Não deixe de ler
IX
Livro: Belvedere (1971-2007)
Editora Sete Letras - COSAC NAIFY, 2007
Autor: Chacal
Vou convidar a família a passar uma semana de perna pro ar no Rio de Janeiro, nas férias de julho, penso ao fechar a última página de Belvedere, livro do poeta carioca Chacal, que reúne falas de 36 anos de poesia, entre os Anos 70 e o caos de agora.
O melhor do Rio é sua paisagem humana, o ar carioca, a felicidade que parece contaminar todos que estão por lá. É parte do DNA de quem ali nasce, e transmuta o imigrante em alguém mais livre, mais alegre, escrevo.
Quando acordei, hoje, com o canto dos pássaros, pensei: pássaros são anjos disfarçados. Chacal já percebeu isso, no poema ´”ópera de pássaros”: “…quando o fotógrafo diz olha o passarinho! Uma ave de asas oblongas sai de dentro do olho da câmera com uma paleta de cores e um embornal de pinceizinhos. sobrevoa a cabeça do fotógrafo sobrevoa a cabeça do fotógrafo e pousa sobre seu ombro esquerdo. de lá, pinta a cena. em suma, a fotografia é uma ópera de pássaros”.
E isso apesar do caos! Pensando bem, Chacal é o próprio caos, retalhando em lâminas de palavras o mundo real - a blasfêmia e o cancro que ele carrega. “new york, fratura exposta, flor obscena de henry miller, gothan city, babilonest de hélio oiticica, musa de woody allen, campo de centeio forever…”, diz uma estrofe do poema “new york”, esplêndido retrato da urbe contemporânea, que para Chacal, traduz a “verdadeira beleza americana”.
Em Belvedere, vê-se a aorta do Rio de Janeiro pulsando em cada verso, onde alma e urbe se confundem. Como a Paris dos Anos 20, exposta por Henry Miller em Trópico de Câncer, penso. “cidade” traduz a urbe em seu aspecto mais cruel: “babel bélica/ bando de gente a ir a lugar nenhum/ infinito véu de pulsações/ gases desejos dejetos/ palavras e balas/ perdidas perdidas perdidas”; já em “pão nosso”, o poeta se rende à beleza da cidade, com seus morros monumentos curvas urca corcovado pão de açúcar: “que camelo é esse que escova com as corcovas as cáries do céu?…que nume é esse com nome de doce e cara de cão”, pergunta-se Chacal a admirar-se.
Eu também me admiro de teu tanto admirar-se, caro poeta, e contigo convalesço por todos esses males que te afligem e me afligem afinal.
Belvedere é cítrico e é doce. Poesia visceral. Não deixe de ler.
VIII
Livro: Histórias da Arca da Velha (Editora Idéia, 2ª Edição, João Pessoa-PB, 2003)
Quadro: A Noiva (técnica mista)
Autora: Bella Santiago
No quarto, vejo o quadro de uma noiva antiga. Sua expressão é altiva, solene, mas definitivamente não é um ar de felicidade. Cumpre um ritual. Com o noivo, de terno verde, e a família em volta, posa para a foto centenária. Dois cisnes cinzas vêem a cena do ponto de vista do observador, a nos sugerir ser uma cerimônia no campo.
A pintora Bella Santiago recortou a foto, acrescentou-lhe personagens, pinçou a noiva da velha imagem e pintou-lhe a face rígida, enigmática como a Monalisa. Impossível decifrar-lhe os sentimentos. Tem o olhar perdido ao longe, como se sonhasse com algo distante. Como se enxergasse mais, a frente da bucólica cena retratada por Bella Santiago, essa artista múltipla e brilhante, recolhida da cena nacional em sua casa colorida na ensolarada Praia do Poço, no município de Cabedelo, na Paraíba.
Quando digo múltipla é porque Bella Santiago, além de artista plástica, é escritora, autora de livros de poesia e de um romance absolutamente encantador: “Histórias da Arca da Velha”, publicado em segunda edição em 2003. Seu romance tem fortes traços autobiográfics. Conta a saga de seus antepassados desde a chegada ao Novo Mundo até os dias atuais. Liga as histórias um manuscrito que a autora diz ter encontrado dentro de uma arca de uma tia velha, recém falecida.
Dona de um estilo ímpar, Bella Santiago tem uma narrativa fortemente influenciada pelo realismo mágico de autores universais como Jorge Luís Borges e Gabriel Garcia Marques. Mas é uma narrativa totalmente fincada às raízes brasileiras, o que lhe acrescenta um encanto todo particular. É prosa poética de qualidade superior. Não deixe de ler o livro, nem de visitar o site www.artebiz.com.br onde Bella Santiago tem seu portifólio.
VII
Livro: O filho eterno
Autor: Cristovão Tezza (3ª edição, Rio de Janeiro, Record, 2007)
Confesso que chorei, mais de uma vez, ao ler “O filho eterno”, de Cristovão Tezza; confesso que me angustiei, perdi o sono, fiquei paralisada, estatelada, ante a dureza de sua prosa metálica.
