Crônica de Brasília XXXVII

Saí de casa, um dia desses, para caminhar, com o zumbido das cigarras embalando-me o ouvido. Depois foram os pássaros, as maritacas, os bem-te-vis e as andorinhas de longos rabos. E então foram os carros, quando entrei no passeio ao longo da pista, e na padaria, os sons das falas das famílias desejando seus bons dias.

A padaria é uma festa mansa anunciando o domingo, o dia de descanso, quando Deus deu por criado tudo. “Deus disse: Faça-se a luz! E a luz foi feita”, diz o versículo 3 do capítulo I do Gênesis. Que bela e inspiradora frase a conduzir a mão do criador regendo o mundo, penso.

Aprendi a gostar da preguiça e da nostalgia dos domingos. Mesmo quando é festa, esse dia sempre está se despedindo. Especialmente em Brasília, escrevo, sentada no banco da Calçada dos Ipês – assim eu nomeei esse pedaço de mundo. Na verdade, um canteiro de sete ipês enfileirados e, debaixo deles, um calçadão largo em que se fincaram dois bancos. Lembro-me de que quando me mudei para Brasília, em 1979, o único dia a me causar incômodo era o domingo, quando tudo dormia e me invadia como que um banzo da antiga moradia à beira-mar do oceano atlântico.

Mil e duzentos quilômetros me separavam do mar. E do amor que lá deixara, então, corriam muito mais quilômetros. E no domingo, doía em mim cada milímetro de distância a nos separar. De um lado, eu e a solidão dos domingos do Planalto; do outro, o amor e o mar – interrompi a frase, cortada pelo barulho estridente de um alarme de carro. Ai de mim, naqueles idos domingos, se não fossem a cinemateca da Cultura Inglesa, o Concerto Cabeças, o Beirute e o Gilberto Salomão, dou um suspiro e me levanto.

Foi assim que aprendi a espantar, naquela inesquecível década de 80, a solidão a assombrar-me os dias de domingo. A sensação passou, de certa forma, depois que aprendi a rezar. Mas hoje, trinta anos depois, confesso a mesma saudade do meu amor e do mar. Mas isto já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.

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