Crônica de Brasília XXXVIII

A capa do livro de espanhol sobre o qual escrevo tem o desenho de uma torre que parece a Torre de Babel. “Só que aqui todos se entendem”, deve ser essa a mensagem que se tentou passar nesse estranho marketing. E arriscado, penso, pois tenta negar um mito e, no entanto, estou certa de que dez entre dez pessoas que olharem a imagem vão pensar em Babel e no castigo de Deus aos homens, pelo ato de tentarem construir uma ponte de pedra em direção ao céu. E foi então que aconteceu a separação das línguas.

A Torre de Babel é uma obra inacabada, vem-me a imagem ao pensamento. E até hoje a obsessão do homem é tentar ser Deus. É só a gente pensar no atual estágio das pesquisas genéticas, apontando para a possibilidade da clonagem humana. O próximo passo é assustadoramente real: quem será o primeiro de nós a realizar a experiência de clonar a vida humana?

Quem nascer dali trará a alma eterna dentro de si? Fazer um nosso igual nos livrará da morte ou, ao contrário, duplicará nossos medos? Entrego-me ao sombrio pensamento, quando, de repente, meus olhos avistam a silhueta da Catedral de Brasília, semi-encoberta por um plástico branco a esconder-lhe a beleza. Não raro, a igreja passa por reformas desse tipo, mas agora ela se prepara para a festa dos 50 anos da cidade. Uma senhora, como eu, distraio o pensamento imaginando que uma multidão virá comemorar o cinqüentenário bem aqui, em plena Esplanada dos Ministérios.

É incrível a largura da Esplanada. Por maior que seja a concentração de pessoas, há sempre espaço livre para se caminhar. Olho os gramados imensos em direção ao Congresso Nacional e pela memória passam imagens do Badernaço, do cortejo fúnebre de Tancredo Neves, do comício das Diretas Já, da posse de Lula em sua primeira eleição. Caminhar em meio às gentes nos gramados da Esplanada dos Ministérios é uma experiência incrível. Por mais gente que tenha, a sensação é sempre de eternidade, de imensidão. E se a gente se deita no gramado e olha para cima, então, é uma viagem. O peito se enche de esperança diante da proximidade do céu do Planalto Central.

“Deste planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”, ecoam em meus ouvidos a frase mítica do presidente Juscelino Kubitschek, ao pisar, pela primeira vez, em dois de outubro de 1956, o solo do Planalto Central, exatamente no lugar onde Brasília seria edificada.

A saga dos candangos que aqui vieram edificar o Eldorado já começa a ser cantada pelos seus artistas e poetas. O poeta Fernando Mendes Vianna nos deixou um poema magistral sobre essa história, publicado na antologia Marinheiro do Tempo. O cineasta Vladimir Carvalho também nos fala dos candangos operários que se sacrificaram e até perderam a vida na duríssima tarefa de erguer, em um tempo insano, os palácios e monumentos que se tornaram símbolos da capital administrativa do Brasil, desde 21 de abril de 1960. O filme de Vladimir que documenta essa saga, antes que eu me esqueça se chama “Velhos Companheiros de Guerra”.

Meu contemporâneo Renato Russo cantou como ninguém a juventude de Brasília que veio para cá ou aqui nasceu naquela primeira década, e viveu a adolescência nos anos 70 e 80. Letras suas como Faroeste Caboclo, Tempo Perdido, Pais e Filhos e Eduardo e Mônica retratam com profundidade a alma dessa geração que cresceu com Brasília, com toda a carga de angústia, descoberta e aventura características de uma sociedade em formação.

Hoje, aos 50 anos, a cidade caminha a passos largos para os três milhões de habitantes e já apresenta todos os gravíssimos problemas de uma metrópole urbana. No entanto, se a gente olhar bem nos olhos dos que aqui vivem desde os primórdios da cidade, e também dos que aqui nasceram – os brasilenses ou candangos, como gostam de se autodenominar, tomando emprestado o apelido dado aos operários construtores -, veremos que a maioria ainda conserva na alma o sonho do eldorado e nos olhos o sopro da esperança. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.

Comentarios Recentes

Deixe uma resposta