<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	>

<channel>
	<title>Poesia em Tempo Real</title>
	<atom:link href="http://www.poesiaemtemporeal.com/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://www.poesiaemtemporeal.com</link>
	<description></description>
	<pubDate>Sun, 07 Mar 2010 05:00:41 +0000</pubDate>
	<generator>http://wordpress.org/?v=2.6.3</generator>
	<language>en</language>
			<item>
		<title>Crônica de Brasília XLIX</title>
		<link>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/03/07/cronica-de-brasilia-xlix/</link>
		<comments>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/03/07/cronica-de-brasilia-xlix/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 07 Mar 2010 05:00:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Amneres</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Crônicas de Brasília]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.poesiaemtemporeal.com/?p=1120</guid>
		<description><![CDATA[Estamos eu, o cão e o gato, cada um em seu compartimento, cada qual entretido consigo mesmo; o cão brinca com uma palma seca caída ao chão, a gata com certeza cochila no tapete, embora não a veja daqui de onde estou recostada à rede, e eu penso no rosto rígido do poeta e jornalista [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color: #ffffff;">Estamos eu, o cão e o gato, cada um em seu compartimento, cada qual entretido consigo mesmo; o cão brinca com uma palma seca caída ao chão, a gata com certeza cochila no tapete, embora não a veja daqui de onde estou recostada à rede, e eu penso no rosto rígido do poeta e jornalista Ariosto Teixeira, de cujo velório acabo de voltar.<br />
No som, em homenagem ao morto, a orquestra sinfônica de Leningrado executa Noturno em Mi Bemol Maior, Opus 55, nº 5, de Chopin. E enquanto toca a melodia, eu penso no corpo efêmero que nos guarda a alma e em como, quando esta dele se aparta, nenhum de nós se reconhece na matéria exposta ali naquela sala ou em qualquer outra sala de velório do planeta.<br />
O homem não se reconhece na matéria inerte simplesmente porque não é mais um homem o que se vê ali, mas o seu casulo, a casca que lhe abrigara o espírito durante a jornada. Trocamos idéias, lamentamos a perda do querido amigo, comentamos como isso começa de certa forma a se repetir entre nós, de meia idade, e a vida, de repente, ganha um sentido de urgência.<br />
“É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã” - canto, nostálgica, o verso de Renato Russo, estirada à rede armada na varanda, nesse fim de tarde que se arrasta. Gosto da mansa solidão de estar em casa, nessa cidade que me abriu as portas. Em 1979, quando aqui cheguei, era tudo estranheza e novidade. Brasília, com sua paisagem surpreendente, era então para mim uma incógnita. De cara, eu gostei mesmo foi de sua gente, desse mosaico onde convivem todos os sotaques.<br />
De repente, diminui a luz, cala o som e ouço só o silêncio da tarde já quase noite. Oito horas, mas ainda é claro o céu do DF nesse horário de verão. Ouço então o silêncio surdo, por um momento, no vácuo do vento, do barulho urbano, das vozes dos pássaros. O surdo silêncio da profunda solidão - penso e logo afasto o pensamento. Lá longe, ladra um cão e o ronco de um carro corta o silêncio da paisagem.<br />
O Lago Norte há alguns anos era uma fazenda urbana com galos, macaquinhos, corujas e vizinhos quase parentes. Graças a Deus, por sorte, vivenciei esse tempo na cidade, e isso aconteceu ainda ontem. Na minha QI, a gente comemorava no garrafão da ponta de picolé, ao final do conjunto, datas importantes como Natal, São João e 21 de abril, dia da fundação de Brasília. Juntávamos todos os vizinhos nessas festas e morar ali naquele conjunto passou a ser, por certo tempo, um privilégio. A fraternidade de nosso conjunto fez história e fomos nós que ganhamos o prêmio máximo do primeiro concurso de festas de natal de rua, no Lago Norte. O prêmio foi uma caminhonete novinha que decidimos vender e investir o dinheiro na melhoria da iluminação de nossa rua.<br />
Ganhamos aquele concurso sem nenhum esforço extra, sem contratar nenhum serviço especializado de assessoria ou decoração. Ganhamos porque, de fato, éramos uma fraternidade, ou melhor, vivíamos em fraternidade. O que a gente não sabia e só descobriu depois de sua morte é que nossa fraternidade tinha um mentor: Ricardo Botelho, meu querido vizinho da casa em frente, que morreu de um infarto fulminante há cerca de três anos.<br />
Ricardo era um carioca adorável. Simpático e gozador. Ricardo gostava de todos e todos gostavam de Ricardo. Lembro-me de que eu e Marco Antonio, à época ainda vivendo juntos, ficávamos maravilhados com a grandeza da alma de Ricardo. Nela cabíamos todos e a todos ele tratava com o mesmo amor e a mesma atenção. Seu coração era grande como só o são os corações dos anjos e dos sábios.<br />
Belo Ricardo, bela a amizade, belo Ariosto, personagens todos dessa Brasília que aos poucos vai ganhando cara própria. E algumas coisas podem já até ser tidas como a cara de Brasília. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver lerá.</span></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/03/07/cronica-de-brasilia-xlix/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>Crônica de Brasília XLVIII</title>
		<link>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/02/28/cronica-de-brasilia-xlviii/</link>
		<comments>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/02/28/cronica-de-brasilia-xlviii/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 28 Feb 2010 05:00:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Amneres</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Crônicas de Brasília]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.poesiaemtemporeal.com/?p=1117</guid>
		<description><![CDATA[Da solidão deste Planalto Central ou será da imensidão? Pergunto-me, tentando lembrar a frase exata do presidente Juscelino Kubitschek, em 1956, ao visitar, pela primeira vez, o lugar em que seria construída Brasília. Estou sentada sozinha em uma das salas de cinema da Academia de Tênis, esperando a hora de começar o filme. Sinto na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color: #ffffff;">Da solidão deste Planalto Central ou será da imensidão? Pergunto-me, tentando lembrar a frase exata do presidente Juscelino Kubitschek, em 1956, ao visitar, pela primeira vez, o lugar em que seria construída Brasília. Estou sentada sozinha em uma das salas de cinema da Academia de Tênis, esperando a hora de começar o filme. Sinto na pele o frescor do ar-condicionado; lá fora faz um calor danado, um dia úmido e quente, típico de janeiro.<br />
Vou assistir ao novo filme do espanhol Pedro Almadóvar. Abraços Partidos, título intrigante - penso e decido que depois do filme verei a luz crepuscular. Vou assistir ao pôr do sol atravessando a Ponte JK, espiar o farfalhar das luzes refletindo as águas do Paranoá.<br />
