XXXIX

Mais uma vez

 

“Mas é claro que o sol vai voltar amanhã / Mais uma vez eu sei / Escuridão já vi pior de endoidecer gente sã / Espera que o sol já vem…”, canta ao rádio Renato Russo, e a doçura de sua voz toca minha alma mansa na noite de agosto que mansamente cai.

Canto com ele com o peito tomado de esperança e tenho vontade de abraçar-te, ó tu, que a escuridão alcança. Vislumbra a luz na alvorada próxima, pois não há mal que sempre dure e quando menos esperares, abre-se uma porta por onde penetrarás sem sequer olhares para trás.

Enquanto a luz não vem, deixa eu te cantar esses versos como uma mãe os cantaria a uma criança: “Quem acredita sempre alcança! Quem acredita sempre alcança! Quem acredita sempre alcança…”

15 agosto , 2010 | Autora Amneres | Nenhum Comentario »

XXXVIII

Sobre bem-te-vis

 

O sopro da ventania traz uma estranha alegria ao meu coração. Depois, silencia e ouço ao longe o manso latido de um cão. Será passageira a sensação - pergunto-me, preguiçosamente, recostada à rede. A tarde é plácida e leve nesse mundo azul e verde e pássaros diversos abençoam a luz suave com sua doce visão. O sol já quase se despede, depois das quatro da tarde e o canto dos bem-te-vis parece dizer-me: vai! Então, fecho os olhos e agradeço a Deus estar enfim alegre, estar enfim em paz.

13 agosto , 2010 | Autora Amneres | Nenhum Comentario »

POESIA EM TEMPO REAL - PARTE II

XXXVII

 

Sobre recomeçar

Um furacão passou em minha vida e devastou-me a alma.

Primeiro, fiquei sem ar e uma dor ininterrupta transpassou-me o peito.

Não exatamente no coração, mas num ponto equidistante entre um e outro seio.

Exatamente no chacra da emoção - ensinam-nos os iogues.

Durante um mês, lancei ao mar um pranto tão salgado e quente quanto aquelas águas.

E pude rezar embalada pelo quebrar de suas mansas ondas.

Quando voltei, o Cerrado seco parecia eu por dentro, e continuei em silêncio.

Ele é meu oráculo, incógnito leitor.

Dele vem a luz que ora vislumbro e te ofereço.

Pois que viver é tão somente isso:

Eterno fim…eterno recomeço.

 

12 agosto , 2010 | Autora Amneres | 4 Comentarios »

NOTA DE MODERAÇÃO

            Hoje – ó leitor imaginário -, dou uma pausa em nossa viagem para recuperar o fôlego e traçar a rota de novos textos a serem escritos para teu deleite e consideração. Deixo-te aqui os 36 poemas que compuseram o Poesia em Tempo Real (Parte I) para que os revisite quando quiseres. Só tua leitura me alimenta a alma e o coração, por isso, peço-te licença para o descanso, a contemplação e a reflexão – minha e tua – e solenemente te prometo para breve meu retorno a esse blog, com o Poesia em Tempo Real (Parte II). E para despedir-me (quiçá só por uns dias), deixo-te de presente essa reflexão que acabo de escrever sobre o mistério da Imaculada Conceição da Virgem Maria:

            Penso na Divindade de Maria e em Paulo Coelho – o premiado escritor -, que revelou-me em sonhos existirem, no mundo inteiro, legiões de adeptos dessa idéia. És Divina, Senhora, pois de nenhuma pecadora – como eu – nasceria Ele, o filho unigênito de Deus, o próprio Deus feito Homem – reflito, quase dois anos depois de ter tido o sonho e lido o livro. As coisas da fé são assim. Exigem tempo de maturação para que a mente se abra aos mistérios do Criador e da criação, aos mistérios do Verbo feito Carne. Foi o Papa Pio IX quem proclamou o Dogma da Imaculada Conceição, em sua bula Ineffabilis Deus, no ano de 1854. Quatro anos depois, em 1858, na vila francesa de Lourdes, a própria Virgem Maria proclama, em uma de suas aparições a uma menina de 14 anos, chamada Bernadete (Bernardita) Soubirous, que assim o relatou: “uma mulher vestida de branco com um cinto azul de onde pendia um rosário, aureolada por uma luz sobrenatural, que lhe dizia: “Eu sou a Imaculada Conceição” (aparição de 25 de março de 1858). E no entanto, somente hoje, 156 anos depois, minha mente imperfeita compreende a beleza e a verdade desse mistério que ora divido contigo, meu amado e virtuoso leitor, para que te ilumine, como a mim iluminou.