Compartilhei com “o pai” sua dor, sua vileza, sua crueza. Meu coração sangrou, perdeu o chão, ao compreender tão bem, ao irmanar-se até ao buraco negro de sua alma. Um homem e seus abismos. “O filho eterno” escancara as entranhas de uma humanidade avassaladora. A miséria humana contemplada em uma transparência quase insuportável.
É como reler “Crime e Castigo”, pensei, ao fechar a última página do livro. Mas em “O filho eterno” há uma doçura final, uma vertente redentora. O amor em estado puro é a centelha, refleti; tábua de salvação a nos livrar do naufrágio absoluto.
Até a próxima onda, pois que “O filho eterno” devasta o peito como um tsunami. É como olhar-se ao espelho e ver a nudez total. A natureza humana exposta, uma ferida aberta. Romance filosófico ou relato autobiográfico? Não importa, “O filho eterno” é indubitavelmente arte, literatura maior conduzida por mão de mestre. Não deixe de ler.
VI
Livro: 68
Autor: Luís Turiba (Inédito)
Em março de 1968, eu tinha 8 e ele 18, pensei ao começar a ler o poema longo em que Luís Turiba descreve de um só fôlego o rompimento radical de uma geração com o seu passado. Porque 1968 mudou o mundo, talvez tanto quanto a Revolução Francesa o fizera, dois séculos antes, ao abolir a servidão e os direitos feudais e proclamar os princípios universais de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”.
O ano de 1968 foi emblemático para o mundo que assistiu, extasiado e aterrorizado, a acontecimentos belos e terríveis, como a Primavera de Praga, a greve geral na França, conhecida como a “noite das barricadas”, o assassinato do líder negro Martin Luther king e o estouro da Guerra do Vietnã. Filósofos e historiadores vêem aquele momento da civilização como o mais revolucionário do século XX, porque em várias partes do mundo estouraram movimentos populares de resistência e protesto que superaram as barreiras étnicas, culturais, e de idade e de classe.
O ano de 1968 também mudou o Brasil que assistiu à intensificação dos conflitos com o endurecimento do Regime Militar. A morte do estudante Edson Luís pela repressão, a passeata dos cem mil e a decretação do AI-5 marcaram profundamente a alma dos brasileiros daquela geração.
“Um temporal colorido e cabeludo relampeja
meia oito anuncia-se: tempo bom, tempo ruim”
Descreve Turiba em seu poema-memória – um relato cru e apaixonado da juventude estudantil do Rio de Janeiro, naquela época, que desbundou geral, tomou porrada da polícia, cultuou a liberdade e sonhou a revolução. A geração hippie tupiniquim que amava igualmente os Beatles e Marx. “Minha primeira foice martelo guitarra tamborim”; “Minha opção pela luta armada, depois de um beijo na namorada”, revelam os versos do poema, traçando um retrato da alma do jovem carioca em 68. O importante, diz o poeta, era “experimentar para provar”, pois
“nas reuniões da revolução
a internacional comunista propagava
em paris é proibido proibir
no rio, lavamos nossas almas
com gasolina, cachaça e sangue”.
No ritmo alucinado em que se desenvolve o poema, a gente fecha os olhos e vê: a passeata dos cem mil, o enterro do estudante Edson Luís; a música dos festivais – Vandré, Caetano e Chico; a mágica do cinema – Godard e Brigite Bardot; o sonho americano – Bob Dylan e Beatles, cabelo longo e jeans. Colagens da memória viva desse poeta carioca-bric-a-brac-brasiliense Luís Turiba. “68” pede passagem (o livro está em fase de edição). Não deixe de ler.
V
Livro: Laranja Seleta
Autor: Nicolas Behr (Poemas, Editora Língua Geral, 2007, Rio de janeiro, 170 páginas)
“senhores turistas,
eu gostaria de frisar
mais uma vez
que nestes blocos de apartamentos
moram inclusive pessoas normais”
O inacreditável Nicolas Behr, imagine fazer poesia de uma cidade como Brasília. É como tirar leite de pedra, pensava eu, ao ouvi-lo pela primeira vez, no Minhocão, nos anos 80, na UnB.
Eu não sabia porque, mas alguma coisa nele me enternecia, fazia rir, gargalhar, chorar de rir.
“não, o poeta não pode subir
também não pode falar com o síndico
pelo interfone
muito menos ficar embaixo do bloco
o poeta pode se matar?
pode sim
mas sem sujar o piso e os pilotis”
Não é de chorar de rir? E ao mesmo tempo triste, e ao mesmo tempo trágico. Alguns poemas dão um nó na garganta, sabe, ouve só:
“eu abro a porta do quarto
tu chamas os outros
ele mostra a janela
nós pulamos do quinto andar
vós estais embaixo do bloco
eles não sabem o que fazer com os corpos”
E aí, o olho encharcou? Deixa escorrer. É assim mesmo, poesia dói na alma.
