Crônica de Brasília XLI

Saí do show de Célia Porto, na Livraria Fnac, no Parkshopping, com um nó na garganta, uma sensação de angústia, uma vontade de chorar, chorar, chorar. E ao mesmo tempo, me arrebatava uma esperança louca e a fé no amor, com seu poder de varrer o mal e transformar a vida. Foi o lançamento de Célia Porto canta Renato Russo, uma reedição do histórico CD gravado pela cantora brasiliense em 1996, acompanhado de perto pelo próprio Renato.

Renato Russo foi, sem dúvida, o cantor mais emblemático de nossa geração. Ele parecia retratar exatamente o que sentíamos, nós os filhos de Brasília que formávamos a juventude dos anos 80. Éramos um misto de deslumbramento, rebeldia, desilusão e inconseqüência, “éramos os filhos da revolução, geração coca-cola”.

Confesso que fiquei emocionada com a versão de Célia para músicas como Tempo Perdido, Há Tempos, Perfeição, Pais e Filhos. Em Monte Castelo, a cantora é especialmente feliz ao interpretar o hino de amor à vida, de esperança e de fé deixado pelo ídolo do rock, ao unir numa canção inspirada o texto bíblico Coríntios 13 ao soneto de Luís de Camões.

Não foi por acaso que Renato Russo morreu aos 47 anos, vítima de AIDS, o mal do século passado que matou grandes artistas de nossa geração, assim como acontecera no século XIX com a tuberculose, que vitimou centenas de autores românticos. Os artistas são as antenas da raça, disse o poeta Erza Pound em seu ABC da Literatura. Para o bem e para o mal, penso comigo, ao ouvir outra vez, em casa, as 14 músicas gravadas por Célia Porto e sua banda. Os arranjos e a regência são do maestro Rênio Quintas.

As letras de Renato Russo falam de solidão, da angústia existencial, da dor humana, da sede, da fome, do abandono, da deserção. Mas também falam de amor, de fé e de esperança. Hoje, 13 anos após sua morte, Renato ganha cada vez mais adeptos entre as novas gerações. Meus filhos Marquinho e Isadora que eram crianças quando o cantor morreu, simplesmente adoram o músico e, como eles, todos os de sua geração que têm hoje entre 16 e 23 anos.

É que infelizmente o mundo não mudou. Pelo contrário, aumentou no homem a sensação de proximidade do fim dos tempos, como previu São João, apóstolo de Jesus Cristo, no Apocalipse. E as letras do líder da banda Legião Urbana são mais atuais do que nunca. É só acompanhar os noticiários do mundo. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.

 

10 janeiro , 2010 | Autora Amneres | 1 Comment »

Crônica de Brasília XL

Quando cheguei a casa aquela noite, ouvi o som de um piano. Apurei o ouvido e reconheci: era a Ave Maria, de Franz Shubert, um hino dos anjos, captados pelas antenas do artista em homenagem à Virgem. A música clássica e o piano formam um par perfeito, penso enternecida pela imagem de meu filho, Marquinho, ao piano, tocando de memória, lindamente. É o sopro de seu pai, o sopro de Minas Gerais, quase um país onde a música clássica inda transita no cotidiano.

Em Minas, ir ao conservatório de música é como freqüentar a academia ou a aula de inglês: quase todo mundo faz. Em Minas, quase todo mundo toca e canta, e com certeza todo mundo ama a música, do clássico ao jazz e ao Clube da Esquina. “Oh Minas Gerais/Quem te conhece não esquece jamais/Oh Minas Gerais”, cantarolo o refrão do hino mineiro, recostada ao sofá do quarto. Preparo-me para dormir, depois de uma noite e tanto.