Abraços Partidos é um filme de amor. De amor ao cinema, uma escritura onde as palavras todas são iluminuras - escrevo distraída, horas depois, sentada ainda à poltrona da sala escura. O ritmo dos saltos altos caminhando, a luz de uma lágrima enquanto escorrendo, a vida em seu movimento, em sua fundura.<br />
Saio do filme, inebriada, e então vejo o sol ameno meio que se despedindo. E os pássaros, esses seres lindos, voando, ligeiros, encantando a tarde, com seus doces trinos. A vida é o tempo de uma sinfonia e nela somos meros passageiros com hora de partir e de chegar. Viver é seguir em harmonia - escrevo, e vejo o céu avermelhar.<br />
O maestro dessa orquestra é Deus - penso abismada ante a visão da beleza e no som do carro, como que coroando a sensação, ouço Rod Stewart cantar What a Wonderful World, um verdadeiro hino de amor à vida e à natureza. O cantor britânico se reinventou com o lançamento de The Great American Songbook, uma coleção de quatro CDs, onde interpreta com louvor o melhor do cancioneiro norte-americano.<br />
Volto pela L-4 Sul e sigo em direção à Ponte Costa e Silva. O nome é de um dos generais-presidentes da época da Ditadura. Que nunca volte aquele tempo - penso e afasto logo o pensamento. Os tempos são outros no Brasil, graças a Deus – digo em voz alta, ao lembrar o título de um filme brasileiro recente: Lula - O filho do Brasil, do cineasta Fábio Barreto. O filme conta a trajetória do presidente Luís Inácio Lula da Silva desde seu nascimento, no sertão de Pernambuco até o momento em que se torna presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, no ABC paulista.<br />
De lá para cá, muitas águas já rolaram debaixo dessa ponte - escrevo e sigo o passeio em direção ao Pontão do Lago Sul. Este ano, o Brasil elege um novo presidente, depois de oito anos de Governo Lula, e Brasília, aos 50 anos, assistirá subir à rampa suspensa do Palácio do Planalto seu quarto presidente civil eleito pelo voto direto, depois da redemocratização. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver lerá. </span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">* Marcada para 21 de abril de 1960 a mudança da capital, a 2 de outubro de 1956 o presidente JK embarcou com pequena comitiva num DC-3 da Força Aérea Brasileira e foi conhecer o lugar onde Brasília seria edificada. Por ocasião dessa visita, JK deixou no Livro de Ouro da futura capital uma frase que se tornou célebre e está gravada no mármore do Museu da Cidade, na Praça dos Três Poderes: &#8220;Deste planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino.&#8221;</span></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/02/28/cronica-de-brasilia-xlviii/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>Crônica de Brasília XLVII</title>
		<link>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/02/21/cronica-de-brasilia-xlvii/</link>
		<comments>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/02/21/cronica-de-brasilia-xlvii/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 21 Feb 2010 05:00:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Amneres</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Crônicas de Brasília]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.poesiaemtemporeal.com/?p=1114</guid>
		<description><![CDATA[“Ah, look at all the lonely people! Ah, look at all the lonely people!”, toca no circuito interno da aeronave o maravilhoso e eterno hit dos Beatles, os quatro meninos de Liverpool que, nas décadas de 60 e 70, mudaram definitivamente nossa forma de estar no mundo. Eleanor Rigby é um clássico do rock e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color: #ffffff;">“Ah, look at all the lonely people! Ah, look at all the lonely people!”, toca no circuito interno da aeronave o maravilhoso e eterno hit dos Beatles, os quatro meninos de Liverpool que, nas décadas de 60 e 70, mudaram definitivamente nossa forma de estar no mundo. Eleanor Rigby é um clássico do rock e quase não posso conter a vontade de dançar e cantar para comemorar a vida e o novo ano, o décimo deste terceiro milênio desde que o Verbo se fez carne, desde que Cristo nasceu.<br />
Lá fora, o céu é um espetáculo de luz e de beleza, tanto mais bonito quanto mais o avião se aproxima das terras altas do Planalto Central. Volto a Brasília depois de quase um mês de férias à beira-mar do Atlântico. Volto e a sensação é a de voltar para casa, apesar da dor da separação que há 30 anos me acompanha desde que parti das águas mornas da Praia do Cabo Branco, deixando ali família, amores, memórias, pedaços inseparáveis de minha história.<br />
Mas Brasília, com a exuberância de sua luz, com a beleza selvagem de seu Cerrado, definitivamente hoje faz parte de mim. É para onde gosto de voltar, como se houvera sido sempre aqui o meu lugar. Brasília nasceu de um sonho e essa mística, queira ou não, mexe com a alma de quem nela chega para morar. É como se fosse possível construir uma nova vida, reinventar os sonhos, recomeçar. Exatamente porque ninguém se arvora a ser seu dono, exatamente porque ninguém é daqui.<br />
Até mesmo os que aqui nasceram como meus próprios filhos, há cerca de duas décadas, têm suas raízes, suas origens, seus vínculos familiares provindos de outros territórios. É como estar em um território neutro onde todos podem ser aceitos, onde todos podem entrar e permanecer e passar a ser, também, um candango, alguém que veio em busca de um sonho, escrevo.<br />
Acordo do devaneio no momento exato em que o avião pousa na pista do Aeroporto JK.  “All the lonely people/where do they all come from? All the lonely people/where do they all belong?”, cantarolo baixinho, enquanto observo a multidão ao redor. A maioria é gente de Brasília voltando para casa, penso absorta, enquanto retiro a mala vermelha da esteira rolante. Neste ano, a cidade comemora 50 anos de sua fundação como uma Babel do 3º milênio, ao mesmo tempo múltipla e única, eclética e restrita, urbana e rural. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver lerá.</span></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/02/21/cronica-de-brasilia-xlvii/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>Crônica de Brasília XLVI</title>
		<link>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/02/14/cronica-de-brasilia-xlvi/</link>
		<comments>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/02/14/cronica-de-brasilia-xlvi/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 14 Feb 2010 05:00:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Amneres</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Crônicas de Brasília]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.poesiaemtemporeal.com/?p=1110</guid>
		<description><![CDATA[Dia desses, li uma notícia no jornal sobre a descoberta iminente de um novo sistema solar, onde haveria planetas semelhantes à terra e prontos a abrigarem a vida, tal qual a conhecemos. A matéria falava na possibilidade de não estarmos sozinhos no universo e citava um congresso sobre o assunto organizado pelo próprio Vaticano.
