Estou em paz, escrevo no guardanapo de papel, sentada à mesa do Bar do Nino, um antigo amigo de infância. Daqui de onde estou, posso ver toda a enseada que forma a baía da Praia do Cabo Branco. A noite é deliciosamente ventilada, nessa época do ano, é novembro e o verão já mostra toda sua exuberância na fragrância da maresia, nas cores do céu, no branco das espumas das mansas ondas do mar atlântico.
Pela primeira vez, desde que aqui cheguei, tenho febre de sol. O calor do dia à beira-mar ainda me queima as costas e o corpo todo arde e o coração exulta. O som ambiente é de Jorge Benjor cantando hits de antigos verões da década de 70. Aqui, nesse mesmo litoral do atlântico sul, vivi a dor e a delícia da adolescência, penso, distraída, recostada à cadeira do bar, o Pontal do Cabo, localizado ao final da baía, de onde se vê a Ponta do Cabo Branco avançando mar a dentro em direção à África.
Espero meu irmão, Joacil Filho, para juntos apreciarmos, mais uma vez, o petisco que é a especialidade da Casa - o Camarão à Romana - e, enquanto espero, vem-me à memória Gilza, minha querida amiga de infância, que se transformou em cunhada e mãe dos três filhos de meu irmão. Gilza, de saudosíssima memória, foi uma boa menina e uma boníssima mulher que partiu desse mundo há pouco mais de dois anos, vítima de um mal incurável que acabou por lhe tirar a vida, sem no entanto nunca ter lhe arrancado a força, a alegria, a fé em Deus e a esperança.
A última vez em que estivemos juntas foi no aniversário de 15 anos de minha filha Isadora, em Brasília. Foi a primeira vez, nesses trinta anos de Planalto Central, que consegui reunir toda a extensa família na cidade que adotei desde 79. Todos, sem exceção – papai, mamãe, os seis irmãos, seus cônjuges e filhos – comparecerem à festa que durou uma semana. Como não cabia tanta gente em minha casa, decidiu-se que todos ficariam juntos em um mesmo hotel, bem no centro da cidade, no Setor Hoteleiro Sul, e meus dois filhos, Isadora e Marquinho, praticamente se mudaram para lá para não perderem um minuto da farra e do aconchego da família.
Os filhos de Brasília, nascidos e criados nas terras vermelhas do Planalto Central, geralmente têm seus familiares e parentes morando em outras cidades e regiões do país. Por isso, ainda hoje, nas férias de fim de ano, a população da cidade cai pela metade. Os candangos – como gostamos de nos autodenominar, tanto os imigrantes, quanto os genuinamente brasilienses – pela própria geografia do lugar, a 1.200 quilômetros de qualquer litoral, economizam o ano inteiro, se necessário, para, ao final do ano, invadirem as praias alegres e coloridas de nosso imenso litoral. Especialmente no Nordeste – da Bahia ao Maranhão -, não há uma praia em que não se encontre um candango em férias. A chuvosa paisagem de Brasília fica melancólica, especialmente do reveillon ao carnaval, e os que lá permanecem nessa época, inventam toda sorte de atividade para que o tempo passe e venha março e a vida no DF retome seu ritmo.
Janeiro é com certeza o mês mais nostálgico de Brasília, pelo menos para minha alma nordestina, acostumada à alegria e ao calor dos verões à beira-mar dos trópicos. Em alguns anos, especialmente quando era repórter do Jornal de Brasília e do Jornal da Câmara dos Deputados, tive de ficar na cidade. Em períodos de eleições gerais então, que acontecem de quatro em quatro anos, os jornalísticas políticos, como eu, tinham de ficar na cidade para acompanhar, passo a passo, a apuração dos votos, a cerimônia de posse e a montagem dos novos governos. Foi assim em 1986, ano da instalação da Assembléia Nacional Constituinte. Foi assim também em 1989, quando, o brasileiro elegeu e menos de dois anos depois assistiu à deposição pelo Congresso Nacional de Fernando Collor de Mello, o primeiro presidente eleito por via direta, após 20 anos de ditadura militar.
Naqueles longínquos janeiros dos primeiros tempos de redemocratização, exercíamos o jornalismo com a alegria e a paixão próprias da juventude e da liberdade de expressão recem conquistada. Cobrir a posse de Fernando Collor às custas da derrota de Luiz Inácio Lula da Silva, em sua primeira campanha para presidente da República, fez muitos de nós chorar copiosamente no momento mesmo em que escrevíamos as matérias, encharcando os blocos de papel e borrando de dor e sal o resultado irrefutável da eleição em segundo turno: Collor 49,94% X Lula 44,23%. “Lula lá, brilha uma estrela, Lulalá, nasce a esperança…”, ressoam em minha memória os versos do histórico slogan da primeira campanha de Lula, que ainda esperaria treze anos para realizar o sonho de ser o primeiro operário a ser eleito presidente do Brasil. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.
29 novembro , 2009 | Autora Amneres | Nenhum Comentario »