Fui ao Centro Cultural Banco do Brasil para a abertura de uma exposição sobre Clarice Lispector. A escritora carioca nasceu, em verdade, na Ucrânia, mas aos dois anos de idade, mudou-se para o Rio de Janeiro. Sorte nossa que pudemos ter o privilégio de lê-la em português. Os romances Água Viva, A Paixão segundo GH e A Hora da Estrela são obras primas da literatura universal.

Lembro-me de ter ficado impressionada com a tristeza da escritora nas imagens projetadas na parede, com trechos de uma entrevista dada à TV Cultura, em 1977. No vídeo, ela conta que, aos treze anos, ficou tão impressionada com a leitura de O Lobo da Estepe, de Herman Hesse, que começou a escrever um conto que não terminava nunca, uma história sem fim. Já foi dito que a literatura é mesmo uma história infinita, penso, ao lembrar-me do que ouvi da escritora cearense Ana Miranda.

Durante o lançamento de seu novo romance Yuxin, Ana Miranda referiu-se a essa história sem fim. “A literatura é como uma corrida em que os escritores, ao longo do tempo, passam o bastão uns aos outros, para contar essa história eterna”, afirmou a escritora. Ela contou que suas histórias são sopradas, muitas vezes, pelos espíritos desses escritores e personagens da história universal, como o poeta Gregório de Matos e o Padre Vieira. Ambos são personagens de seu romance de estréia: Boca do Inferno.

Vou voltar à exposição e abrir todas as gavetas de Clarice, prometo para mim mesma, lembrando-me do impacto que tive ao ver, pela primeira vez, a exposição em seu formato completo, no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Lá eram centenas de gavetas donde se achavam relíquias de escritos e correspondências da escritora existencialista. Aliás, o Museu da Língua Portuguesa é uma obra de arte viva, em eterna construção. Viajar por suas imagens e vozes de grandes personagens da história nacional e navegar pela origem das palavras através das dezenas de terminais de computadores fez-me pensar no mito da Torre de Babel, quando segundo a Bíblia Sagrada, as línguas se misturaram.

O português é assim, essa colcha de retalhos formada por verbetes de raízes tão diversas quanto o grego e o latim, os dialetos da África, as línguas indígenas, e até as línguas saxônicas e germânicas e até vestígios de idiomas árabes e asiáticos. “A língua é minha pátria/Mas eu não tenho pátria, eu tenho mátria e quero frátria”, ressoam em minha mente os belíssimos versos da canção Língua, de Caetano Veloso. E eu assino embaixo. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.

*O Estado de Minas Gerais não possui um hino oficial. A música “Oh! Minas Gerais”, versão de “Viene Sul Mare” é vista, por muitos, como tal, ainda que nunca tenha sido oficializada pelo governo. A música é originária da valsa italiana “Viene Sul Mare”, com letra adaptada por José Duduca de Moraes.

 

3 janeiro , 2010 | Autora Amneres | Nenhum Comentario »

Crônica de Brasília XXXIX

Só Hércules para conseguir abrir essa garrafa, penso comigo e seguro a gargalhada, enquanto faço força para abrir o frasco de água mineral recém comprado. Quanto exagero, digo para mim mesma, sentada à mesa da padaria perto de casa. Espero o sol baixar para seguir a caminhada. Em Brasília, já passa das dezessete horas no horário de verão. O tempo é um misto de chuva e sol, típico de dezembro, o último mês do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2009.

Há exatos 30 anos, pisei pela primeira vez o solo árido do Planalto Central. Isso aconteceu ainda ontem, repito o jargão dos antigos, e agora, eu e Brasília entramos definitivamente na meia idade. Cinquentenárias como árvores frondosas, penso, olhando os sete ipês enfileirados na paisagem em frente a mim. O sol se esconde nas nuvens refrescando o tempo abafado. Levanto-me e sigo em direção à calçada do outro lado do asfalto. Os pássaros cantam nos jardins e a vida encanta no sopro do vento envergando as hastes dos bambus mais altos, no doce murmúrio dos capins

Caminhar no Lago Norte em direção ao Clube do Congresso é um percurso que gosto de repetir. Na medida em que se avança em direção ao Parque das Garças, diminuem os roncos dos carros e aumentam as vozes das maritacas e dos bem-te-vis. As mangueiras do canteiro central cresceram junto com meus filhos. São árvores jovens, de no máximo 20 anos. Quando, há 18 anos, mudei-me para a Península, elas nem faziam sombras, divago.