* A Imaculada Conceição é, segundo o dogma católico, a concepção da Virgem Maria sem mancha (mácula em latim) do pecado original. O dogma diz que, desde o primeiro instante de sua existência, a Virgem Maria foi preservada por Deus, da falta de graça santificante que aflige a humanidade, porque ela estava cheia de graça divina. Também professa que a Virgem Maria viveu uma vida completamente livre de pecado. A Imaculada Conceição foi solenemente definida como dogma pelo Papa Pio IX em sua bula Ineffabilis Deus, em 8 de Dezembro de 1854.

* Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei é o nome do livro do escritor Paulo Coelho, lançado em 1994. 

 

27 maio , 2010 | Autora Amneres | 1 Comment »

XXXVI

Sobre ciclos

 

Exatamente um ano se passou – de maio a maio – penso, e não sei por que louca associação sinto ser um novo tempo. O fim de um ciclo de lágrimas e encantamento, como dois rios que chegassem à foz ao mesmo tempo e causassem, a princípio, redemoinhos, até misturarem-se às águas salgadas do azul atlântico. Amanhã, parte a nau em que me abrigo singrando mares e oceanos. Portos revisitados ou novas terras a serem descobertas, onde me levarão as águas que me navegam? Que sejam plácidas, e que sejam tépidas, é o que deseja hoje meu marinheiro coração. E a luz do amor me guie, como um farol traçando a rota certa, iluminando a escuridão.

 

26 maio , 2010 | Autora Amneres | Nenhum Comentario »

XXXV

Sobre asas

Seu ex-marido ligou e disse ter tido um pesadelo em que ela se afogava. Só se for nas próprias lágrimas - pensou e disse-lhe algo sobre não ser nada, só mesmo dor de amor. Mas ninguém morre disso - dizem-lhe o tempo todo seus amigos. Resume-se a olhá-los entre cética e estupefata, pois tem certeza de que não só se pode morrer dessa dor, quanto ela tem sido fatal para inúmeros personagens da história real, desde que o mundo é mundo. Quantos foram vítimas da tragédia do amor perdido, do amor roubado, do amor interrompido no auge de seu ardor? Quantos enlouqueceram, desistiram, tornaram-se cínicos? Quantos livros foram escritos para contar essa saga? Quantos atos desesperados foram cometidos? Pergunta-se, do alto da sacada aonde assiste à tarde fulgir, inebriada pelo canto de um bem-te-vi. Ele canta alto, acho que canta para mim - ela pensa e dá um salto (ainda bem que tem asas).    

25 maio , 2010 | Autora Amneres | 2 Comentarios »

XXXIV

 

Sobre doação

A réstia frígida de orvalho do sol
da manhã toca-me a pele do corpo
sonolento. Acordar cedo e saudar
os pássaros e o frescor do tempo.

Depois, deixar-se descansar ao colo
da manhã de maio e agradecer à vida
pela paz desse momento. Viver cada
minuto no que ele tem de belo e raro;

É disso que nos falam os sábios e os ciclos
do tempo – escrevo os versos em meu diário
e então vos ofereço em benefício.

Se não vos encantarem, meus irmãos,
Às amarguras sirvam de unguento,
pois para consolar-vos os tenho escrito.

24 maio , 2010 | Autora Amneres | Nenhum Comentario »

XXXIII

Sobre príncipes

 

O azul,

o azul,

o azul.

 

Céu sem uma nuvem.

 

Infinito blues de

Tracy Chapman

no dial do rádio.

 

Vamos brincar

de Branca de Neve

e príncipe encantado?

 

É só um beijo

e tudo cessará:

a dor,

a saudade

e o desejo.

 

(Pedido de amiga,

vamos brincar?)

23 maio , 2010 | Autora Amneres | Nenhum Comentario »