Crônica de Brasília XL
Em Minas, ir ao conservatório de música é como freqüentar a academia ou a aula de inglês: quase todo mundo faz. Em Minas, quase todo mundo toca e canta, e com certeza todo mundo ama a música, do clássico ao jazz e ao Clube da Esquina. “Oh Minas Gerais/Quem te conhece não esquece jamais/Oh Minas Gerais”, cantarolo o refrão do hino mineiro, recostada ao sofá do quarto. Preparo-me para dormir, depois de uma noite e tanto.
Fui ao Centro Cultural Banco do Brasil para a abertura de uma exposição sobre Clarice Lispector. A escritora carioca nasceu, em verdade, na Ucrânia, mas aos dois anos de idade, mudou-se para o Rio de Janeiro. Sorte nossa que pudemos ter o privilégio de lê-la em português. Os romances Água Viva, A Paixão segundo GH e A Hora da Estrela são obras primas da literatura universal.
Lembro-me de ter ficado impressionada com a tristeza da escritora nas imagens projetadas na parede, com trechos de uma entrevista dada à TV Cultura, em 1977. No vídeo, ela conta que, aos treze anos, ficou tão impressionada com a leitura de O Lobo da Estepe, de Herman Hesse, que começou a escrever um conto que não terminava nunca, uma história sem fim. Já foi dito que a literatura é mesmo uma história infinita, penso, ao lembrar-me do que ouvi da escritora cearense Ana Miranda.
Durante o lançamento de seu novo romance Yuxin, Ana Miranda referiu-se a essa história sem fim. “A literatura é como uma corrida em que os escritores, ao longo do tempo, passam o bastão uns aos outros, para contar essa história eterna”, afirmou a escritora. Ela contou que suas histórias são sopradas, muitas vezes, pelos espíritos desses escritores e personagens da história universal, como o poeta Gregório de Matos e o Padre Vieira. Ambos são personagens de seu romance de estréia: Boca do Inferno.
Vou voltar à exposição e abrir todas as gavetas de Clarice, prometo para mim mesma, lembrando-me do impacto que tive ao ver, pela primeira vez, a exposição em seu formato completo, no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Lá eram centenas de gavetas donde se achavam relíquias de escritos e correspondências da escritora existencialista. Aliás, o Museu da Língua Portuguesa é uma obra de arte viva, em eterna construção. Viajar por suas imagens e vozes de grandes personagens da história nacional e navegar pela origem das palavras através das dezenas de terminais de computadores fez-me pensar no mito da Torre de Babel, quando segundo a Bíblia Sagrada, as línguas se misturaram.
O português é assim, essa colcha de retalhos formada por verbetes de raízes tão diversas quanto o grego e o latim, os dialetos da África, as línguas indígenas, e até as línguas saxônicas e germânicas e até vestígios de idiomas árabes e asiáticos. “A língua é minha pátria/Mas eu não tenho pátria, eu tenho mátria e quero frátria”, ressoam em minha mente os belíssimos versos da canção Língua, de Caetano Veloso. E eu assino embaixo. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.
*O Estado de Minas Gerais não possui um hino oficial. A música “Oh! Minas Gerais”, versão de “Viene Sul Mare” é vista, por muitos, como tal, ainda que nunca tenha sido oficializada pelo governo. A música é originária da valsa italiana “Viene Sul Mare”, com letra adaptada por José Duduca de Moraes.