Naquela época, o Lago Norte era um bairro meio deserto, afastado da cidade. E como não havia outro lazer, nossa diversão predileta eram as festas e os inúmeros churrascos. Foi numa dessas festas, em casa de minha amiga Evelin Penna que presenciei uma das cenas mais esdrúxulas de minha vida. Foi no começo da década de 90. A festa era performática, bem ao gosto da época. Havia malabaristas, engolidores de fogo, cantores de ópera e outros personagens misturados a atores, jornalistas, escritores, e a todos nós, amigos de fé e autodenominados livres pensadores, vivendo a utopia de uma cidade em construção.

A festa era um verdadeiro happenning, a cara de Brasília e da querida Evelin. Pois bem, foi numa dessas perfomances, ansiosamente aguardadas especialmente pelas mulheres, que aconteceu a desdita. Sentamo-nos espalhadas nas almofadas e tapetes persas da belíssima sala da casa, toda construída com materiais de demolição, para assistir – ao vivo e a cores – à apresentação de um ator, em um nu frontal, conforme se espalhara a boca pequena durante a festa.

De repente, apagou-se a luz e fez-se silêncio, ia começar o espetáculo. Foi quando um foco de luz azul iluminou o palco encoberto pela névoa que aconteceu o inesperado: o jovem ator, com o corpo todo pintado e nu como veio ao mundo, surgiu no palco, rente à parede, com o pelo todo arrepiado e tiritando de frio. Era julho em Brasília e a noite especialmente gelada daquele dia fatídico encolheu a carne e o sexo frontal do ator performático. Não deu outra: a gargalhada foi geral, cruel, incontrolável.

Confesso que também me ri, mas ao mesmo tempo compadeci-me ante a escultura viva daquele estranho David. Conta a lenda que o escultor renascentista italiano Michelangelo, ao terminar seu David, todo lapidado em um bloco único de mármore de carrara, extasiado diante da própria criação, teria dito: Porque não falas? Tive a felicidade de vê-lo exposto na Galeria dell’Accademia, em Florença e quase repeti o gesto do artista, tamanha a perfeição da gigantesca escultura de mais de cinco metros de altura. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.

27 dezembro , 2009 | Autora Amneres | Nenhum Comentario »

Crônica de Brasília XXXVIII

A capa do livro de espanhol sobre o qual escrevo tem o desenho de uma torre que parece a Torre de Babel. “Só que aqui todos se entendem”, deve ser essa a mensagem que se tentou passar nesse estranho marketing. E arriscado, penso, pois tenta negar um mito e, no entanto, estou certa de que dez entre dez pessoas que olharem a imagem vão pensar em Babel e no castigo de Deus aos homens, pelo ato de tentarem construir uma ponte de pedra em direção ao céu. E foi então que aconteceu a separação das línguas.

A Torre de Babel é uma obra inacabada, vem-me a imagem ao pensamento. E até hoje a obsessão do homem é tentar ser Deus. É só a gente pensar no atual estágio das pesquisas genéticas, apontando para a possibilidade da clonagem humana. O próximo passo é assustadoramente real: quem será o primeiro de nós a realizar a experiência de clonar a vida humana?

