Crônica de Brasília XXXIX

Só Hércules para conseguir abrir essa garrafa, penso comigo e seguro a gargalhada, enquanto faço força para abrir o frasco de água mineral recém comprado. Quanto exagero, digo para mim mesma, sentada à mesa da padaria perto de casa. Espero o sol baixar para seguir a caminhada. Em Brasília, já passa das dezessete horas no horário de verão. O tempo é um misto de chuva e sol, típico de dezembro, o último mês do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2009.

Há exatos 30 anos, pisei pela primeira vez o solo árido do Planalto Central. Isso aconteceu ainda ontem, repito o jargão dos antigos, e agora, eu e Brasília entramos definitivamente na meia idade. Cinquentenárias como árvores frondosas, penso, olhando os sete ipês enfileirados na paisagem em frente a mim. O sol se esconde nas nuvens refrescando o tempo abafado. Levanto-me e sigo em direção à calçada do outro lado do asfalto. Os pássaros cantam nos jardins e a vida encanta no sopro do vento envergando as hastes dos bambus mais altos, no doce murmúrio dos capins

Caminhar no Lago Norte em direção ao Clube do Congresso é um percurso que gosto de repetir. Na medida em que se avança em direção ao Parque das Garças, diminuem os roncos dos carros e aumentam as vozes das maritacas e dos bem-te-vis. As mangueiras do canteiro central cresceram junto com meus filhos. São árvores jovens, de no máximo 20 anos. Quando, há 18 anos, mudei-me para a Península, elas nem faziam sombras, divago.

Naquela época, o Lago Norte era um bairro meio deserto, afastado da cidade. E como não havia outro lazer, nossa diversão predileta eram as festas e os inúmeros churrascos. Foi numa dessas festas, em casa de minha amiga Evelin Penna que presenciei uma das cenas mais esdrúxulas de minha vida. Foi no começo da década de 90. A festa era performática, bem ao gosto da época. Havia malabaristas, engolidores de fogo, cantores de ópera e outros personagens misturados a atores, jornalistas, escritores, e a todos nós, amigos de fé e autodenominados livres pensadores, vivendo a utopia de uma cidade em construção.

A festa era um verdadeiro happenning, a cara de Brasília e da querida Evelin. Pois bem, foi numa dessas perfomances, ansiosamente aguardadas especialmente pelas mulheres, que aconteceu a desdita. Sentamo-nos espalhadas nas almofadas e tapetes persas da belíssima sala da casa, toda construída com materiais de demolição, para assistir – ao vivo e a cores – à apresentação de um ator, em um nu frontal, conforme se espalhara a boca pequena durante a festa.

De repente, apagou-se a luz e fez-se silêncio, ia começar o espetáculo. Foi quando um foco de luz azul iluminou o palco encoberto pela névoa que aconteceu o inesperado: o jovem ator, com o corpo todo pintado e nu como veio ao mundo, surgiu no palco, rente à parede, com o pelo todo arrepiado e tiritando de frio. Era julho em Brasília e a noite especialmente gelada daquele dia fatídico encolheu a carne e o sexo frontal do ator performático. Não deu outra: a gargalhada foi geral, cruel, incontrolável.

Confesso que também me ri, mas ao mesmo tempo compadeci-me ante a escultura viva daquele estranho David. Conta a lenda que o escultor renascentista italiano Michelangelo, ao terminar seu David, todo lapidado em um bloco único de mármore de carrara, extasiado diante da própria criação, teria dito: Porque não falas? Tive a felicidade de vê-lo exposto na Galeria dell’Accademia, em Florença e quase repeti o gesto do artista, tamanha a perfeição da gigantesca escultura de mais de cinco metros de altura. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.

Comentarios Recentes

Deixe uma resposta