Pior é quando ela é dura, feroz, ouve só:
“na quinta-feira
da semana passada
esqueci minha boca
no armário
naquele dia
não mordi ninguém”
Entendes o que eu digo, amigo? Isso é Nicolas Behr, com seus poemas verbo-corrosivos.
“quem mandou fechar o gás?
será que você não viu
que ainda tô vivo?”
Eu sei, leitor, é muita dor, a gente quer mesmo é aproveitar a vida. Tá legal, vamos rir de novo?
“quando minha
veia poética estourou
ela virou pra mim
e disse: ah, deixa sangrar”
E pra você que está perguntando ainda se isso é poesia, eu te respondo com ele, Nicolas:
“o guardador de carros
no estacionamento do jumbo
é meu amigo
(isso é poesia: pergunta
um membro qualquer da
academia…)
só sei que o sorriso dele
é poesia. a gentileza dele
é poesia. o sofrimento dele
é poesia
o seu não é”
Convido-te a descobrir Nicolas Behr – a mais perfeita tradução de Brasília – através das páginas da antologia Laranja Seleta. Ali encontrarás poesia, amigo, e genuína, e da melhor.
IV
Livro: A Rosa Anfractuosa
Autor: Fernando Mendes Vianna (Poemas, 2004, Thesaurus Editora de Brasília Ltda)
“Toda curva é um muro”, poeta. “Melhor ficar mudo e surdo. E ouvir-te tocar”.
“Gaia e lúcida luz, maio” também “me embriaga”. Não tanto quanto teus versos: vagas de crepúsculos e metáforas.
“Manso manto, o crepúsculo sobre as chagas” alivia o coração. “Não engolir o veneno. Eis a única semente. Eis a equação”, ensinam tuas parábolas.
Prece à Morte é o poema acabado, beleza e dor inscritas em teu verbo, Fernando, meu querubim. E bebo em tuas palavras: “Pura mônada. Eterna fonte. Sim”.
“Só a dor cauteriza a dor”, ouço-te e então choro, sem escrúpulos, a dor de estares morto. “Porque tudo é metáfora e tudo é osso”, poeta do absoluto.
- Convido-te a ler “A Rosa Anfractuosa”, caro leitor, último livro publicado pelo poeta Fernando Mendes Vianna, ainda em vida. Pedra preciosa onde o “poema é epitáfio e lar”:
“Corremos atrás
do que não é nosso:
o gozo,
o gozo e seu mar.
Nosso, nosso
é o poço
de chorar”.
III
Livro: A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca
Autor: William Shakespeare
Site: dominiopublico.gov.br
“ Ser ou não ser… Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer… dormir… mais nada… Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se.”
Trecho de A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca, do incomparável William Shakespeare, autor dos autores na arte do teatro trágico-filosófico. O livro conta a história de Hamlet, príncipe da Dinamarca, cujo pai, o rei Hamlet, é assassinado pelo irmão, Cláudio, que o sucede no trono e se casa com a cunhada e mãe de Hamlet, a rainha Ofélia, um mês após os funerais do marido. Hamlet descobre toda a trama através do fantasma de seu pai que lhe aparece e exige vingança. A beleza plástica do texto do grande dramaturgo ao retratar a dor e a miséria humana, mais uma vez, encantou meu coração. O livro está disponível em tradução na Internet, no site dominiopublico.gov.br, onde se encontram também diversos clássicos da literatura brasileira e universal. Não deixe de visitar o site e ler on line pérolas da literatura nacional e mundial.
II
Livros: Do vento e suas vértebras aladas (Poemas, Editora Idéia, João Pessoa,
2005) e Desolado Lobo (Poemas, Editora Idéia, João Pessoa, 1996)
Autor: Hildeberto Barbosa Filho
“…Minha praia é longe,
para além das espumas
dos rochedos.
Entrego-me
ao degredo do deserto,
sigo a caravana
do tormento.
Eu sou o vento…”
“…Nenhum
Deus me inventou.
Eu venho, eu vou.
Eu sou
meu próprio invento.
Eu sou o vento…”
Trecho do livro e do poema de mesmo nome do paraibano Hildeberto Barbosa Filho, que sintetiza toda a beleza do estilo do poeta, com suas metáforas de pedra, facas afiadas de silêncio, solidão e dor. Parabéns, poeta, que o uivo do “Desolado Lobo” que em teu peito habita continue sangrando e encantando o coração do leitor.
I
Livro: O Cristal dos Verões (Poemas Escolhidos, Editora Escrituras, São Paulo, 2007)
Autor: Sérgio de Castro Pinto
camões/lampião; duas odes à borracha, as cigarras, no quadragésimo assalto, a fazenda guarany, a augusto dos anjos, lapidar, sobre o medo, noturno – são alguns dos belíssimos poemas do livro “O Cristal dos Verões”, uma antologia pessoal do poeta paraibano Sérgio de Castro Pinto, editado pela Escrituras, São Paulo/2007. Adorei o livro, são poemas fortes, áridos, belos, construídos com mão de mestre. Um presente para os amantes da poesia.