Quem nascer dali trará a alma eterna dentro de si? Fazer um nosso igual nos livrará da morte ou, ao contrário, duplicará nossos medos? Entrego-me ao sombrio pensamento, quando, de repente, meus olhos avistam a silhueta da Catedral de Brasília, semi-encoberta por um plástico branco a esconder-lhe a beleza. Não raro, a igreja passa por reformas desse tipo, mas agora ela se prepara para a festa dos 50 anos da cidade. Uma senhora, como eu, distraio o pensamento imaginando que uma multidão virá comemorar o cinqüentenário bem aqui, em plena Esplanada dos Ministérios.

É incrível a largura da Esplanada. Por maior que seja a concentração de pessoas, há sempre espaço livre para se caminhar. Olho os gramados imensos em direção ao Congresso Nacional e pela memória passam imagens do Badernaço, do cortejo fúnebre de Tancredo Neves, do comício das Diretas Já, da posse de Lula em sua primeira eleição. Caminhar em meio às gentes nos gramados da Esplanada dos Ministérios é uma experiência incrível. Por mais gente que tenha, a sensação é sempre de eternidade, de imensidão. E se a gente se deita no gramado e olha para cima, então, é uma viagem. O peito se enche de esperança diante da proximidade do céu do Planalto Central.

“Deste planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”, ecoam em meus ouvidos a frase mítica do presidente Juscelino Kubitschek, ao pisar, pela primeira vez, em dois de outubro de 1956, o solo do Planalto Central, exatamente no lugar onde Brasília seria edificada.

A saga dos candangos que aqui vieram edificar o Eldorado já começa a ser cantada pelos seus artistas e poetas. O poeta Fernando Mendes Vianna nos deixou um poema magistral sobre essa história, publicado na antologia Marinheiro do Tempo. O cineasta Vladimir Carvalho também nos fala dos candangos operários que se sacrificaram e até perderam a vida na duríssima tarefa de erguer, em um tempo insano, os palácios e monumentos que se tornaram símbolos da capital administrativa do Brasil, desde 21 de abril de 1960. O filme de Vladimir que documenta essa saga, antes que eu me esqueça se chama “Velhos Companheiros de Guerra”.

Meu contemporâneo Renato Russo cantou como ninguém a juventude de Brasília que veio para cá ou aqui nasceu naquela primeira década, e viveu a adolescência nos anos 70 e 80. Letras suas como Faroeste Caboclo, Tempo Perdido, Pais e Filhos e Eduardo e Mônica retratam com profundidade a alma dessa geração que cresceu com Brasília, com toda a carga de angústia, descoberta e aventura características de uma sociedade em formação.

Hoje, aos 50 anos, a cidade caminha a passos largos para os três milhões de habitantes e já apresenta todos os gravíssimos problemas de uma metrópole urbana. No entanto, se a gente olhar bem nos olhos dos que aqui vivem desde os primórdios da cidade, e também dos que aqui nasceram – os brasilenses ou candangos, como gostam de se autodenominar, tomando emprestado o apelido dado aos operários construtores -, veremos que a maioria ainda conserva na alma o sonho do eldorado e nos olhos o sopro da esperança. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.

20 dezembro , 2009 | Autora Amneres | Nenhum Comentario »

Crônica de Brasília XXXVII

Saí de casa, um dia desses, para caminhar, com o zumbido das cigarras embalando-me o ouvido. Depois foram os pássaros, as maritacas, os bem-te-vis e as andorinhas de longos rabos. E então foram os carros, quando entrei no passeio ao longo da pista, e na padaria, os sons das falas das famílias desejando seus bons dias.

A padaria é uma festa mansa anunciando o domingo, o dia de descanso, quando Deus deu por criado tudo. “Deus disse: Faça-se a luz! E a luz foi feita”, diz o versículo 3 do capítulo I do Gênesis. Que bela e inspiradora frase a conduzir a mão do criador regendo o mundo, penso.