Uma blasfêmia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color: #ffffff;">Dia desses, li uma notícia no jornal sobre a descoberta iminente de um novo sistema solar, onde haveria planetas semelhantes à terra e prontos a abrigarem a vida, tal qual a conhecemos. A matéria falava na possibilidade de não estarmos sozinhos no universo e citava um congresso sobre o assunto organizado pelo próprio Vaticano.<br />
Uma blasfêmia em outros tempos, penso, sentada à mesma varanda onde passei infância e adolescência, extasiada diante da beleza das águas plácidas do atlântico. Na Praia do Cabo Branco, em João Pessoa, a água é sempre morna e o mar eternamente manso. Das águas mansas dessa praia secular parti um dia, há 30 anos, rumo ao Planalto Central e ali construí uma vida.<br />
Hoje, no ano do cinqüentenário de Brasília, pela primeira vez penso em voltar. Antes de o mundo acabar, invade-me a mente o trágico pensamento. Há poucos dias, durante um passeio por dunas e praias do Ceará, assisti a um espetáculo tenebroso: a beleza selvagem de milhas e milhas de praias desertas maculadas pelo lixo urbano que parecia inexplicavelmente vir do próprio mar. Seria o lixo da cidade de Fortaleza, perguntei-me estarrecida, ou seria o lixo de outras pátrias e continentes despejados por navios nas águas profundas desse imenso mar?<br />
De repente, volta-me à memória uma imagem que vi na Internet mostrando uma gigantesca montanha de lixo navegando sem destino nas profundezas do oceano. Segundo organizações ambientalistas, somente no Mar Mediterrâneo há três milhões de toneladas de lixo, especialmente o plástico que vai da superfície a mil metros de profundidade. Já no Pacífico, descobertas apontam para uma gigantesca bolha de lixo que seria duas vezes maior do que o território dos Estados Unidos.<br />
Denunciada pela primeira vez, há dez anos, pelo oceanógrafo norte-americano Charles Moore, a bolha cresceu assustadoramente desde então. E sua visão hoje - uma massa uniforme de lixo flutuante que começa a 500 milhas da costa da Califórnia, contorna o Havaí e chega quase ao Japão - só pode ser comparada ao inferno com seu rio de sangue e dor, descrito pelo poeta medieval Dante Alighieri, na Divina Comédia.<br />
Em um século, cem milhões de toneladas de plástico foram lançadas nos mares. Segundo dados das Nações Unidas, esses detritos constituem 90% de todo o lixo flutuante nos oceanos (em torno de 46.000 peças de plástico) e provocam a morte de mais de um milhão de aves e de outros cem mil mamíferos marinhos anualmente.<br />
No Canto XII, de A Divina Comédia, os poetas descem ao inferno, após passarem por seu guardião, o Minotauro, e chegam ao vale onde vêem um rio de sangue fervendo, no qual são punidos os que praticaram violências contra a vida ou contra o próximo. “Mas olha o vale: o rio é não distante/De sangue, onde verás fervendo aquele,/Que violência exerceu no semelhante./“Ó ira louca, ó ambição, que impele/Na curta vida nossa, ao inferno arrasta/E para sempre nos submerge nele!” professam os tercetos daquele canto mítico.<br />
Os versos de Dante passeiam por minha memória e a alma dói imaginando o rio de lixo e lodo sangrando os oceanos, matando a vida no planeta terra. A última conferência ambiental de Copenhague, na Dinamarca, foi um completo fracasso, a despeito de todas as previsões catastróficas dos cientistas em virtude do aumento do aquecimento global. “Esse 18 de dezembro de 2009 ficará marcado na história como o dia no qual os principais líderes mundiais falharam na tentativa de chegar a um acordo capaz de salvar o planeta da maior ameaça com a qual nossa civilização já se defrontou: o aquecimento global” noticiou solenemente o site do Instituto Ethos, ao final da conferência, fazendo coro à indignação mundial.<br />
Em 1960, Brasília foi construída em cima de um sonho de esperança e prosperidade. &#8220;Entre os paralelos 15 e 20 graus, havia um leito muito largo e muito extenso, que partia de um ponto onde se formava um lago. Então uma voz disse repetidamente: Quando escavarem as minas escondidas no meio destes montes, aparecerá aqui a Grande Civilização, a Terra Prometida, onde correrá leite e mel. Será uma riqueza inconcebível. E essas coisas acontecerão na terceira geração&#8221;, diz o santo italiano Dom João Bosco, em seu sonho profético de 1883 que anteviu, um século antes, a construção da nova capital do Brasil. Hoje, 50 anos depois, esse sonho está ameaçado, como ameaçada está a sobrevivência da humanidade e do nosso planeta. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver lerá.</span></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/02/14/cronica-de-brasilia-xlvi/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>Crônica de Brasília XLV</title>
		<link>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/02/07/cronica-de-brasilia-xlv/</link>
		<comments>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/02/07/cronica-de-brasilia-xlv/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 07 Feb 2010 05:00:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Amneres</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Crônicas de Brasília]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.poesiaemtemporeal.com/?p=1107</guid>
		<description><![CDATA[Tomei um banho demorado, respeitando cada momento do ritual e a água caindo, milagroso bálsamo, acalmou-me corpo e alma. O barulho da água, a textura da água, seu poder de cura, penso e agradeço a Deus pelo vigor, pela beleza da natureza no planeta terra, por sua irmandade com a tessitura humana.
