Crônica de Brasília XXXIV
Andava distraída à beira-mar do Cabo Branco quando, de repente, vi no chão a sombra de um enorme pássaro. Olhei para o alto e aompanhei-lhe o vôo plácido até vê-lo sumir num ponto qualquer entre a areia branca e o céu. Era alvo, límpido, branco como a ave símbolo do Espirito Santo, o Consolador, que ao lado de Deu Pais e de Jesus Cristo forma o triplo mistério da Santíssima Trindade.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, recito o texto bíblico, sentindo o doce prazer de andar descalça sobre a areia úmida da maré seca. Rezar o terço à beira-mar provoca em mim tamanho encanto que a alma cheaga a levitar, escrevo, horas mais tarde, sentada dentro de um avião em direção a Fortaleza, último trecho da viagem, antes de voltar às terras altas do Planalto.
Brasília e o Nordeste têm tanta coisa em comum, vem-me à memória o súbito pensamento. O Cerrado é irmão da Caatinga e a sensação de plenitude diante da exuberância do mar atlântico também está contida na proximidade do céu do Planalto Central. Sob o céu de Brasília, especialmente na estação seca, quando a luz crepuscular pinta de vermelho o horizonte e enrubesce o peito de emoção, a gente se sente assim, mais próxima de Deus e a gente emudece ante o milagre da criação.
Emigrar da terra natal muda definitivamente nossa forma de estar no mundo. Quando parti, há 30 anos, deixei para trás parte do que fora até então. Hoje, no entanto, entendo que, na verdade, para onde vou, carrego nas entranhas as origens, as paisagens e os amores verdadeiros que me guiaram os passos até aqui, escrevo, com o olhar perdido na paisagem vista da janela. Olho-a e já não distingo onde termina o mar e começa o céu vistos aqui do alto.
Rodrigo, meu irmão caçula, quando tinha de escolher entre dois caminhos que desejava seguir com igual ardor, chegava a chorar e confessava: - Eu quero ir, mas quero ficar. E é exatamente assim que eu me sinto hoje em relação a tudo o que amo tanto aqui quanto lá. “Alma minha gentil que te partiste Tão cedo desta vida descontente, Descansa lá no céu eternamente E viva eu cá na terra sermpre triste…”, ressoam em minha memória os versos tristíssimos do poeta português Luís de Camões, ao cantar a perda de sua amada. Mas hoje sei que o amor, antes que perda, é soma e tanto mais se ama mais se dá. Por isso, agora, vinte anos depois de sua morte, Rodrigo continua a ser luz e fonte a inspirar-me a eternamente mais e mais amar. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.











