Crônica de Brasília XLIV
A dieta dos índios ianomâmis, na fronteira do estado de Roraima com a Venezuela, inclui formigas, gafanhotos e piolhos, penso cá comigo, estarrecida com esse último ingrediente, considerado asqueroso – essa é a palavra – por nossa cultura branca ocidental. Confesso ter duvidado da veracidade da notícia, embora ela me tenha sido relatada pela própria fonte, como diz o jargão jornalístico, pois foi o fotógrafo Tadeu Lubambo em pessoa quem me relatou o fato, por ele vivenciado há quase trinta anos, quando trabalhava na extinta Revista Manchete, do Grupo Bloch.
O império de comunicação de Adolpho Bloch, especialmente nas décadas de 50 e 60, foi quase tão poderoso quanto o foram os Diários Associados, de Assis Chateaubriand, entre os anos 20 e 50, e as Organizações Globo, de Roberto Marinho, a partir da década de 70. Nem mesmo a Internet conseguiu desbancar o poder da televisão e o fato é que ainda hoje os Marinhos - cujo patriarca, Roberto, morreu em 2003 - seguem ditando as cartas e os rumos da opinião do brasileiro das classes pobre e média desse país continental.
O Grupo Bloch começou a ser erguido pelo imigrante russo Adolpho Bloch em 1952 e já em 1957, a Revista Manchete vendia 120 mil exemplares, consolidando-se como o carro-chefe da empresa. Grande amigo do presidente Juscelino Kubistchek, Adolpho Bloch participou ativamente do processo de construção da nova Capital e durante toda a década de 60, a Manchete destacou-se em coberturas dos principais acontecimentos políticos de Brasília. No golpe militar de 1964, por exemplo, a revista foi a única a publicar a foto de João Goulart deixando o Rio e partindo para o exílio no Uruguai.
No início da década de 80, na UnB. o chamado quarto poder era dissecado em suas entranhas e já saíamos das cadeiras da universidade conscientes de que nós – os jornalistas – tínhamos a missão quase impossível de resistir à ditadura da chamada linha editorial, imposta pelos empresários de comunicação. E ao mesmo tempo, sabíamos de antemão ser aquela uma luta inglória.
“Água mole em pedra dura tanto bate até que fura” diz a sabedoria popular. E nela nos apoiávamos para fazer a resistência ideológica e escrever nas entrelinhas das reportagens o que não nos seria permitido dizer em alto e bom som, sob pena de perdermos o emprego e a batalha pela sobrevivência. Exatamente por isso, o índice de alcoolismo e desilusão ainda hoje é assustadoramente alto entre os jornalistas de meia idade. E os que não abandonam definitivamente a profissão, praticam alguma atividade paralela que lhes preencha a alma.
Deve ser por isso que há tanto jornalistas escritores, entre os quais me incluo, escrevo à mão, sentada à varanda da casa de praia no Cumbuco, no Ceará, onde aproveito a luz do crepúsculo das últimas horas de 2009 e espero o novo ano chegar com o peito cheio de esperança. Ao oeste, bem às minhas costas, o astro-rei se despede por entre os telhados das casas coloniais e reflete seus raios amarelos nas palmas dos coqueiros. À frente, assisto ao quebrar das mansas ondas do mar e vejo a lua quase cheia clarear, à medida que o sol se põe e a noite expande suas sombras.
Na noite de 31 de dezembro de 2009 para 1º de janeiro de 2010, assistiremos à lua cheia no céu dos trópicos e, sob as benções do Pai Eterno e da Virgem Maria, brindaremos à fé e ao amor, e agradeceremos pela beleza da vida até aqui vivida, escrevo. E então me volta à memória a história contada por Tadeu Lubambo. Em 1982, o lendário fotógrafo da Revista Manchete ofereceu ao mundo uma histórica reportagem fotográfica sobre o modo de viver de uma tribo amazônica da grande Nação Ianomâmi que, até então, nunca havia tido contato com o homem branco.
O fotógrafo viveu em comunidade junto à tribo por longos meses, deixado ali por sua própria conta e risco por um avião contratado pela revista, com a promessa de ser resgatado – vivo ou morto – nove meses depois, exatamente o tempo de uma gestação. Tadeu contou que a dieta e o modo de viver dos índios mudaram sua vida para sempre. Saiu da tribo com sessenta quilos a menos e uma percepção intuitiva absolutamente desenvolvida que nunca mais o abandonou. Hoje, o fotógrafo dos ianomâmis vive seus dias na Praia da Pipa, no Rio Grande do Norte, onde tem um restaurante tanto exótico quanto encantador: o Camamo.
Diria que o velho repórter fotográfico se transformou numa espécie de pajé da culinária com uma alquimia toda própria que mistura cheiros, luzes e sabores. Tadeu Lubambo não serve pratos, antes serve poções onde se misturam sabores como o da carne de jacaré e doces aromas como os da canela e da goiaba, numa ambientação à luz de velas e uma decoração que mescla culturas tão diversas quanto as indígena, asiática e mexicana. A reportagem fotográfica de Tadeu Lubambo sobre a tribo recém descoberta ganhou o mundo, na década de 80, e acabou por atrair para ali uma leva de curiosos, pesquisadores e garimpeiros. O resultado, segundo me contou com profundo pesar, foi a contaminação, por doenças levadas pelo homem branco, e o extermínio de toda a tribo. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver lerá.