Aprendi a gostar da preguiça e da nostalgia dos domingos. Mesmo quando é festa, esse dia sempre está se despedindo. Especialmente em Brasília, escrevo, sentada no banco da Calçada dos Ipês – assim eu nomeei esse pedaço de mundo. Na verdade, um canteiro de sete ipês enfileirados e, debaixo deles, um calçadão largo em que se fincaram dois bancos. Lembro-me de que quando me mudei para Brasília, em 1979, o único dia a me causar incômodo era o domingo, quando tudo dormia e me invadia como que um banzo da antiga moradia à beira-mar do oceano atlântico.

Mil e duzentos quilômetros me separavam do mar. E do amor que lá deixara, então, corriam muito mais quilômetros. E no domingo, doía em mim cada milímetro de distância a nos separar. De um lado, eu e a solidão dos domingos do Planalto; do outro, o amor e o mar – interrompi a frase, cortada pelo barulho estridente de um alarme de carro. Ai de mim, naqueles idos domingos, se não fossem a cinemateca da Cultura Inglesa, o Concerto Cabeças, o Beirute e o Gilberto Salomão, dou um suspiro e me levanto.

Foi assim que aprendi a espantar, naquela inesquecível década de 80, a solidão a assombrar-me os dias de domingo. A sensação passou, de certa forma, depois que aprendi a rezar. Mas hoje, trinta anos depois, confesso a mesma saudade do meu amor e do mar. Mas isto já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.

13 dezembro , 2009 | Autora Amneres | Nenhum Comentario »

Crônica de Brasília XXXVI

Olhei o relógio: 23:23. Ultimamente é assim, vejo esses números coincidentes várias vezes ao dia. Tem alguma coisa de mágico nisso, penso, embora minha filha caçula tenha me garantido tratar-se de coisa banal, que acontece a toda hora, com todo mundo. Mas comigo não, nunca acontecera antes. Será porque eu nunca prestara atenção ao relógio? Será mera coincidência ou como dizem os místicos, coincidências não existem e tudo está escrito, como o destino traçado nas linhas de nossas mãos?
A leitura das mãos, as velas, os búzios, as cartas, os tarôs, os astros será falam dos rumos que tomarão nossa aventura pelo planeta, ou tudo não passa de conjectura, alimentada pelo desejo humano de desvendar o futuro? A morte é o porto final, disso todo homem sabe. O que ele não sabe e tenta desesperadamente descobrir é o que existe além do ponto em que a carne enrijece. Será que o espírito livre do corpo se reconhece, será que reconhece o outro, ou a consciência morre junto com o corpo?
O mais convicto dos ateus sonha com o dia em que um sinal de Deus venha lhe apontar o engodo da certeza em que vivera até então. Todo ser humano deseja testemunhar um milagre e no entanto os milagres acontecem a todo instante, sem que quase ninguém os note. A vida é um milagre que se renova a cada instante e o milagre do amor é a prova maior da benevolência de Deus, penso.
Lembro-me de que, pelo menos duas vezes ao longo de minha vida, pude compreender a grandeza desse sentimento, em toda sua plenitude. Foi nas duas ocasiões em que peguei nos braços meus filhos, Marco Antonio e Isadora, no instante mesmo em que vieram ao mundo. A sensação é de deslumbramento, enlevo, felicidade. Isso é testemunhar um milagre, penso, e agradeço aos céus pela benção da maternidade.
Talvez seja esse o principal ponto de ligação entre as mulheres em geral e Maria Virgem. Aquele homem-Deus era seu filho amado, nascido de seu ventre, ainda que fruto de um milagre. E não deixa de ser um milagre o episódio que me trouxe a devoção à Nossa Senhora quando, em sonhos, apareceu-me em seu leito de morte, vovó Amneres, com quem tenho a graça de dividir o nome. Esse nome de princesa, cujo destino trágico e triste – descrita na ópera Aida, do italiano Giuseppe Verdi - só há muito pouco tempo achei por bem conhecer.
No sonho, vovó Amneres presenteou-me com uma medalha de ouro que se abria em duas partes, contendo, de um lado, a foto de uma linda mulher e, de outro, um símbolo para mim desconhecido. Ao despedir-se, segundos antes de sua morte, disse-me Amneres, apontando-me o medalhão: - minha neta, essa mulher é Nossa Senhora, tudo o que precisares roga-lhe e ela te concederá. Do outro lado, tens o símbolo da poesia, da qual nunca deverás afastar-te. Lembro-me de ter acordado chorando, tomada pela emoção. Rezei pela alma de vovó e, desde então, a poesia e a devoção à Imaculada consolidaram-se definitivamente em meu coração.
Anos depois, testemunhei um milagre a partir de uma imagem de computador de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil e da cidade que adotei há 30 anos. Aliás, a Catedral de Brasília, onde a imagem da Virgem Negra é venerada, desde a fundação da cidade, é um dos mais belos projetos de arquitetura que tive a felicidade de conhecer. A beleza dos seus vitrais coloridos, pintados pela artista plástica Marianne Peretti; a transparência de seu teto, deixando ver todo o esplendor do céu do Planalto; a leveza impressionante dos três anjos do escultor Alfredo Ceschiatti, suspensos no ar por cabos de aço; a Via Sacra, pintada por Di Cavalcanti; e o pilar com passagens da vida de Maria, de Athos Bulcão deslumbram o olhar, alimentam o espírito, aquecem o coração.
É como se fé e arte tivessem se dado as mãos. E, de fato, o prédio da Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida, na Esplanada dos Ministérios, tem o formato de duas mãos postas, em pose de oração. E antes que eu me esqueça, vovó Amneres disse-me, um dia, em seu engenho, onde passei boa parte de minhas férias de infância, que eu nunca quisesse conhecer a trajetória da princesa Amnéris, para que seu triste destino não influenciasse minha história de vida. Esses dias, no entanto, decidi que finalmente já estava madura o suficiente para não me deixar impressionar e fui buscar a história e o roteiro da ópera, da qual, até então, só ouvira as canções. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.