Nós, tal qual a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color: #ffffff;">Tomei um banho demorado, respeitando cada momento do ritual e a água caindo, milagroso bálsamo, acalmou-me corpo e alma. O barulho da água, a textura da água, seu poder de cura, penso e agradeço a Deus pelo vigor, pela beleza da natureza no planeta terra, por sua irmandade com a tessitura humana.<br />
Nós, tal qual a terra, somos quase totalmente água e a matéria ocupa apenas 30% de nossa estrutura, o resto é liquidez, é éter, é urdidura. A água em nós e nela, na terra, é existência e cura. Sem água, a gente morre, penso e dou um mergulho nos pensamentos.<br />
Às vezes, eles viajam “por mares nunca dantes navegados”, profano o texto épico de Luís de Camões. Os Lusíadas é uma ode ao povo português só comparável ao que fez Homero ao povo grego com suas Ilíada e Odisséia, divago. A grandeza da literatura é essa, matar a nossa sede de entender a alma humana. O bem e o mal debatendo-se, revelando-se aos nossos olhos em sua luta eterna e inglória.<br />
Quando enfim alguém consegue traduzir em texto essa aventura, o milagre acontece e o encanto se refaz. E é quando o homem se vê enfim filho de Deus e dá um salto rumo à eternidade. Os grandes livros da humanidade causam esse impacto e mudam o rumo da história. E os visionários são esses homens por trás das obras.<br />
Em Brasília, no curso de Letras da UnB, nós estudamos alguns desses livros visionários, penso e vem-me à memória Grande Sertão Veredas, do brasileiro Guimarães Rosa. O livro traduziu para o mundo a alma dos sertões das Minas Gerais e a saga de sua gente com toda sua carga de dor e de grandeza.<br />
Vidas Secas, de Graciliano Ramos, também fala dessa saga sertaneja, só que do ponto de vista do nordestino. Fabiano, o soldado amarelo, a cachorra Baleia são personagens inesquecíveis dessa tragédia brasileira. Em pleno século XX, assistimos a nossos irmãos dos sertões nordestinos sucumbirem à fome e à sede, abandonados à própria sorte. “O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão” diz a frase profética do líder espiritual Antonio Conselheiro, fundador do reino de Canudos nos sertões da Bahia, trazido à luz por Euclides da Cunha em Os Sertões, obra fundamental de nossa sociologia, ao lado de Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, e de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda.<br />
O Romance da Pedra do Reino, do paraibano Ariano Suassuna, é outra grande obra nacional a traduzir a saga sociológica e existencial do povo sertanejo. Um romance selvagem, tragicômico, avassalador, ainda incompreendido nas academias brasileiras. No curso de Letras da UnB, estudamos as peças maravilhosas de Ariano, como o Auto da  Compadecida, obra prima do teatro brasileiro, mas nada se falou de seu grandioso romance.<br />
Nesse país continental, confesso que nunca ouvira falar de uma literatura goiana, até me mudar para Brasília e entrar na UnB. Foi quando tive a sorte de conhecer escritores da estirpe do contista Bernardo Elis e da poetisa e doceira Cora Coralina. Cora escreveu secretamente, à beira do fogão, em pedacinhos de papel que mantinha escondidos até quase completar 80 anos. Foi somente quando enviuvou que pode voltar à Cidade de Goiás, a primeira capital do estado goiano e lá pode finalmente cumprir o seu destino.<br />
Tive a felicidade de visitar sua casa em Goiás Velho – como carinhosamente chamamos a Cidade de Goiás – e pude beber na fonte a beleza de sua poesia e a alquimia de seus doces. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver lerá.</span></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/02/07/cronica-de-brasilia-xlv/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>Crônica de Brasília XLIV</title>
		<link>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/01/31/cronica-de-brasilia-xliv/</link>
		<comments>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/01/31/cronica-de-brasilia-xliv/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 31 Jan 2010 05:00:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Amneres</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Crônicas de Brasília]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.poesiaemtemporeal.com/?p=1105</guid>
		<description><![CDATA[A dieta dos índios ianomâmis, na fronteira do estado de Roraima com a Venezuela, inclui formigas, gafanhotos e piolhos, penso cá comigo, estarrecida com esse último ingrediente, considerado asqueroso – essa é a palavra – por nossa cultura branca ocidental. Confesso ter duvidado da veracidade da notícia, embora ela me tenha sido relatada pela própria [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color: #ffffff;">A dieta dos índios ianomâmis, na fronteira do estado de Roraima com a Venezuela, inclui formigas, gafanhotos e piolhos, penso cá comigo, estarrecida com esse último ingrediente, considerado asqueroso – essa é a palavra – por nossa cultura branca ocidental. Confesso ter duvidado da veracidade da notícia, embora ela me tenha sido relatada pela própria fonte, como diz o jargão jornalístico, pois foi o fotógrafo Tadeu Lubambo em pessoa quem me relatou o fato, por ele vivenciado há quase trinta anos, quando trabalhava na extinta Revista Manchete, do Grupo Bloch.<br />
