Crônica de Brasília XLIX

Estamos eu, o cão e o gato, cada um em seu compartimento, cada qual entretido consigo mesmo; o cão brinca com uma palma seca caída ao chão, a gata com certeza cochila no tapete, embora não a veja daqui de onde estou recostada à rede, e eu penso no rosto rígido do poeta e jornalista Ariosto Teixeira, de cujo velório acabo de voltar.
No som, em homenagem ao morto, a orquestra sinfônica de Leningrado executa Noturno em Mi Bemol Maior, Opus 55, nº 5, de Chopin. E enquanto toca a melodia, eu penso no corpo efêmero que nos guarda a alma e em como, quando esta dele se aparta, nenhum de nós se reconhece na matéria exposta ali naquela sala ou em qualquer outra sala de velório do planeta.
O homem não se reconhece na matéria inerte simplesmente porque não é mais um homem o que se vê ali, mas o seu casulo, a casca que lhe abrigara o espírito durante a jornada. Trocamos idéias, lamentamos a perda do querido amigo, comentamos como isso começa de certa forma a se repetir entre nós, de meia idade, e a vida, de repente, ganha um sentido de urgência.
“É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã” - canto, nostálgica, o verso de Renato Russo, estirada à rede armada na varanda, nesse fim de tarde que se arrasta. Gosto da mansa solidão de estar em casa, nessa cidade que me abriu as portas. Em 1979, quando aqui cheguei, era tudo estranheza e novidade. Brasília, com sua paisagem surpreendente, era então para mim uma incógnita. De cara, eu gostei mesmo foi de sua gente, desse mosaico onde convivem todos os sotaques.
De repente, diminui a luz, cala o som e ouço só o silêncio da tarde já quase noite. Oito horas, mas ainda é claro o céu do DF nesse horário de verão. Ouço então o silêncio surdo, por um momento, no vácuo do vento, do barulho urbano, das vozes dos pássaros. O surdo silêncio da profunda solidão - penso e logo afasto o pensamento. Lá longe, ladra um cão e o ronco de um carro corta o silêncio da paisagem.
O Lago Norte há alguns anos era uma fazenda urbana com galos, macaquinhos, corujas e vizinhos quase parentes. Graças a Deus, por sorte, vivenciei esse tempo na cidade, e isso aconteceu ainda ontem. Na minha QI, a gente comemorava no garrafão da ponta de picolé, ao final do conjunto, datas importantes como Natal, São João e 21 de abril, dia da fundação de Brasília. Juntávamos todos os vizinhos nessas festas e morar ali naquele conjunto passou a ser, por certo tempo, um privilégio. A fraternidade de nosso conjunto fez história e fomos nós que ganhamos o prêmio máximo do primeiro concurso de festas de natal de rua, no Lago Norte. O prêmio foi uma caminhonete novinha que decidimos vender e investir o dinheiro na melhoria da iluminação de nossa rua.
Ganhamos aquele concurso sem nenhum esforço extra, sem contratar nenhum serviço especializado de assessoria ou decoração. Ganhamos porque, de fato, éramos uma fraternidade, ou melhor, vivíamos em fraternidade. O que a gente não sabia e só descobriu depois de sua morte é que nossa fraternidade tinha um mentor: Ricardo Botelho, meu querido vizinho da casa em frente, que morreu de um infarto fulminante há cerca de três anos.
Ricardo era um carioca adorável. Simpático e gozador. Ricardo gostava de todos e todos gostavam de Ricardo. Lembro-me de que eu e Marco Antonio, à época ainda vivendo juntos, ficávamos maravilhados com a grandeza da alma de Ricardo. Nela cabíamos todos e a todos ele tratava com o mesmo amor e a mesma atenção. Seu coração era grande como só o são os corações dos anjos e dos sábios.
Belo Ricardo, bela a amizade, belo Ariosto, personagens todos dessa Brasília que aos poucos vai ganhando cara própria. E algumas coisas podem já até ser tidas como a cara de Brasília. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver lerá.

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