Poemas e textos de Internautas

XIX

Brasília I

    EMANUEL MEDEIROS VIEIRA

Cidade das mangueiras em flor,
dos fundadores da utopia,
candangos, barra vermelho,florzinhas do cerrado
pássaros, encantos cerrados,
cidade do amolador de facas
(ela tem esquinas sim, mas é preciso decifrá-las),
da louvação às primeiras chuvas,
terra molhada em janeiro
         
Não, meu coração não quer saber da urbe palaciana,
dos maquiáveis planaltinos,
intrigas com soda cáustica.
                                
Cidade dos criadores,
da mistura de tantas raças, vários brasis
(ah, a moça tomando sorvete no ponto de ônibus).

Cidade do meu viver e do meu sobreviver,                                                    
de todos os sonhos,
das linhas retas do arquiteto,
e cidade do meu repouso.

XVIII

SÍSIFO
      
EMANUEL MEDEIROS VIEIRA 
                               
      Incansavelmente
      Bordo a túnica do passado.
      Exausto, teço e desteço.
      Acumulo, nunca unifico: sigo a jornada –
      Sísifo da solidão planetária.
                                
      Sim, teço.
      Mas é próprio do meu barro destecer sempre.
      (Resta-me a memória do mundo.)
                                
      Um pouco de Mozart, e este amanhecer azul.
      Celebro o instante:
      se não posso convertê-lo em sempre
      (sou finito),
      abraço-como um náufrago sorridente.                             

XVII

Clarice por Clarice

      Ana Maria Lopes

 

 

 

Clarice Lispector detestava dar entrevistas. Mas sabia fazê-las como ninguém. Para falar de si ela preferia escrever. Aqui, um pouco de Clarice nas frases pinçadas de seus textos: “Nasci na Ucrânia, terra de meus pais. Nasci numa aldeia que não figura no mapa de tão pequena e insignificante. Fiz da língua portuguesa a minha vida interior, o meu pensamento mais íntimo, usei-a para palavras de amor.” “Nasci para amar os outros, nasci para escrever e nasci para criar meus filhos. Amar os outros é a única salvação individual que conheço. A palavra é o meu domínio sobre o mundo. Quanto aos meus filhos, eu quis ser mãe. Se eu não fosse mãe seria sozinha no mundo. Mas sempre me restará amar. Amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba”. “Se uma pessoa fizesse apenas o que entende, jamais avançaria um passo.” “Quero escrever o movimento puro”. “Eu te conheço até o osso por intermédio e uma encantação que vem de mim para ti. Só há uma coisa que me separa de ti: o ar entre nós dois. Às vezes para ultrapassar esse quase cruel afastamento, eu respiro na tua boca que então me respira e eu te respiro. Mas só por um único instante, senão sufocaríamos-nos: seria o castigo que se recebe quando um tenta ser o outro”. “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.” “Eu vou lhe dar de presente uma coisa. É assim: borboleta é pétala que voa”.   Para Clarice Lispector fiz estes versos - por admiração e gratidão. Clarice, lhe espero na esquina da palavra clara na dobra do soneto na prosa do seu livro morto Clarice, lhe espero pra olharmos a escuridão com lente e descobrirmos o que há além Clarice Lispector, não, criar não é imaginação é preciso correr o grande, o imenso e insuportável risco de se ter na mão a realidade

 

XVI

São João de Deus

                 Luiz Martins da Silva

Amar o próximo como a si mesmo:

O mais perfeito de todos os princípios;

A mais difícil de todas as práticas;

A chave de todas as salvações.

 

Ensinar o maior dos mandamentos:

O motivo de tantas religiões,

A razão de tantos séculos da filosofia,

Com todos os sábios e suas ciências.

 

Quase inconcebível propósito,

O de sentir no outro a própria pele,

Mas bem que alguns foram longe

Nessa missão de tanger montanhas:

 

Vencer o egoísmo, a primeira delas;

A última, não se embriagar de vaidade.

Escrever nas páginas da própria vida

A saga moral do amadurecimento.

 

Alguns fizeram do chamado

A razão de todos os seus dias.

Um certo João, luso de Montemor,

Amou o próximo como ao próprio Criador.

XV

AVES
 
      Bic Prado
 
ALÉM MAR
DENTRO DOS ENCONTROS
DOS PONTOS
PORTOS ALIMENTADOS
CULTIVADOS
DADOS
FARÓIS ALUMIANDO
POR ENTRE AS PARAGENS
DAS AVES LILASES
DE SOL
LUZ ALÉM
ENTRE
ROSA DE NASCER
AZUL DE CHEGAR
SOLARIZAR
SAUDAR
SARAR

AS RARAS VERTIGENS DOS VÔOS DAS AVES

XV

EMIGRADOS
       EMANUEL MEDEIROS VIEIRA
 
Emigrados,
seremos sempre,
emigrados.
 
Em busca de outro mar,
da última ilha,
seguindo os pássaros,
atrás do último pássaro.
 
De um mar a outro,
de uma ilha à outra ilha,
e, então, dormiremos,
uma noite sucedendo-se à outra.