O império de comunicação de Adolpho Bloch, especialmente nas décadas de 50 e 60, foi quase tão poderoso quanto o foram os Diários Associados, de Assis Chateaubriand, entre os anos 20 e 50, e as Organizações Globo, de Roberto Marinho, a partir da década de 70. Nem mesmo a Internet conseguiu desbancar o poder da televisão e o fato é que ainda hoje os Marinhos - cujo patriarca, Roberto, morreu em 2003 - seguem ditando as cartas e os rumos da opinião do brasileiro das classes pobre e média desse país continental.<br />
O Grupo Bloch começou a ser erguido pelo imigrante russo Adolpho Bloch em 1952 e já em 1957, a Revista Manchete vendia 120 mil exemplares, consolidando-se como o carro-chefe da empresa. Grande amigo do presidente Juscelino Kubistchek, Adolpho Bloch participou ativamente do processo de construção da nova Capital e durante toda a década de 60, a Manchete destacou-se em coberturas dos principais acontecimentos políticos de Brasília. No golpe militar de 1964, por exemplo, a revista foi a única a publicar a foto de João Goulart deixando o Rio e partindo para o exílio no Uruguai.<br />
No início da década de 80, na UnB. o chamado quarto poder era dissecado em suas entranhas e já saíamos das cadeiras da universidade conscientes de que nós – os jornalistas – tínhamos a missão quase impossível de resistir à ditadura da chamada linha editorial, imposta pelos empresários de comunicação. E ao mesmo tempo, sabíamos de antemão ser aquela uma luta inglória.<br />
“Água mole em pedra dura tanto bate até que fura” diz a sabedoria popular. E nela nos apoiávamos para fazer a resistência ideológica e escrever nas entrelinhas das reportagens o que não nos seria permitido dizer em alto e bom som, sob pena de perdermos o emprego e a batalha pela sobrevivência. Exatamente por isso, o índice de alcoolismo e desilusão ainda hoje é assustadoramente alto entre os jornalistas de meia idade. E os que não abandonam definitivamente a profissão, praticam alguma atividade paralela que lhes preencha a alma.<br />
Deve ser por isso que há tanto jornalistas escritores, entre os quais me incluo, escrevo à mão, sentada à varanda da casa de praia no Cumbuco, no Ceará, onde aproveito a luz do crepúsculo das últimas horas de 2009 e espero o novo ano chegar com o peito cheio de esperança. Ao oeste, bem às minhas costas, o astro-rei se despede por entre os telhados das casas coloniais e reflete seus raios amarelos nas palmas dos coqueiros. À frente, assisto ao quebrar das mansas ondas do mar e vejo a lua quase cheia clarear, à medida que o sol se põe e a noite expande suas sombras.<br />
Na noite de 31 de dezembro de 2009 para 1º de janeiro de 2010, assistiremos à lua cheia no céu dos trópicos e, sob as benções do Pai Eterno e da Virgem Maria, brindaremos à fé e ao amor, e agradeceremos pela beleza da vida até aqui vivida, escrevo. E então me volta à memória a história contada por Tadeu Lubambo. Em 1982, o lendário fotógrafo da Revista Manchete ofereceu ao mundo uma histórica reportagem fotográfica sobre o modo de viver de uma tribo amazônica da grande Nação Ianomâmi que, até então, nunca havia tido contato com o homem branco.<br />
O fotógrafo viveu em comunidade junto à tribo por longos meses, deixado ali por sua própria conta e risco por um avião contratado pela revista, com a promessa de ser resgatado – vivo ou morto – nove meses depois, exatamente o tempo de uma gestação. Tadeu contou que a dieta e o modo de viver dos índios mudaram sua vida para sempre. Saiu da tribo com sessenta quilos a menos e uma percepção intuitiva absolutamente desenvolvida que nunca mais o abandonou. Hoje, o fotógrafo dos ianomâmis vive seus dias na Praia da Pipa, no Rio Grande do Norte, onde tem um restaurante tanto exótico quanto encantador: o Camamo.<br />
Diria que o velho repórter fotográfico se transformou numa espécie de pajé da culinária com uma alquimia toda própria que mistura cheiros, luzes e sabores. Tadeu Lubambo não serve pratos, antes serve poções onde se misturam sabores como o da carne de jacaré e doces aromas como os da canela e da goiaba, numa ambientação à luz de velas e uma decoração que mescla culturas tão diversas quanto as indígena, asiática e mexicana. A reportagem fotográfica de Tadeu Lubambo sobre a tribo recém descoberta ganhou o mundo, na década de 80, e acabou por atrair para ali uma leva de curiosos, pesquisadores e garimpeiros. O resultado, segundo me contou com profundo pesar, foi a contaminação, por doenças levadas pelo homem branco, e o extermínio de toda a tribo. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver lerá.</span></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/01/31/cronica-de-brasilia-xliv/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>Crônica de Brasília XLIII</title>
		<link>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/01/24/cronica-de-brasilia-xliii/</link>
		<comments>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/01/24/cronica-de-brasilia-xliii/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 24 Jan 2010 05:00:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Amneres</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Crônicas de Brasília]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.poesiaemtemporeal.com/?p=1100</guid>
		<description><![CDATA[Há uma crônica de amor inacabada e retomá-la é o sonho de todo cantor, vem-me o verso ao pensamento como uma fluida memória, uma canção universal comum a todos os membros do que seria uma eterna academia de poetas.