* A Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida foi projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer e sua pedra fundamental, lançada em 12 de setembro de 1958. Teve sua estrutura pronta em 1960, onde apareciam somente a área circular de 70 metros de diâmetro, da qual se elevam 16 colunas de concreto (pilares de secção parabólica), que pesam 90 toneladas. O engenheiro Joaquim Cardozo foi o responsável pelo cálculo estrutural que permitiu a construção da catedral. Em 31 de maio de 1970, foi inaugurada de fato, já nesta data com os vidros externos transparentes. Na praça de acesso ao templo, encontram-se quatro esculturas em bronze com três metros de altura, representando os evangelistas; as esculturas foram realizadas com o auxílio do escultor Dante Croce, em 1968. No interior da nave, estão as esculturas de três anjos, suspensos por cabos de aço, do artista Alfredo Ceschiatti, com a colaboração de Dante Croce em 1970. O batistério em forma ovóide teve em suas paredes o painel em lajotas cerâmicas pintadas em 1977 por Athos Bulcão. O campanário composto por quatro grandes sinos, doado pela Espanha, completa o conjunto arquitetônico. A cobertura da nave tem um vitral composto por 16 peças em fibra de vidro em tons de azul, verde, branco e marrom inseridas entre os pilares de concreto. Cada peça insere-se em triângulos com 10m de base e 30m de altura e foram pintados por Marianne Peretti em 1990. O altar foi doado pelo papa Paulo VI e a imagem da padroeira Nossa Senhora Aparecida é uma réplica da original que se encontra em Aparecida – São Paulo. A Via Sacra é uma obra de Di Cavalcanti. Na entrada da catedral encontra-se um pilar com passagens da vida de Maria, mãe de Jesus, pintados por Athos Bulcão. (www.flickr.com)

6 dezembro , 2009 | Autora Amneres | Nenhum Comentario »

Crônica de Brasília XXXV

 

Estou em paz, escrevo no guardanapo de papel, sentada à mesa do Bar do Nino, um antigo amigo de infância. Daqui de onde estou, posso ver toda a enseada que forma a baía da Praia do Cabo Branco. A noite é deliciosamente ventilada, nessa época do ano, é novembro e o verão já mostra toda sua exuberância na fragrância da maresia, nas cores do céu, no branco das espumas das mansas ondas do mar atlântico.

