Crônica de Brasília XLII
Foi durante uma entrevista de Clarice Lispector à TV Cultura, em 1977, que outra vez a vi: a alma humana desnuda, exposta num caderno secreto. Quem faz um diário o faz por querer ser ouvido, penso. É esse o segredo – essa voz interior gritando: por favor, alguém me ouça – que guardam todos os diários escritos no mundo. Se eu pudesse escolher uma profissão seria essa: escafandrista de diários secretos, só para mergulhar no universo dessas vozes internas, e aproximar-me da alma de cada um desses autores.
Pois bem, achei o diário há poucos dias, quando fui ao Centro Cultural Banco do Brasil visitar exposição em memória da escritora. Ele estava esquecido no sofá em que me sentei para assistir à entrevista de Clarice, doze anos depois de sua morte. Procurei o dono dos escritos por todas as salas da exposição. Não resisti e demorei-me mais numa sala em que abri várias gavetas dentro das quais vi fotos, troca de cartas e matérias de jornais retratando a autora ucraniano-carioca.
Depois, continuei a busca e finalmente voltei à sala de vídeo, mas não havia ninguém. Sentei-me no sofá na penumbra e utilizando as luzes da projeção das imagens de Clarice, abri a primeira página do diário com o peito trêmulo de emoção. E é tomada pelo deslumbramento e pela emoção que vos canto nessas páginas o que li naquele caderno anônimo.
Se eu conseguir traduzir-vos um singelo retrato do que ali estava exposto, terei cumprido a missão que tomei para mim de repassar ao próximo, de convosco repartir a benção de, mais uma vez, ter descoberto esse tesouro: a alma humana à imagem e semelhança de Deus, na plenitude de sua grandeza e solidão. Ditas essas palavras, eis o que vi escrito no diário:
“Espero por meu amor, aquele a quem direi tudo, as palavras mais belas, os pensamentos mais puros. Aquele a quem mostrarei o abismo interior de onde subo à superfície em busca de ar, antes de novamente mergulhar no profundíssimo escuro.
Dei para chorar, várias vezes ao dia, de uns tempos para cá. Isso aconteceu depois que aprendi a amar. Somente a língua dos anjos e o amor são capazes de desanuviar-me a alma. Ouço-a agora – a língua dos anjos – nos cantos dos pássaros, sentada ao banco de uma praça, em pleno Planalto Central.
Ao meu redor, árvores, largas calçadas de cimento e lascas de madeira rústica. A minha frente, vê-se um vasto gramado onde se plantaram lúdicas esculturas. São casulos, segundo diz a placa. Ao longe, veem-se os arcos da Ponte JK e veem-se pássaros e um avião e outro avião seguindo o rumo do aeroporto, sobre ás águas plácidas do Paranoá.
Um beija-flor completa a cópula das flores brancas sobre minha cabeça. E as maritacas verdes anunciam o fim da tarde e antecipam em bando as sombras lúgubres da noite próxima. As luzes dos postes se acendem e os arcos da ponte resplandecem refletindo a luz elétrica, enquanto o poente escurece, cobrindo lentamente a cor crepuscular.
Então vejo-o surgir - o meu amor - por entre as árvores e agradeço a Deus que o criou para encantar-me e merecer-lhe seja o meu milagre, enquanto vida houver, enquanto eu for…”
De repente, assusto-me com o barulho de passos chegando à sala de vídeo. Instintivamente, fecho a caderno e o coloco no sofá ao meu lado, na mesma posição em que o achara. De olhos vidrados no vídeo, com o coração aos saltos, ouço os passos apressados aproximarem-se e mãos trêmulas agarrarem, arrebatarem o precioso manuscrito.
Passado o susto, viro-me para ver quem é o autor, mas só lhe vejo o vulto misturar-se a outros vultos, na penumbra da sala de imagens. Brasília é uma cidade mágica, penso, ou será a vida em seu cotidiano milagre? De repente, no meio da tarde, numa sala aonde um DVD projeta os olhos tristes de Clarice, e repete incansavelmente a sua rara imagem, acontece o inaudito. E a gente bebe dessa fonte de onde jorra a vida, de onde brota a arte.
Foi essa luz que captei nas folhas do diário: a alma humana solitária embevecida pelo amor. E tudo em mim enfim se iluminou, pois que o amor é bom e solidário, e hoje eu vivo de compartilhá-lo convosco e tanto mais o tenho tido, mais dividi-lo quero, enquanto eu for. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver lerá.