A poesia é uma canção universal e executar com perfeição sua sinfonia é o sonho de todo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div><span lang="PT-BR"><span style="color: #ffffff;">Há uma crônica de amor inacabada e retomá-la é o sonho de todo cantor, vem-me o verso ao pensamento como uma fluida memória, uma canção universal comum a todos os membros do que seria uma eterna academia de poetas.</span></span></div>
<div><span lang="PT-BR"><span style="color: #ffffff;">A poesia é uma canção universal e executar com perfeição sua sinfonia é o sonho de todo poeta. Fernando Mendes Vianna – que tive a graça de encontrar já quase no fim de sua passagem pela terra – tinha essa aura. Suas antenas estavam sintonizadas à fala íntima desse coro de anjos da poesia que a repassa aos seus seguidores pelas vozes dos elementos e pelo ato de amor entre as criaturas.</span></span></div>
<p><span lang="PT-BR"><span style="color: #ffffff;">E é ao amor, a sua força curativa, que quero, hoje, às vésperas do cinqüentenário de Brasília, render uma homenagem a todos os poetas que cantaram e cantam o amor, do alto dos mais de mil metros desse Planalto Central do Brasil. </span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">No rádio, Elis Regina canta a música &#8220;Aos Nossos Filhos&#8221;, de Ivan Lins, numa versão de tirar o fôlego. Lá fora, ladra o cão bebê que brinca solto no jardim e o sol da manhã faz brilhar o verde das plantas e nossos olhos ante a visão de tanta beleza.</span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">Bendito seja Deus que nos criou e a natureza, escrevo, enquanto assisto às pequenas nuvens dançarem no vasto azul do céu sobre mim. Os pássaros cantam, dão vôos rasantes sobre minha cabeça, daqui de onde os ouço e vejo recostada à rede de dormir. </span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">De repente, vem-me à mente o novo livro do poeta Reynaldo Jardim: Sangradas Escrituras. O livro foi lançado no Bar Brahma, na Comercial da 201 Sul. Com suas impressionantes mil e duzentas páginas, a antologia reúne poemas inéditos e antigos da vasta obra desse artista múltiplo, que também fez história no jornalismo brasileiro.</span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">Reynaldo Jardim foi o criador, nos anos 50, do suplemento dominical do Jornal do Brasil, Caderno de Domingo, e do Caderno B. O SDJB tornou-se o mais importante suplemento literário de poesia concreta do Brasil. Outra façanha impressionante de Reynaldo foi ter mantido uma coluna diária de poesia por dois anos - de 2004 a 2006 - no Caderno B daquele jornal.</span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">No dia do lançamento de Sangradas Escrituras, encontrei também o poeta Wilson Pereira, autor da premiada antologia Pedra de Minas, que reúne poemas de vários de seus livros. Mineiro de nascimento, Pereira chegou a Brasília nos anos 70 e há poucos meses, comemorou seus 60 anos com um recital no Feitiço Mineiro, do qual tive a honra de participar.</span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">Aliás, tanto o Feitiço Mineiro quanto o Bar Brahma são de Jorge Ferreira, outro mineiro chegado a Brasília nos anos 80, que tem mais quatro casas noturnas na cidade e vem fazendo a história de Brasília no ramo dos bares e da gastronomia. Seu maior feito, com certeza, é o Feitiço Mineiro que, há 20 anos, abre suas portas para a boa música brasileira, do samba ao chorinho, do rock ao jazz e ao baião. Em 2009, o Feitiço Mineiro comemorou seus vinte anos de existência com uma agenda de shows que reuniu importantes nomes da música, especialmente mineira, carioca e brasiliense. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.</span></p>
<p> </p>
<p></span></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/01/24/cronica-de-brasilia-xliii/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>Crônica de Brasília XLII</title>
		<link>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/01/17/cronica-de-brasilia-xlii/</link>
		<comments>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/01/17/cronica-de-brasilia-xlii/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 17 Jan 2010 05:00:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Amneres</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Crônicas de Brasília]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.poesiaemtemporeal.com/?p=1093</guid>
		<description><![CDATA[Foi durante uma entrevista de Clarice Lispector à TV Cultura, em 1977, que outra vez a vi: a alma humana desnuda, exposta num caderno secreto. Quem faz um diário o faz por querer ser ouvido, penso. É esse o segredo – essa voz interior gritando: por favor, alguém me ouça – que guardam todos os [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color: #ffffff;">Foi durante uma entrevista de Clarice Lispector à TV Cultura, em 1977, que outra vez a vi: a alma humana desnuda, exposta num caderno secreto. Quem faz um diário o faz por querer ser ouvido, penso. É esse o segredo – essa voz interior gritando: por favor, alguém me ouça – que guardam todos os diários escritos no mundo. Se eu pudesse escolher uma profissão seria essa: escafandrista de diários secretos, só para mergulhar no universo dessas vozes internas, e aproximar-me da alma de cada um desses autores.<br />
Pois bem, achei o diário há poucos dias, quando fui ao Centro Cultural Banco do Brasil visitar exposição em memória da escritora. Ele estava esquecido no sofá em que me sentei para assistir à entrevista de Clarice, doze anos depois de sua morte. Procurei o dono dos escritos por todas as salas da exposição. Não resisti e demorei-me mais numa sala em que abri várias gavetas dentro das quais vi fotos, troca de cartas e matérias de jornais retratando a autora ucraniano-carioca.<br />
Depois, continuei a busca e finalmente voltei à sala de vídeo, mas não havia ninguém. Sentei-me no sofá na penumbra e utilizando as luzes da projeção das imagens de Clarice, abri a primeira página do diário com o peito trêmulo de emoção. E é tomada pelo deslumbramento e pela emoção que vos canto nessas páginas o que li naquele caderno anônimo.<br />