 

XIV

Observador lunático

- oito movimentos de um eclipse -

                       Luis Turiba

 

1

a lua faz seu show feminino

no palco do céu vinho tinto

 

2

strep-tease na boca da luz

de frente

de costas

de ladinho

a lua alinha sua calcinha

 

3

faz da nuvem toda oca

seu leito nupcial

a sombra engole a lua

quasenua em seu luau

 

4

entre lençóis enlaçados

renasce a lua em cima

das próprias sombras da cama

renasce as cinzas

 

5

não adianta se esconder

lua não tem pr’onde escorrer

 

6

lua vermelha sonha vergonhas

no céu ninho da grande cratera

quem me dera quem me dera

ter um pé na lua amarela

 

7

aver

         me

                lhada

lua or

          va

                lhada

lua gostosa & molhada

 

8

a tinta luz da lua

respinga em nossa banheira

são pingos quente um cio

de uma deusa ao sol & solteira

 

XIII

dobradura

          AL-Chaer

 

que me dobrem

    as palavras de amor

       amarrotadas

 

         esvair-me em quinas

        as arestas de amor

          entre os planos

                os muitos planos

    e os planos de dobra

 

fendas calcificadas

    as cicatrizes se formam

    ao barulho de ossos quebrados

 

  e um maçarico

       acostumado a fundir o aço

       teima em derreter coágulos

 

        interpola em linhas retas

                      sal e ardor

 

       molda

              as pontadas de amor

 

origami

de

   agulhas e lâminas

          em carne viva

 

     uma vez coração carpaccio

                     consumir no dia

 
XII

Estranhas florações

Luiz Martins da Silva

 

Exóticas floras, estranhas formosuras,

Brotam de um chão vermelho e calcinado.

Não parecem flores, não parecem frutos,

Estranhos contra um céu profundo, é o Cerrado.

 

Estranhas formas, cada estranha criatura!

Casca grossa, cheiro forte, gosto ácido.

De tão estranhas nem parecem maduras,

Mais figuram como seres de um cretáceo.

 

Tudo aqui pareceu estranho ao candango

E também aos que foram pioneiros.

A terra era óxida, as sementes medonhas,

Na própria casa pareciam estrangeiras.

 

Fui conhecendo e amando cada uma aos poucos:

Guairoba, guariroba, cagaita, mangaba, pequi.

Cada qual se apresentando com um nome mais louco:

Articum, araticum, mamacadela, baru, bacpari,

 

Agora, que já não causariam nenhum espanto,

Foram-se, deram lugar a safras mais domésticas.

Procuro-as em toda parte e não encontro.

Saudosas espécies de extravagante botânica!

XI

Athos

     Marba Furtado

Agora já é um fato:
ficam os atos de Athos.
Ele, passarinho…

X

Sem título

    Cícero Gomes

As vezes ela chega de mansinho
tão clara como água de riacho.
me embala
me deixa melancólico
aquele sorriso de menino acanhado.
Quando ela chega
dá uma vontade de andar de trem
beijar o pôr do sol
sair pela mnha rua
falar com desconhecidos…
duro quando ela atrasa
ou se esquece de mim
(as vezes passa dias, meses)
não dá notícias
não liga
não manda email
nenhum recado,
poesia

essa é para você.

IX

Presente
      Ana Maria Lopes

Eu não posso te dar uma mina de diamante
Eu não posso te dar um camelo
Só posso te dar esta vida errante
e

dividir contigo  meus pesadelos.

 

VIII

Noturno
      Ana Maria Lopes

Abri a porta para você entrar
com a língua de fogo cuspindo palavras
que hoje nessa sonífera manhã
não consigo decifrar
e
faço versos e loucuras para que eu mereça
a cabeça que rola noturna nos travesseiros
preocupada
com o prenúncio da chuva
o asfalto molhado
a grama recém plantada

Ao abrir a porta refiz a nudez
do meu corpo menopáutico
maduro como polpa de lychia.

 

VII

Sem título

       Bella Santiago

Navego à proa de uma nau antiga
estreita faixa navegável
no tênue espaço
entre o mar e a tarde.

Comigo levo nos porões vazios
escassos sonhos, esvaecidos dias,
restos de amores quase esquecidos.

Olhando em frente
em direção do Leste
desconheço o escuro
que me vem ao encalço
persegue meu rastro
de ar e espuma.

Qual marinheiro de bravios mares,
perdendo a vida
mas nunca a alma pura,
célere navego
para o fim do mundo.

 

VI
Sem título
       Salomão Sousa

Sempre vou me atrasando para alguns compromissos, às vezes empurrado pelo simples enfado. Até agora não desejei boas festas a nenhum amigo. Não é por desleixo ou desamizade — é um tédio de querer ficar em suspenso, sem a necessidade de ser heróico, ético ou cataplético. Ficar borboleteando sobre a flor
e a lama, e continuar humanamente borboleta, amigo da lama e da flor.

