Crônica de Brasília XLVI
Dia desses, li uma notícia no jornal sobre a descoberta iminente de um novo sistema solar, onde haveria planetas semelhantes à terra e prontos a abrigarem a vida, tal qual a conhecemos. A matéria falava na possibilidade de não estarmos sozinhos no universo e citava um congresso sobre o assunto organizado pelo próprio Vaticano.
Uma blasfêmia em outros tempos, penso, sentada à mesma varanda onde passei infância e adolescência, extasiada diante da beleza das águas plácidas do atlântico. Na Praia do Cabo Branco, em João Pessoa, a água é sempre morna e o mar eternamente manso. Das águas mansas dessa praia secular parti um dia, há 30 anos, rumo ao Planalto Central e ali construí uma vida.
Hoje, no ano do cinqüentenário de Brasília, pela primeira vez penso em voltar. Antes de o mundo acabar, invade-me a mente o trágico pensamento. Há poucos dias, durante um passeio por dunas e praias do Ceará, assisti a um espetáculo tenebroso: a beleza selvagem de milhas e milhas de praias desertas maculadas pelo lixo urbano que parecia inexplicavelmente vir do próprio mar. Seria o lixo da cidade de Fortaleza, perguntei-me estarrecida, ou seria o lixo de outras pátrias e continentes despejados por navios nas águas profundas desse imenso mar?
De repente, volta-me à memória uma imagem que vi na Internet mostrando uma gigantesca montanha de lixo navegando sem destino nas profundezas do oceano. Segundo organizações ambientalistas, somente no Mar Mediterrâneo há três milhões de toneladas de lixo, especialmente o plástico que vai da superfície a mil metros de profundidade. Já no Pacífico, descobertas apontam para uma gigantesca bolha de lixo que seria duas vezes maior do que o território dos Estados Unidos.
Denunciada pela primeira vez, há dez anos, pelo oceanógrafo norte-americano Charles Moore, a bolha cresceu assustadoramente desde então. E sua visão hoje - uma massa uniforme de lixo flutuante que começa a 500 milhas da costa da Califórnia, contorna o Havaí e chega quase ao Japão - só pode ser comparada ao inferno com seu rio de sangue e dor, descrito pelo poeta medieval Dante Alighieri, na Divina Comédia.
Em um século, cem milhões de toneladas de plástico foram lançadas nos mares. Segundo dados das Nações Unidas, esses detritos constituem 90% de todo o lixo flutuante nos oceanos (em torno de 46.000 peças de plástico) e provocam a morte de mais de um milhão de aves e de outros cem mil mamíferos marinhos anualmente.
No Canto XII, de A Divina Comédia, os poetas descem ao inferno, após passarem por seu guardião, o Minotauro, e chegam ao vale onde vêem um rio de sangue fervendo, no qual são punidos os que praticaram violências contra a vida ou contra o próximo. “Mas olha o vale: o rio é não distante/De sangue, onde verás fervendo aquele,/Que violência exerceu no semelhante./“Ó ira louca, ó ambição, que impele/Na curta vida nossa, ao inferno arrasta/E para sempre nos submerge nele!” professam os tercetos daquele canto mítico.
Os versos de Dante passeiam por minha memória e a alma dói imaginando o rio de lixo e lodo sangrando os oceanos, matando a vida no planeta terra. A última conferência ambiental de Copenhague, na Dinamarca, foi um completo fracasso, a despeito de todas as previsões catastróficas dos cientistas em virtude do aumento do aquecimento global. “Esse 18 de dezembro de 2009 ficará marcado na história como o dia no qual os principais líderes mundiais falharam na tentativa de chegar a um acordo capaz de salvar o planeta da maior ameaça com a qual nossa civilização já se defrontou: o aquecimento global” noticiou solenemente o site do Instituto Ethos, ao final da conferência, fazendo coro à indignação mundial.
Em 1960, Brasília foi construída em cima de um sonho de esperança e prosperidade. “Entre os paralelos 15 e 20 graus, havia um leito muito largo e muito extenso, que partia de um ponto onde se formava um lago. Então uma voz disse repetidamente: Quando escavarem as minas escondidas no meio destes montes, aparecerá aqui a Grande Civilização, a Terra Prometida, onde correrá leite e mel. Será uma riqueza inconcebível. E essas coisas acontecerão na terceira geração”, diz o santo italiano Dom João Bosco, em seu sonho profético de 1883 que anteviu, um século antes, a construção da nova capital do Brasil. Hoje, 50 anos depois, esse sonho está ameaçado, como ameaçada está a sobrevivência da humanidade e do nosso planeta. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver lerá.