Se eu conseguir traduzir-vos um singelo retrato do que ali estava exposto, terei cumprido a missão que tomei para mim de repassar ao próximo, de convosco repartir a benção de, mais uma vez, ter descoberto esse tesouro: a alma humana à imagem e semelhança de Deus, na plenitude de sua grandeza e solidão. Ditas essas palavras, eis o que vi escrito no diário:</span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">“Espero por meu amor, aquele a quem direi tudo, as palavras mais belas, os pensamentos mais puros. Aquele a quem mostrarei o abismo interior de onde subo à superfície em busca de ar, antes de novamente mergulhar no profundíssimo escuro.</span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">Dei para chorar, várias vezes ao dia, de uns tempos para cá. Isso aconteceu depois que aprendi a amar. Somente a língua dos anjos e o amor são capazes de desanuviar-me a alma. Ouço-a agora – a língua dos anjos – nos cantos dos pássaros, sentada ao banco de uma praça, em pleno Planalto Central. </span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">Ao meu redor, árvores, largas calçadas de cimento e lascas de madeira rústica. A minha frente, vê-se um vasto gramado onde se plantaram lúdicas esculturas. São casulos, segundo diz a placa. Ao longe, veem-se os arcos da Ponte JK e veem-se pássaros e um avião e outro avião seguindo o rumo do aeroporto, sobre ás águas plácidas do Paranoá.</span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">Um beija-flor completa a cópula das flores brancas sobre minha cabeça. E as maritacas verdes anunciam o fim da tarde e antecipam em bando as sombras lúgubres da noite próxima.  As luzes dos postes se acendem e os arcos da ponte resplandecem refletindo a luz elétrica, enquanto o poente escurece, cobrindo lentamente a cor crepuscular.</span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">Então vejo-o surgir - o meu amor - por entre as árvores e agradeço a Deus que o criou para encantar-me e merecer-lhe seja o meu milagre, enquanto vida houver, enquanto eu for&#8230;”</span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">De repente, assusto-me com o barulho de passos chegando à sala de vídeo. Instintivamente, fecho a caderno e o coloco no sofá ao meu lado, na mesma posição em que o achara. De olhos vidrados no vídeo, com o coração aos saltos, ouço os passos apressados aproximarem-se e mãos trêmulas agarrarem, arrebatarem o precioso manuscrito.<br />
Passado o susto, viro-me para ver quem é o autor, mas só lhe vejo o vulto misturar-se a outros vultos, na penumbra da sala de imagens. Brasília é uma cidade mágica, penso, ou será a vida em seu cotidiano milagre? De repente, no meio da tarde, numa sala aonde um DVD projeta os olhos tristes de Clarice, e repete incansavelmente a sua rara imagem, acontece o inaudito. E a gente bebe dessa fonte de onde jorra a vida, de onde brota a arte.<br />
Foi essa luz que captei nas folhas do diário: a alma humana solitária embevecida pelo amor. E tudo em mim enfim se iluminou, pois que o amor é bom e solidário, e hoje eu vivo de compartilhá-lo convosco e tanto mais o tenho tido, mais dividi-lo quero, enquanto eu for. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver lerá.</span></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/01/17/cronica-de-brasilia-xlii/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>Crônica de Brasília XLI</title>
		<link>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/01/10/cronica-de-brasilia-xli/</link>
		<comments>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/01/10/cronica-de-brasilia-xli/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 10 Jan 2010 05:00:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Amneres</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Crônicas de Brasília]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.poesiaemtemporeal.com/?p=1087</guid>
		<description><![CDATA[Saí do show de Célia Porto, na Livraria Fnac, no Parkshopping, com um nó na garganta, uma sensação de angústia, uma vontade de chorar, chorar, chorar. E ao mesmo tempo, me arrebatava uma esperança louca e a fé no amor, com seu poder de varrer o mal e transformar a vida. Foi o lançamento de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div><span lang="PT-BR"><span style="color: #ffffff;">Saí do show de Célia Porto, na Livraria Fnac, no Parkshopping, com um nó na garganta, uma sensação de angústia, uma vontade de chorar, chorar, chorar. E ao mesmo tempo, me arrebatava uma esperança louca e a fé no amor, com seu poder de varrer o mal e transformar a vida. Foi o lançamento de Célia Porto canta Renato Russo, uma reedição do histórico CD gravado pela cantora brasiliense em 1996, acompanhado de perto pelo próprio Renato.</span></span></div>
<p><span lang="PT-BR"><span style="color: #ffffff;">Renato Russo foi, sem dúvida, o cantor mais emblemático de nossa geração. Ele parecia retratar exatamente o que sentíamos, nós os filhos de Brasília que formávamos a juventude dos anos 80. Éramos um misto de deslumbramento, rebeldia, desilusão e inconseqüência, &#8220;éramos os filhos da revolução, geração coca-cola&#8221;.</span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">Confesso que fiquei emocionada com a versão de Célia para músicas como <em>Tempo Perdido</em>, Há <em>Tempos</em>, <em>Perfeição</em>, <em>Pais e Filhos</em>. Em <em>Monte Castelo</em>, a cantora é especialmente feliz ao interpretar o hino de amor à vida, de esperança e de fé deixado pelo ídolo do rock, ao unir numa canção inspirada o texto bíblico <em>Coríntios 13</em> ao soneto de Luís de Camões.</span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">Não foi por acaso que Renato Russo morreu aos 47 anos, vítima de AIDS, o mal do século passado que matou grandes artistas de nossa geração, assim como acontecera no século XIX com a tuberculose, que vitimou centenas de autores românticos. Os artistas são as antenas da raça, disse o poeta Erza Pound em seu ABC da Literatura. Para o bem e para o mal, penso comigo, ao ouvir outra vez, em casa, as 14 músicas gravadas por Célia Porto e sua banda. Os arranjos e a regência são do maestro Rênio Quintas. </span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">As letras de Renato Russo falam de solidão, da angústia existencial, da dor humana, da sede, da fome, do abandono, da deserção. Mas também falam de amor, de fé e de esperança. Hoje, 13 anos após sua morte, Renato ganha cada vez mais adeptos entre as novas gerações. Meus filhos Marquinho e Isadora que eram crianças quando o cantor morreu, simplesmente adoram o músico e, como eles, todos os de sua geração que têm hoje entre 16 e 23 anos. </span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">É que infelizmente o mundo não mudou. Pelo contrário, aumentou no homem a sensação de proximidade do fim dos tempos, como previu São João, apóstolo de Jesus Cristo, no Apocalipse. E as letras do líder da banda Legião Urbana são mais atuais do que nunca. É só acompanhar os noticiários do mundo. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.</span></p>