Pela primeira vez, desde que aqui cheguei, tenho febre de sol. O calor do dia à beira-mar ainda me queima as costas e o corpo todo arde e o coração exulta. O som ambiente é de Jorge Benjor cantando hits de antigos verões da década de 70. Aqui, nesse mesmo litoral do atlântico sul, vivi a dor e a delícia da adolescência, penso, distraída, recostada à cadeira do bar, o Pontal do Cabo, localizado ao final da baía, de onde se vê a Ponta do Cabo Branco avançando mar a dentro em direção à África.

Espero meu irmão, Joacil Filho, para juntos apreciarmos, mais uma vez, o petisco que é a especialidade da Casa - o Camarão à Romana - e, enquanto espero, vem-me à memória Gilza, minha querida amiga de infância, que se transformou em cunhada e mãe dos três filhos de meu irmão. Gilza, de saudosíssima memória, foi uma boa menina e uma boníssima mulher que partiu desse mundo há pouco mais de dois anos, vítima de um mal incurável que acabou por lhe tirar a vida, sem no entanto nunca ter lhe arrancado a força, a alegria, a fé em Deus e a esperança.

A última vez em que estivemos juntas foi no aniversário de 15 anos de minha filha Isadora, em Brasília. Foi a primeira vez, nesses trinta anos de Planalto Central, que consegui reunir toda a extensa família na cidade que adotei desde 79. Todos, sem exceção – papai, mamãe, os seis irmãos, seus cônjuges e filhos – comparecerem à festa que durou uma semana. Como não cabia tanta gente em minha casa, decidiu-se que todos ficariam juntos em um mesmo hotel, bem no centro da cidade, no Setor Hoteleiro Sul, e meus dois filhos, Isadora e Marquinho, praticamente se mudaram para lá para não perderem um minuto da farra e do aconchego da família.

Os filhos de Brasília, nascidos e criados nas terras vermelhas do Planalto Central, geralmente têm seus familiares e parentes morando em outras cidades e regiões do país. Por isso, ainda hoje, nas férias de fim de ano, a população da cidade cai pela metade. Os candangos – como gostamos de nos autodenominar, tanto os imigrantes, quanto os genuinamente brasilienses – pela própria geografia do lugar, a 1.200 quilômetros de qualquer litoral, economizam o ano inteiro, se necessário, para, ao final do ano, invadirem as praias alegres e coloridas de nosso imenso litoral. Especialmente no Nordeste – da Bahia ao Maranhão -, não há uma praia em que não se encontre um candango em férias. A chuvosa paisagem de Brasília fica melancólica, especialmente do reveillon ao carnaval, e os que lá permanecem nessa época, inventam toda sorte de atividade para que o tempo passe e venha março e a vida no DF retome seu ritmo.

Janeiro é com certeza o mês mais nostálgico de Brasília, pelo menos para minha alma nordestina, acostumada à alegria e ao calor dos verões à beira-mar dos trópicos. Em alguns anos, especialmente quando era repórter do Jornal de Brasília e do Jornal da Câmara dos Deputados, tive de ficar na cidade. Em períodos de eleições gerais então, que acontecem de quatro em quatro anos, os jornalísticas políticos, como eu, tinham de ficar na cidade para acompanhar, passo a passo, a apuração dos votos, a cerimônia de posse e a montagem dos novos governos. Foi assim em 1986, ano da instalação da Assembléia Nacional Constituinte.  Foi assim também em 1989, quando, o brasileiro elegeu e menos de dois anos depois assistiu à deposição pelo Congresso Nacional de Fernando Collor de Mello, o primeiro presidente eleito por via direta, após 20 anos de ditadura militar.