Apanhei ao acaso o romance “A hora da estrela”, e Clarice Lipector que, ao escrever esse livro, é ela mesma ou outro personagem masculino que constrói, num gesto quase filosófico ou de manifestação santa, o ápice de beleza a partir de uma vida simples.

E há uma frase nesse livro que vai servir para eu saudar os meus amigos neste fim de ano: “tudo que amadurece pode apodrecer”.

Portanto, não vamos nos preocupar em ser perfeitos ou em nos realizar completamente. Mas vamos imitar Julien Sorel, do romance “O vermelho e o negro”, de Stendhal, que está preocupado em ser feliz. Talvez tenha vindo deste romance a expressão: “estou morto de felicidade”.

Vamos simplesmente ser felizes, dentro do tédio, do torpor, dentro da gala se a gala a nós se apresentar.
E, para completar a felicidade, ler pela obrigação da felicidade, pois há felicidade no instante em que o conhecimento nos fricciona — ler um destes três livros:

1) A hora da estrela, de Clarice Lispector. Meu deus — são menos de cem paginazinhas, de total aventura da beleza e do pensamento.

2) O velho e o mar. Hemingway construiu a sua fábula num momento de total desespero, de falta de outro imaginário, quando teve uma recaída de produção. Sempre as quedas permitem essas fatais fábulas da obviedade que nuca vemos. O velho Salvador nos mostra que a felicidade é cumprir a tarefa. Toda vez que leio as menos de cem páginas deste grande livro, meu coração se contrai.

3) Moby Dick. Meu velho Melville, só mesmo você existindo para existir Camus, Nietszche, a filosofia do absurdo. Temos de ter um adversário, uma baleia branca com que lutar para que o tédio não nos destrua o fígado.

E assim já matei o tédio da insônia, com este texto baleia-branca, para saudar os meus amigos. Não nos entediemos, em 2009, a ponto de xingar o garçom, o motorista, o irmão. Xinguemos, antes, nós mesmos, por não compreendermos o tédio, o rancor. Deixemos o outro fazer o seu trabalho, a ter a sua aventura, a sua traição. Sejamos humanos, incompletos e compreendamos que o outro também é incompleto, que o outro está em seu lento e errático amadurecer. Compreendamos que o eu e o outro ainda não se entrelaçam em definitiva completude. Compreendamos que a incompletude faz a felicidade, pois torna possível a interminável aventura de combater a escassez de lugares no mundo. Quem se achar completo, o bom, o bam-bam-bam — está pronto para a morte. Eu, mesmo, quero morrer o mais tarde possível, deixando alguma vacuidade de incompletude para que outro possa vir preencher com o seu pouco, com a sua escassez de completude.

Não amadureçamos tão rápido para não apodrecermos. Aproveitemos um pouco mais de sol, em 2009, como Salvador e Ahab.

V
O quarto Rei Mago
            Luiz Martins da Silva

Tanto se atrasou pelo caminho,
Perdeu da estrela o rumo
Era o Quarto Rei Mago.
Quando enfim, achou, o menino
Já era o Homem, na Cruz.
Pediu perdão a Jesus,
Pelo atraso e única pérola
Restante de tanto empenho
Pelos coxos e mendigos
Que socorreu pelo caminho.
Do Rei dos Judeus, no lenho,
Caída a última lágrima,
Cristal feito agradecimento:
“Em verdade me encontraste
E encontras a todo momento
Quando amparas a um irmão pobre
Ou a um desvalido ao relento.
Lá estarei, estrela-guia,
Do Mago o gesto mais nobre,
Aquele que me dá alegria”.

 

IV
NATAL
    Emanuel Medeiros Vieira

O menino mítico não submerge,
inunda-me: natal.
Ele contempla uma presépio imemorial,
espreita a eternidade.
Natal:
oferendas, missa do galo, um rei mago,
o menino está em paz.

 

III
Sem título
         Cicero Gomes

ah lago de para no ar
paranoá
sempre fico triste de ver tuas
águas
desaguadas
represadas
como a minha vida
tesa de silêncios.
um dia eu vou a brasília
só para te rever
tomar um porre
e talvez eu mude
de idéia
sobre tuas águas
sobre o que transportas,
lago paranoá.

 

II
o nume ausente
           angélica torres lima
procura-se no outono
o céu de primavera,
mas o fado
traçado a punhal
na areia mais cálida
é o que se encontra :

o sol já à morte
deitado nas ondas
em rede pescado
levado à margem
frito em pedaços
vendido nos templos
e devorado
por humanos.

aqui, nesta gleba urbana
por onde já andou índio
com sua caça ao ombro,
penso sinceramente
na pouca valia da vida
com sua teia de perigo,
tão pouco aceso abrigo,
sobressaltando as gentes.

 

I
Paradise Plan
     Evelyn Pena

I would like to be a white page
where you write poems

a paradise plan
where you draw corners, squares
and gardens

I want to be a house
where you choose
windows views
and colourfull walls

I am a glassy roof
and the sky
you only see trought me

If you see blue
we swimm together

If you see stars
we have the same dream

 

If you lay with me
In a sunset warm sand
feeling the sea waves swing
that will be, my love,
our favourite song.