<p> </p>
<p></span></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/01/10/cronica-de-brasilia-xli/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>Crônica de Brasília XL</title>
		<link>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/01/03/cronica-de-brasilia-xl/</link>
		<comments>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/01/03/cronica-de-brasilia-xl/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 03 Jan 2010 05:00:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Amneres</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Crônicas de Brasília]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.poesiaemtemporeal.com/?p=1084</guid>
		<description><![CDATA[Quando cheguei a casa aquela noite, ouvi o som de um piano. Apurei o ouvido e reconheci: era a Ave Maria, de Franz Shubert, um hino dos anjos, captados pelas antenas do artista em homenagem à Virgem. A música clássica e o piano formam um par perfeito, penso enternecida pela imagem de meu filho, Marquinho, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div><span lang="PT-BR"><span style="color: #ffffff;">Quando cheguei a casa aquela noite, ouvi o som de um piano. Apurei o ouvido e reconheci: era a Ave Maria, de Franz Shubert, um hino dos anjos, captados pelas antenas do artista em homenagem à Virgem. A música clássica e o piano formam um par perfeito, penso enternecida pela imagem de meu filho, Marquinho, ao piano, tocando de memória, lindamente. É o sopro de seu pai, o sopro de Minas Gerais, quase um país onde a música clássica inda transita no cotidiano.</span></span></div>
<p><span lang="PT-BR"><span style="color: #ffffff;">Em Minas, ir ao conservatório de música é como freqüentar a academia ou a aula de inglês: quase todo mundo faz. Em Minas, quase todo mundo toca e canta, e com certeza todo mundo ama a música, do clássico ao jazz e ao Clube da Esquina. &#8220;Oh Minas Gerais/Quem te conhece não esquece jamais/Oh Minas Gerais&#8221;, cantarolo o refrão do hino mineiro, recostada ao sofá do quarto. Preparo-me para dormir, depois de uma noite e tanto. </span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">Fui ao Centro Cultural Banco do Brasil para a abertura de uma exposição sobre Clarice Lispector. A escritora carioca nasceu, em verdade, na Ucrânia, mas aos dois anos de idade, mudou-se para o Rio de Janeiro. Sorte nossa que pudemos ter o privilégio de lê-la em português. Os romances Água Viva, A Paixão segundo GH e A Hora da Estrela são obras primas da literatura universal. </span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">Lembro-me de ter ficado impressionada com a tristeza da escritora nas imagens projetadas na parede, com trechos de uma entrevista dada à TV Cultura, em 1977. No vídeo, ela conta que, aos treze anos, ficou tão impressionada com a leitura de O Lobo da Estepe, de Herman Hesse, que começou a escrever um conto que não terminava nunca, uma história sem fim. Já foi dito que a literatura é mesmo uma história infinita, penso, ao lembrar-me do que ouvi da escritora cearense Ana Miranda.</span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">Durante o lançamento de seu novo romance Yuxin, Ana Miranda referiu-se a essa história sem fim. &#8220;A literatura é como uma corrida em que os escritores, ao longo do tempo, passam o bastão uns aos outros, para contar essa história eterna&#8221;, afirmou a escritora. Ela contou que suas histórias são sopradas, muitas vezes, pelos espíritos desses escritores e personagens da história universal, como o poeta Gregório de Matos e o Padre Vieira. Ambos são personagens de seu romance de estréia: Boca do Inferno.</span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">Vou voltar à exposição e abrir todas as gavetas de Clarice, prometo para mim mesma, lembrando-me do impacto que tive ao ver, pela primeira vez, a exposição em seu formato completo, no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Lá eram centenas de gavetas donde se achavam relíquias de escritos e correspondências da escritora existencialista. Aliás, o Museu da Língua Portuguesa é uma obra de arte viva, em eterna construção. Viajar por suas imagens e vozes de grandes personagens da história nacional e navegar pela origem das palavras através das dezenas de terminais de computadores fez-me pensar no mito da Torre de Babel, quando segundo a Bíblia Sagrada, as línguas se misturaram.</span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">O português é assim, essa colcha de retalhos formada por verbetes de raízes tão diversas quanto o grego e o latim, os dialetos da África, as línguas indígenas, e até as línguas saxônicas e germânicas e até vestígios de idiomas árabes e asiáticos. &#8220;A língua é minha pátria/Mas eu não tenho pátria, eu tenho mátria e quero frátria&#8221;, ressoam em minha mente os belíssimos versos da canção <em>Língua,</em> de Caetano Veloso. E eu assino embaixo. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.</span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">*O Estado de Minas Gerais não possui um hino oficial. A música &#8220;Oh! Minas Gerais&#8221;, versão de &#8220;Viene Sul Mare&#8221; é vista, por muitos, como tal, ainda que nunca tenha sido oficializada pelo governo. A música é originária da valsa italiana &#8220;Viene Sul Mare&#8221;, com letra adaptada por José Duduca de Moraes.</span></p>
<p> </p>
<p></span></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.poesiaemtemporeal.com/2010/01/03/cronica-de-brasilia-xl/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
	</channel>
</rss>
