, recito uma prece à Santa e peço-lhe pela alma de Nega.
Mãe de Ginaldo e protetora de cada um de nós – os oito filhos de Dona Neli – Neguinha partiu sem se despedir, embora eu e Ginaldo estivéssemos morrendo de medo da cirurgia de coração a que ela teria de se submeter dali a dois dias, para desentupir as artérias. No dia de sua internação, uma quinta-feira, no Hospital Brasília, seu coração simplesmente parou. Foi a primeira vez que tive de cuidar da morte, desde a escolha do túmulo, passando pela compra do caixão, até a contratação das exéquias e do cortejo fúnebre.
Ginaldo, meu querido irmão de criação, estava inconsolável e como só tínhamos nós dois morando em Brasília, não me restou outra alternativa senão assumir a dolorosa tarefa. Enterrar com dignidade um ente querido é um gesto de suprema dor e, ao mesmo tempo, de profundo amor, e agradeço a Deus por ter podido retribuir na morte de Neguinha um pouco do amor que recebi tão farta e generosamente durante sua vida.
Quando Neguinha chegou a nossa casa, ainda à beira-mar, na Praia de Cabo Branco, em João Pessoa, foi como um presente de Deus, mais um naquela família já tão abençoada pela vasta prole, pela mesa farta e pela alegria. Neguinha chegou para costurar, mas foi ficando, ficando, até que se mudou definitivamente para nossa casa, em companhia de seu único filho, Ginaldo, de quem ficamos – especialmente eu e meus dois irmãos logo acima de mim – amigos inseparáveis. Ginaldo era da idade de Augusto, exatamente um ano a mais do que eu e um ano a menos que Joacil Filho. Pois bem, desde sua chegada à casa, Mamãe só confiava em Nega para entregar sua ninhada – à época sete filhos, pois Rodrigo, meu irmão caçula, só chegaria anos depois.
Quando nos mudamos para Brasília, em 1979, Neguinha e Ginaldo vieram com a gente e foi ela quem tomou conta da casa e de Rodrigo, que nascera em 1974, para surpresa e felicidade de nossa barulhenta família. Maria Auxiliadora de Araújo foi uma das pessoas mais generosas que conheci, com uma capacidade de amar só encontrada nos espíritos evoluídos. Seu túmulo é um dos primeiros da parte nova do Cemitério Campo da Esperança, no final da Asa Sul. Penso que foi aqui, nessa cidade sonhada por Dom Bosco, onde ela foi mais feliz.
Lembro-me de tê-la visto chorar, logo no começo do namoro de Ginaldo com Cacilda, uma gaúcha loura, de olhos azuis, funcionária da Casa do Rio Grande do Sul, uma loja de presentes que ficava ao lado do lendário Bar Chorão, na comercial de nossa superquadra. Tinha medo de que seu único filho não fosse feliz com aquela união, e isso no Brasil miscigenado dos anos 80, mais de 40 anos depois da publicação de Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, que revolucionou a sociologia e fundou as bases de nossa democracia multirracial.
Anos depois, Mamãe contou-me que teve de interferir no episódio. E depois de conversar com os namorados, chamou Neguinha e disse-lhe com todas as letras o que pensava: Cacilda e Ginaldo se amavam, isso era o que de fato importava, tudo o mais era preconceito. Pois bem, Neguinha e Cacilda tornaram-se sogra e nora, além de companheiras inseparáveis. Foi na casa de Cacilda e Ginaldo, ao lado de suas duas netas, onde ela viveu os melhores anos de sua vida, até o dia de sua morte, há cerca de cinco anos. Mamãe e Neguinha tornaram-se amigas e confidentes, ao longo dos mais de 25 anos em que conviveram sob o mesmo teto. Ambas amaram incondicionalmente meu irmão, Rodrigo, que lhes partiu o coração, ao morrer precocemente, aos 15 anos de idade. A morte de Rodrigo representou a primeira dor irrevogável em nossas vidas e implantou definitivamente a marca da tragédia no seio de nossa família. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.
* O Rio Paraíba, que nasce em São Paulo e deságua no litoral fluminense, era limpo e piscoso em 1717, quando os pescadores Domingos Garcia, Felipe Pedroso e João Alves resgataram a imagem de Nossa Senhora Aparecida de suas águas. Encarregados de garantir o almoço do conde de Assumar, então governador da província de São Paulo, que visitava a Vila de Guaratinguetá, eles subiam o rio e lançavam as redes sem muito sucesso próximo ao porto de Itaguaçu, até que recolheram o corpo da imagem. Na segunda tentativa, trouxeram a cabeça e, a partir desse momento, os peixes pareciam brotar ao redor do barco. Durante 15 anos, Pedroso ficou com a imagem em sua casa, onde recebia várias pessoas para rezas e novenas. Mais tarde, a família construiu um oratório para a imagem, até que em 1735, o vigário de Guaratinguetá erigiu uma capela no alto do Morro dos Coqueiros.Como o número de fiéis fosse cada vez maior, teve início em 1834 a construção da chamada Basílica Velha. O ano de 1928 marcou a passagem do povoado nascido ao redor do Morro dos Coqueiros a município e, um ano depois, o papa Pio XI proclamava a santa como Rainha do Brasil e sua padroeira oficial. (www.culturabrasil.pro.br/aparecida)