Naqueles longínquos janeiros dos primeiros tempos de redemocratização, exercíamos o jornalismo com a alegria e a paixão próprias da juventude e da liberdade de expressão recem conquistada. Cobrir a posse de Fernando Collor às custas da derrota de Luiz Inácio Lula da Silva, em sua primeira campanha para presidente da República, fez muitos de nós chorar copiosamente no momento mesmo em que escrevíamos as matérias, encharcando os blocos de papel e borrando de dor e sal o resultado irrefutável da eleição em segundo turno: Collor 49,94% X Lula 44,23%. “Lula lá, brilha uma estrela, Lulalá, nasce a esperança…”, ressoam em minha memória os versos do histórico slogan da primeira campanha de Lula, que ainda esperaria treze anos para realizar o sonho de ser o primeiro operário a ser eleito presidente do Brasil. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.

29 novembro , 2009 | Autora Amneres | Nenhum Comentario »

Crônica de Brasília XXXIV

Andava distraída à beira-mar do Cabo Branco quando, de repente, vi no chão a sombra de um enorme pássaro. Olhei para o alto e aompanhei-lhe o vôo plácido até vê-lo sumir num ponto qualquer entre a areia branca e o céu. Era alvo, límpido, branco como a ave símbolo do Espirito Santo, o Consolador, que ao lado de Deu Pais e de Jesus Cristo forma o triplo mistério da Santíssima Trindade.

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, recito o texto bíblico, sentindo o doce prazer de andar descalça sobre a areia úmida da maré seca. Rezar o terço à beira-mar provoca em mim tamanho encanto que a alma cheaga a levitar, escrevo, horas mais tarde, sentada dentro de um avião em direção a Fortaleza, último trecho da viagem, antes de voltar às terras altas do Planalto.

Brasília e o Nordeste têm tanta coisa em comum, vem-me à memória o súbito pensamento. O Cerrado é irmão da Caatinga e a sensação de plenitude diante da exuberância do mar atlântico também está contida na proximidade do céu do Planalto Central. Sob o céu de Brasília, especialmente na estação seca, quando a luz crepuscular pinta de vermelho o horizonte e enrubesce o peito de emoção, a gente se sente assim, mais próxima de Deus e a gente emudece ante o milagre da criação.

Emigrar da terra natal muda definitivamente nossa forma de estar no mundo. Quando parti, há 30 anos, deixei para trás parte do que fora até então. Hoje, no entanto, entendo que, na verdade, para onde vou, carrego nas entranhas as origens, as paisagens e os amores verdadeiros que me guiaram os passos até aqui, escrevo, com o olhar perdido na paisagem vista da janela. Olho-a e já não distingo onde termina o mar e começa o céu vistos aqui do alto.

Rodrigo, meu irmão caçula, quando tinha de escolher entre dois caminhos que desejava seguir com igual ardor, chegava a chorar e confessava: - Eu quero ir, mas quero ficar. E é exatamente assim que eu me sinto hoje em relação a tudo o que amo tanto aqui quanto lá. “Alma minha gentil que te partiste Tão cedo desta vida descontente, Descansa lá no céu eternamente E viva eu cá na terra sermpre triste…”, ressoam em minha memória os versos tristíssimos do poeta português Luís de Camões, ao cantar a perda de sua amada. Mas hoje sei que o amor, antes que perda, é soma e tanto mais se ama mais se dá. Por isso, agora, vinte anos depois de sua morte, Rodrigo continua a ser luz e fonte a inspirar-me a eternamente mais e mais amar. Mas isso já é uma história para outra crônica. Quem viver, lerá.

22 novembro , 2009 | Autora Amneres | Nenhum Comentario »